Artigo

Delfim Netto na ditadura

Como a ditadura fraudou a inflação usando alimentos


Por Felippe Hermes
Setembro 9, 2020

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Sem grande destaque na época, a Folha de São Paulo publicou, em 1977, uma reportagem que poderia ser considerada histórica. Poderia, é claro, se as perguntas certas tivessem sido feitas às pessoas certas.

Em um extenso estudo sobre a economia brasileira, o Banco Mundial avaliou na época que a inflação de 1973 havia ficado em 22,5%. O problema? A inflação oficial, medida pela FGV, registrava 15,3% no mesmo ano.

A manipulação era sabida, mas tratada com desdém. O país vivia neste período o chamado “Milagre Econômico”. Turbinado por crédito barato no exterior, especialmente pelo governo americano, o governo brasileiro promoveu obras de grande porte de norte a sul do país.

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O PIB crescia acima de 10% ao ano, numa taxa que só viria a ser superada pela China no final do século.

Nem todo mundo porém parecia apreciar a euforia, que era ainda mais completa graças ao Tricampeonato da seleção conquistado no México em 1970.

Nesta mesma época, ou mais precisamente em 1972, Albert Fishlow, economista e cientista político, expôs aos brasileiros (ou a uma parcela deles), o tamanho da desigualdade social no país.

Graças a ajuda de Reis Velloso, fundador do IPEA e então ministro do planejamento, Fishlow teve acesso aos dados censitários do país, e publicou na American Economic Review um retrato que em tempos de ditadura dificilmente seriam aceitos por aqui.

A primeira vista pode não parecer, mas ambos os dados, tanto a desigualdade omitida, quanto a inflação fraudada, possuem uma forte ligação entre eles.

O caso mais óbvio entre ambos, pode ser medido pelos reajustes salariais. Enquanto governo e empresas se baseavam no índice oficial, o índice real, bem acima, corroía o poder de compra do trabalhador. 

O resultado é que durante o período militar, o salário mínimo perdeu 50% do seu poder e compra. 

A desigualdade social, muito além de algo natural, por aptidões e talentos distintos entre os indivíduos, se tornou quase uma política de Estado. 

Quem traduziria essa política foi justamente o mais poderoso ministro do regime, Delfim Neto. Nas suas palavras “é preciso primeiro fazer o bolo crescer para então dividir”.

A fala de Delfim era encantadora para muitos, e mesmo hoje em dia certamente encontraria entre seus defensores aqueles que acreditam que falar em desigualdade é o mesmo que recitar O Capital, ou tatuar o hino da soviética no peito.

Longe disso, a desigualdade brasileira travou o desenvolvimento. Com uma inflação galopante, milhões de brasileiros foram jogados para a pobreza, perdendo seu poder de compra. Graças a um baixo nível de instrução, entraram em uma espiral negativa.

Enquanto a classe média e os mais ricos se protegiam no overnight, o cidadão comum percorria uma maratona entre o recebimento do salário e as compras no mercado.

Longe de dividir o bolo, criamos uma imensidão de pessoas alijadas do consumo, o ponto de encontro de todas as classes na economia capitalista.

Para piorar, o endividamento recorde do governo, criou instabilidade na balança de pagamentos, forçando o país a um calote em 1985, seu 10⁰ calote na história.

A década que sucederia o “milagre”, se tornaria conhecida como “a década perdida”, e entraria para a história como a primeira década em que os brasileiros terminariam mais pobres do que começaram (algo que só seria superado pela década atual).

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Tão inacreditável quanto os resultados, é o resumo tranquilo e sereno, quase brincalhão que Delfim faz das fraudes promovidas nos índices.

Também nas suas próprias palavras: 

“Se tinha uma chuva como agora em São Paulo, um sujeito no Paraná ou em Minas dizia: ‘Manda mais caminhões para São Paulo ou para o Rio’, de tal forma a calibrar a oferta. Houve trabalho para fazer isso, não caiu do céu. Foi administração legítima”

Em resumo: se houvesse falta de um produto na Ceagesp em SP, onde a FGV ia medir os preços, Delfim encomendava que se transferisse o estoque do Paraná ou Minas, para São Paulo, inflando a oferta e consequentemente diminuindo o preço.

Como a inflação é medida?

Antes de tudo é importante saber a diferença entre inflação e índice. Para não complicar, inflação é um processo de criação de moeda, o que ao elevar a oferta, diminui o valor da moeda existente. 

Enquanto isso, o índice é medido por uma cesta de consumo. Cada item que as famílias consomem, recebe um peso, e a variação proporcional destes preços leva ao índice de inflação.

Isso permite que não apenas Delfim promova uma fraude ao diminuir o preço do tomate, por exemplo, como também garante que a inflação seja controlada por meio de congelamento de preços (como o ocorrido no Brasil no início desta década, onde a gasolina não teve reajustes, amargando prejuízos para a Petrobras e mantendo o índice na linha).

Em 1977, o então ministro da economia Mário Henrique Simonsen, daria uma explicação que se tornou folclórica para explicar a inflação de março, que subíra 4%: a inflação é do chuchu!

A leguminosa havia tido uma alta de 80% no mês, junto de outros vegetais. Supondo que vegetais tivessem um peso de 5% na cesta de consumo das famílias, teríamos aí que a inflação avançou 4% (supondo também que nada mais varie).

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Durante o governo Collor a culpa migrou pro vestuário. A inflação era culpa das roupas que estavam mais caras. Enquanto isso, no começo do plano Real a culpa foi pro mamão, ou melhor, não exatamente “culpa”, já que neste caso, a queda de preço do mamão provocada pelo excesso de oferta criou uma deflação no mês.

O grande problema aí, é claro, é que a cesta de consumo usada para medir o índice, não é individual, mas feita por uma pesquisa junto as famílias brasileiras.

Isso permite não apenas que o governo altere a cesta retirando um produto, ou represando aumentos de preços em itens controlados (como gasolina, energia, telecomunicações, planos de saúde), mas também crie uma distância entre a sua inflação e a inflação do país.

É possível que na sua cesta de consumo, se ela conter mais produtos eletrônicos, exista deflação. Se você for vegetariano, a alta no preço da carne não irá lhe impactar.

No final porém, seu salário, seu aluguel e outros itens irão depender do índice geral. Neste caso, convém lembrar que fraudes macroeconômicas podem acabar ferrando inclusive seu bolso. 

Justamente por isso, a queda dos juros que propicia aquela alta bonita na bolsa, pode dar a volta e lhe pegar desprevenido, ao inflar o dólar e consequentemente produtos cotados na moeda americana. Convém se manter alerta e não se deixar ser enganado pelo chuchu.

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