Economia

Quem é Guido Mantega, o mentor intelectual da crise de 2015

Ministro da Fazenda mais longevo da história, Guido Mantega esteve por trás de medidas polêmicas e fracassadas que levaram o país à maior recessão da história.

“Existem alternativas mais eficientes de combate à inflação (…) É fácil perceber por que essa estratégia neoliberal de controle da inflação, além de ser burra e ineficiente, é socialmente perversa” (Folha de S. Paulo, 16. 8.1994).

Cerca de um ano após assumir o cargo de assessor econômico de Lula, Guido Mantega resumiria com estas palavras o Plano Real.

A hiperinflação já se alastrava há anos no país, batendo 1168% no ano de 1993.

Os bancos faziam a festa, lucrando ao menos 3% do PIB com a impressão de dinheiro. Considerando o PIB atual, seria algo como R$250 bilhões em lucro, sem qualquer prestação de serviço além do privilégio inerente aos bancos de criar dinheiro.

Até aquele momento o país já havia tentado quase tudo para conter a Inflação. Chegamos ao ápice de apreender boi no pasto para fazer cumprir o congelamento de preços.

Para Guido, porém, o plano real era um crime. O plano, que consistia em conter gastos públicos, eliminar a impressão de moeda e atrelar a nova moeda ao dólar, destruiria o poder de compra da população. 

Foi seguindo Guido, e outros nomes econômicos do partido, que o PT cravou seu nome na história votando contra um plano econômico que em 1 único ano fez 9,8 milhões de pessoas saírem de pobreza.

A pequena bola fora, porém, não escanteou, ao contrário. Auto-crítica é coisa de quem carrega culpa burguesa.

Guido seguiu assessorando Lula, incluindo aí a eleição vitoriosa de 2002.

Com Lula eleito, entretanto, o genovês que imigrou ainda adolescente para o Brasil, acabaria com um cargo menos relevante na Esplanada, o de Ministro do Planejamento.

O cargo de Ministro da Fazenda ficaria com o exímio contabilista e amigo de empresas de limpeza urbana, Antônio Palocci.

Sob o comando do médico Palocci, o ministério levaria ao extremo as políticas neoliberais que tiraram o sono de 10 entre 10 economistas ligados ao PT durante os anos 90.

O tripé macroeconômico (câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário), atingiria os melhores resultados da história, ainda hoje.

Palocci promoveu um corte de gastos brutal, uma agenda de programas sociais focalizados, como o Bolsa Família, contrário a programas dispersos como o falido Fome Zero.

O resultado foi que, ao contrário de Guido, muitos não souberam colocar o partido e a política a frente, e saíram com críticas à política econômica.

Dentre eles, Carlos Lessa, então presidente do BNDES, que atribuía a Henrique Meirelles uma política monetária de “arrocho”, que parecia um “pesadelo”.

As críticas de Lessa fizeram o governo retirá-lo do cargo, colocando Mantega no lugar.

E foi ali, comandando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, que Mantega ganhou escala.

Meros 2 anos depois, porém, Palocci seria exposto na CPI do Mensalão. Sob seu comando, a Caixa Econômica Federal promoveu uma violação de sigilo bancário, numa tentativa de desacreditar um depoente da CPI que depunha contra o ministro.

Em junho de 2005, já sob o fogo do Mensalão, Mantega caiu pra cima. Se tornou Ministro da Fazenda.

Em seu lugar no BNDES deixou Luciano Coutinho, o gênio por trás da Lei da Informática, que fechou o mercado brasileiro nos anos 80, permitindo a criação de computadores nacionais de antepenúltima geração.

A luta de Mantega para mudar a política econômica não foi fácil.

Ele agora tinha a caneta, mas possuía uma trava significativa: o Banco Central.

Em “Anatomia de um Destes”, os jornalistas do Valor Ribamar Oliveira, Cláudia Safatle e João Borges, narram que o presidente do BC teria sido intimado a “pensar eleitoralmente” sobre os juros.

A política de juros alto vinha dando resultado em conter a inflação, que seguia próxima ao centro da meta, e combinada com a política de superávits primários, permitia uma queda gradual nos juros.

Para Mantega e outros economistas ligados ao Partido, a queda era lenta, e os juros eram um dos tantos “preços errados da economia”.

Ainda assim, Meirelles venceu, e seguiu no comando do BC.

Limitado pelos juros, Mantega se aproveitaria de um fator externo para atacar em outra frente: a do crédito subsidiado.

A lógica era simples. O mundo agora estava em crise, ocorrida diretamente na terra do Tio Sam. Por que então seguir o receituário neoliberal prescrito pelo FMI direto de Washington?

Com essa linha de pensamento, Guido e Luciano Coutinho dariam início ao “PSI”, o Programa de Sustentação do Investimento, que você talvez tenha ouvido falar como “política de campeões nacionais” ou ainda, “bolsa empresário”.

A lógica era também simples. O governo tomava crédito emprestado pagando 14% ao ano e emprestando ao BNDES cobrando 5% ao ano. O BNDES por sua vez emprestava a 6%. Com uma inflação em 4-5% ao ano, era uma verdadeira pechincha.

Na teoria de Guido, isso ampliaria o potencial de investimentos do país, o que era uma das travas para o crescimento.

Na prática, ocorreu um efeito chamado de “crowding out”. O governo entrou pela porta com uma sacola de grana e bancos e investidores privados saíram pela janela com a sua própria grana.

Quem afinal pegaria dinheiro emprestado na bolsa, tendo acionistas cobrando resultados, se o governo tá dando dinheiro de graça?

O resultado foi um programa que durou ao menos 7 anos, emprestando R$1,7 trilhão, dos quais R$1,2 trilhão foram destinados a grandes empresas. O custo para o pagador de impostos: R$300 bilhões.

O PSI, porém, foi apenas uma das tantas contribuições de Guido para o desastre nas contas públicas que seria revelado tão logo a reeleição de 2014 passasse.

Em 2011, já sem Meirelles para atrapalhar, Guido pode colocar em prática sua análise, corroborada pela recém eleita Dilma Rousseff, de que os preços da economia estavam errados.

O câmbio estava distorcido por uma guerra cambial entre EUA e China. Os juros eram altos graças a pressões internas de rentistas, enquanto as contas públicas eram rígidas demais, sem estimular o crescimento.

Enquanto se endividada para repassar grana ao BNDES, o governo fazia emendas ao superávit primário.

Agora, quando o governo investe em obras, ele não tinha mais obrigação de poupar os recursos. Investir é melhor que pagar dívida (o que faz lá seu sentido, afinal, nunca se soube de um presidente que ganhou votos por pagar dívida).

As metas de superávit primário passaram a ser maquiadas.

Com um novo presidente do BC na área, mais compreensivo, os juros caíram, na marra.

Essa pressão gerou um certo problema de inflação, algo que pode ser resolvido com uma certa contabilidade.

Impressão é desvalorização do dinheiro, mas ela é medida por meio de um índice.

Suponha que um fiscal do governo vá até sua casa e pergunte com o que você gasta sua renda. Você afirma que gasta 30% com aluguel, 40% com alimentos e 30% com transporte.

Se ambos os itens sobem 10%, você tem aí 10% de inflação, mas suponha que ao invés de deixar a gasolina aumentar de valor para o consumidor, o governo decida mandar a Petrobras bancar o resultado.

Temos aí que a inflação deixa de ser 10% e passa a ser 7%! 

Veja bem, todos os produtos estão mais caros. Mas o consumidor está pagando 7% a mais diretamente. Caso o Tesouro banque os demais reajustes (como combustíveis, energia e outros preços administrados), o consumidor segue pagando, mas não entra na conta, fazendo a inflação parecer menor.

Essa bomba de maquiagens por todos os lados acabaria estourando em 2015, quando a energia teve uma alta de 53% e o IPCA fechou o ano em +10,67%.

Outras tantas vezes, como a desoneração na folha de pagamentos, isenções de IPI para carros e eletrodomésticos seriam colocados no rol de políticas públicas.

Guido Mantega terminaria seu mandato como o ministro da Fazenda mais longevo da história do país, ocupando o cargo por 8 anos.

Em nenhum deles endereçamos o problema da previdência (ao contrário, aprofundamos o problema distribuindo desonerações que não geraram emprego), ou uma reforma tributária.

Foram 8 anos de medidas paliativas distribuindo subsídios, e pouco, ou quase nada, em termos de base.

Ao final da longa jornada de Guido, conta-se que o ministro teria alertado a presidente sobre a necessidade de um ajuste nas contas, no que foi interrompido com a lembrança de que o calendário marcava uma nova eleição para dali a 6 meses.

Se Guido buscou se redimir, ou avistou o iceberg, é difícil dizer. O que sabemos hoje, porém, é que como sempre, a culpa é dos outros.

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