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O maior programa social da história do Brasil: o Plano real


Por Felippe Hermes
Julho 1, 2020

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Em um único ano e com o descrédito de boa parte da classe política, o plano real derrubou a inflação e tirou 16 milhões de pessoas da pobreza.

O ano era 1990, Fernando Collor havia tomado posse como o primeiro presidente eleito pelo voto popular após um longo período de ruptura democrática no país. Logo na posse, o plano que seria sua ruína foi anunciado.

Ao contrário do imaginário popular, o plano não se resumia ao confisco da poupança, como você pode conferir neste trecho do Jornal Nacional aqui. Também contrariando outro mito, o plano foi amplamente aceito pela classe política, por economistas e pela própria sociedade, que deu a Collor 67% de aprovação logo após o anúncio da medida.“É o melhor plano que já foi feito neste país” – declarou Maria da Conceição Tavares, economista do PT.

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“Coerente, bem concebido e tem chances de êxito” – segundo o tucano Bresser Pereira. Mesmo liberais e empresários enxergaram ali pontos positivos. Roberto Campos, então senador, e que havia discutido duramente com Zélia Cardoso, a ministra da economia, viu uma chance de o plano “reverter o mito de que a inflação é causada pela rigidez estrutural, e não da expansão de moeda”.

Mesmo o FMI, o Fundo Monetário Internacional, ou “padrasto dos argentinos” no apelido popular, via o plano com bons olhos. Segundo Alexandre Kafka, representante do Brasil no FMI, a entidade enxergava o plano como “única alternativa”.

Dali a 3 anos porém, a situação se inverteria. O Brasil já teria percebido o completo fracasso de Collor, que o levaria ao impeachment, e o estaria de olho em outro plano.

Foi por essa época que Gustavo Franco e Pedro Malan, este último ex-diretor do Banco Mundial, chegavam ao mesmo FMI com um rascunho de um plano novo. O objetivo dos dois era garantir a confiança da entidade para que essa emprestasse recursos para a realização de um acordo com os EUA, no chamado “Plano Brady”.

Brady, o secretário do Tesouro americano, havia aberto negociações com toda a América Latina para sanear as dívidas, que após a chamada “década perdida”, ainda travavam as economias da região. Para conseguirem entrar no plano, os países deveriam obter junto ao FMI uma certa quantidade de títulos que dariam lastro ao acordo.

O problema? Desta vez a entidade estava cética sobre o tal plano. Confiavam muito mais no plano argentino, o plano Cavallo (aquele mesmo que levaria os argentinos a sua grande crise de 2001).

O fato é que o Real nasceu em um ambiente de desconfianças. Tivemos 7 moedas em apenas 20 anos, inúmeros planos e tentativas de resgatar a confiança em nossa moeda. Em comum, boa parte possuía sua versão de tabelamentos e congelamentos, e ignorava aquilo que Campos alertava durante todo este tempo: a expansão desenfreada de moeda.

De um bunker em Brasília e desconfiança por todo o lado, o plano Real foi gestado. Políticos como José Serra, e o próprio Itamar, ainda acreditavam na necessidade de um congelamento de preços.

O objetivo porém, era mais amplo. O Real não cabia em nossa realidade. Até 1994, dezenas de bancos públicos pelo país imprimiam dinheiro para sustentar seus acionistas, os governos estaduais. Sequer um orçamento possuíamos, afinal, planejar-se em uma hiperinflação que batia a casa dos 3000% era um desafio que não valia a pena.

Como o real viria a mostrar, não há como existir desenvolvimento social e econômico real (sem trocadilhos), sem uma moeda forte e que garanta previsibilidade.

Naquele mesmo ano de 1993, por exemplo, Simonsen e Cysne contam que o chamado “imposto inflacionário”, tinha chegado em 4% do PIB. Em outras palavras: aqueles que imprimiam moeda (bancos e o governo), estavam embolsando 4% de toda a riqueza produzida no país.

Pra você ter uma melhor noção do que isso significa: imagine que o banco A crie 100 cruzados hoje, ele então irá emprestar estes recursos ou comprar algum bem e serviço. Com a inflação galopante, estes mesmos 100 cruzados irão ter um poder de compra de 20 em alguns poucos meses.

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Como você já deve ter sacado, a turma que pegava o dinheiro por último era bem definida: os mais pobres. No economês, você irá encontrar essa ideia também detalhada no chamado “Cantillon Effect”.

Não é coincidência alguma que o Brasil tenha se tornado o segundo país de maior concentração de renda do planeta, e um dos mais desiguais do mundo. Criamos nas décadas anteriores mecanismos para corrigir a inflação, a tal “correção monetária”, mas ignoramos que ela apenas servia aos ricos e a classe média que tinha acesso aos mecanismos de proteção, também conhecidos como bancos.

Ainda hoje há 45 milhões de brasileiros sem acesso a uma conta bancária, e cujo dinheiro segue perdendo valor dia após dia.

Veja bem, nos 15 anos que antecederam o real, encaramos uma inflação de 13.342.346.717.617,70%. Sim, Trilhões!! um número tão grande que possivelmente só quem acompanha a valorização do Bitcoin desde sua criação saberá dimensionar. Tudo repassado a camada mais pobre da população.

A grande contribuição do real não é portanto nada abstrata. Apenas em 1994, cerca de 9,8 milhões de pessoas (¼ do total), sairiam da pobreza, e outros 6,2 milhões, ou 4 em cada 10, sairiam da extrema pobreza.

Tudo isso em um ambiente de desconfiança e descrédito, como o resumido pelo então candidato em 1994, Luis Inácio Lula da Silva, que dizia sobre o Real: “Irá apenas congelar a miséria”.

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Lula errou, dramaticamente, graças a mais uma das previsões furadas de Guido Mantega (seu conselheiro econômico nessa eleição).

O curioso porém, é que foi o Real quem garantiu ao mesmo Lula, enquanto presidente, planejar um orçamento previsível e utilizar os bilhões que o país passava a receber.

Que o turista mais famoso do Guarujá não tenha compreendido o impacto e a importância de uma moeda sólida, é compreensível e bem documentado, como relatam os jornalistas Claudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira, no excelente “Anatomia de um desastre”, (que você já deveria ter lido), quando da eleição de 2006, onde a grande preocupação de Lula era na realidade com a rigidez com a qual Meirelles tratava os juros e priorizava o controle inflacionário em detrimento do crescimento.

O fato é que o real, a despeito dos seus percalços e do descaso com o qual foi tratado por anos, trouxe ao país a possibilidade de se planejar. Algo simples, mas que demandou uma verdadeira “Saga brasileira”, para citar o também excelente resumo que a jornalista Miriam Leitão fez do caso.

Aos que hoje flertam com a possibilidade de imprimir moeda e sanar os males do mundo, o recado da história está dado.

Não há riqueza real sem uma moeda forte.

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