Economia

A saga do governo argentino para impedir, em vão, o uso do Bitcoin

Com a maior inflação do G20, a Argentina aperta o cerco para impedir que seus cidadãos tenham acesso a outra moeda que não o decadente Peso Argentino

Foi nos idos de 2010 que a edição Argentina do programa CQC veio ao Brasil fazer um experimento social: perguntar aos brasileiros sobre o dólar.

Como você pode conferir aqui, a reação da maior parte dos brasileiros foi de completo desconhecimento. A moeda norte-americana passa (ou passava), longe do cotidiano dos brasileiros.

No caso argentino, é possível dizer que a moeda do governo, o Peso Argentino, talvez seja um detalhe no cotidiano. Por lá, imóveis e outros bens seguem sendo cotados em dólar na medida que o Peso continua a perder valor.

Este cenário, que levou a paridade Peso-dólar de 1 para 1 em 2000 para os atuais 1 para 118, é reflexo de uma crise substancial que o país ainda não superou.

No início dos anos 90, os argentinos apresentaram o Plano Cavallo, uma espécie de Plano Real portenho. Por certo período, o plano recebeu maior atenção e elogios que a versão brasileira.

Assim como no Brasil, porém, a paridade entre a moeda local e o dólar se tornou insustentável.

No caso argentino a crise veio em 2001, e se juntou a uma crise política. Em 2 semanas os argentinos viram 5 presidentes ocuparem a Casa Rosada.

Ao contrário do Brasil, que adotou o tripé macroeconômico, além de uma limitação na legislação que impedia o Banco Central de financiar o governo, os argentinos dobraram a aposta no populismo.

Por lá, o período coincidiu com o boom de commodities pós-2001.

O país crescia dado que seus produtos eram mais valorizados no mundo. Tal fato foi suficiente para deixar de lado problemas como uma inflação crescente ou desvalorização da moeda.

Na segunda década do século, porém, ficou evidente que a Argentina tinha mantido seus problemas antigos e ganhado novos, como um déficit público colossal.

Os argentinos passaram a recorrer ao dólar, que começou a se tornar escasso com a queda no preço das commodities.

No meio dessa situação, e com excesso do período de Mauricio Macri entre 2015-19, a legislação em torno dos termos de troca apertou significativamente.

Leis que limitam a quantidade de dólares que se pode comprar, quais serviços assinar no exterior, e câmbios paralelos como o dólar-streaming ou dólar-soja explodiram.

A alternativa dos argentinos foi recorrer a um ativo cuja compra não estava ainda regulada: o Bitcoin.

O país se tornou o 10⁰ colocado no mundo em adoção do Bitcoin, um feito relevante quando se nota que a Argentina ocupa as posições 26 e 32 em tamanho da economia e da população respectivamente.

Para o governo, a rota de fuga encontrada pelos argentinos é um problema considerável.

Em fevereiro deste ano, para agradar o credor FMI, o país impôs mais impostos em transações envolvendo cripto, e prometeu maiores regulações.

Neste momento, o Banco Central argentino reforça os pedidos para que bancos privados não se envolvam cripto. 

Em contexto, o mundo possui $11,3 trilhões em riquezas mantidas “offshore”, ou fora do seu país. Isso equivale a 2% da riqueza global.

Argentinos sozinhos respondem por 3% deste valor, ou $330 bilhões. O número destoa da participação Argentina na população mundial (0,5%), e no PIB Global (0,6%).

De fato, argentinos possuem cerca de 8 em cada 100 dólares físicos que circulam no mundo ($130 bilhões), um número ainda muito mais elevado do que os $6 bilhões em ativos em cripto, mas cuja escala tem mudado rapidamente.

Em 2021, estima-se que os argentinos tenham entesourado $1,86 bilhões em criptomoedas, número similar ao Brasil, país com população 5 vezes maior.

Empresas como o Mercado Livre, criado na Argentina, também tem desafiado o governo ao facilitar o uso do Bitcoin.

Trata-se de uma luta pela sobrevivência que, ao que depender só governo, deve ficar cada dia mais difícil.

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