Artigo

Protesto na Venezuela

Venezuela está perto de parar de produzir petróleo. Mesmo com as maiores reservas do mundo


Por Felippe Hermes
Agosto 19, 2020

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Loteada por militares que dão suporte a ditadura de Maduro, a PDVSA viu sua produção de petróleo cair de 2 milhões de barris em 2016 para 100 mil em agosto deste ano.

Foi em 1937 que Monteiro Lobato publicou “o poço do Visconde”, retratando de maneira lúdica a descoberta do petróleo pelo Visconde de Sabugosa no sítio do Pica-Pau amarelo. Dali a 2 anos o Brasil enfim descobriria seu primeiro poço, em Lobato, Salvador.

A coincidência da descoberta em Lobato, totalmente acidental, já que o bairro não tem qualquer ligação com o autor, faz jus a um dos mais ferrenhos defensores da exploração da commodity no Brasil.

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Sua defesa contundente das pesquisas na área derivam de outra de suas atividades. Lobato foi adido comercial do Brasil nos Estados Unidos, e vendo de perto o potencial transformador do petróleo, insistia que o Brasil deveria buscar encontrar o produto por aqui.

Por essa mesma época a Venezuela estava se tornado uma potência global na área. Cerca de duas décadas antes de o Brasil criar a Petrobras e 4 décadas antes de descobrirmos a bacia de campos, a Venezuela já produzia 373 mil barris diários.

Corta para junho de 2020 e lá está a produção da Venezuela em 393 mil barris. No meio do caminho, antes do colossal declínio que fez o país com as maiores reservas de petróleo do planeta chegarem a ter dificuldades em produzir petróleo, a Venezuela viu seu apogeu com o produto.

Se em 1934 o país estava largando a produção agrícola e se tornando uma potência na área, em 1970 o país produzia mais petróleo por habitantes do que qualquer outro país no planeta.

Os 3,7 milhões de barris extraídos diariamente do solo, faziam dos Venezuelanos um povo cosmopolita, cuja renda per capita era o dobro da América Latina (e havia chegado a ser a 4ª maior do planeta).

Tamanha exuberância de riquezas criou uma piada comum em Miami, onde os venezuelanos eram reconhecidos como os “Dame dos”, ou “me dê dois”, afinal, com renda elevada e os preços baixos dos Estados Unidos, as compras eram sempre fartas.

Por décadas o petróleo, que é apenas parte das riquezas naturais do país, bancou fartos programas sociais, investimentos em educação e tudo o mais que pudesse aplacar os efeitos perversos da colonização espanhola (que tornaram o país um local de terras extremamente concentradas).

Com tamanha quantidade de recursos, a Venezuela rumou ao populismo. Mesmo antes do Coronel Hugo Rafael Chavez Frias tomar o poder, o país há havia passado por uma grave crise de desvalorização Cambial (na chamada década perdida na América Latina), em função do seu elevado grau de endividamento externo.

Essa não é lá uma questão muito difícil de entender, especialmente se for carioca ou fluminense. Depender de receitas flutuantes para arcar com custos fixos é uma fórmula frágil, que provoca desequilíbrios constantes.

Se for fluminense (ou acompanha minimamente as notícias aqui no Brasil), deve ter visto que o aumento contínuo de salários e aposentadorias feitos na euforia de preços do petróleo entre 2008-2012, quando o barril chegou a valer $160, tiveram um custo salgado.

Na Venezuela não foi diferente. Tamanha euforia internacional levou o governo a promover inúmeros programas sociais que tornariam Chávez amado (não só pelo povo, mas por burocratas no continente e fora dele).

Com dinheiro em caixa, a Venezuela correu para apaziguar as tensões sociais, e pouco fez para diversificar a economia. Ao contrário, o país utilizou os recursos do petróleo para achacar o setor privado, promovendo estatizações constantes.

Projetos mirabolantes foram tocados, como a parceria com a Petrobras para construir a refinaria de Abreu e Lima em Pernambuco. 

Quando o barril voltou a despencar porém, o país pulou fora. Deixou Abreu e Lima integralmente com a Petrobras, que foi forçada a arcar com os custos da refinaria mais cara do planeta (e das mais rentáveis, ao menos se você for a Odebrecht).

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Neste período, que coincidiu com a morte de Chávez em 2013, o país passou a tentar manter ao menos os programas que já haviam sido criados. 

A PDVSA, estatal petrolífera do país, passou a ser cada vez mais demandada. Recursos de investimentos foram suspensos, e repassados ao governo

Quando se tornaram insuficientes, o governo decidiu então hipotecar o petróleo futuro

Nos últimos 10 anos apenas, a China emprestou a Venezuela $62 bilhões de dólares, cerca de 20% do PIB do país em 2011.

Pagos em petróleo, os empréstimos estavam sendo quitados, até que, já por 2016, a produção da Venezuela começou a ser insuficiente.

Desde então o PIB do país não para de cair. De uma queda de 3,6% em 2014, o PIB do país chegou a cair 19,6% em 2018.

Desde 2014 a Venezuela já ficou 66% mais pobre, e hoje nada menos do que 97% da população está dentro da linha da pobreza.

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Como você já deve ter sacado, sendo detentor do monopólio do petróleo, o governo é também dono da única fonte de recursos do país, o que na medida em que a economia decai, torna a população mais dependente ainda do Estado. Em outras palavras: seja na bonança ou na crise, a população venezuelana sofre uma profunda dependência do Estado.

A dependência, claro, não é completa. Há uma pequena elite, em boa parte filhos de funcionários públicos, que tem acesso ao dólar. Em alguns períodos, quando a produção de petróleo parece ensaiar altas, o país vive estranhos surtos de normalidade, como o relatado em 2019, quando a BBC cogitava uma “retomada da economia”.

Para a ampla maioria da população, a moeda local é o único sustento, o que a torna sujeira aos efeitos de uma inflação que atinge até 10.000.000%.

Com uma moeda que literalmente não vale o papel em que está impressa, e que já vale menos do que a moeda virtual de World of Warcraft, os venezuelanos buscam alternativas. Sem acesso aos dólares diretamente, eles se tornaram ávidos compradores de Bitcoins e outras criptos. Vale de tudo para não depender do papel impresso por Maduro.

O fato é que, independente de ter 260 bilhões de barris em reserva, quase 7 vezes mais do que o Brasil, a PDVSA viu sua produção cair de 2 milhões de barris diários em 2016, para 570 mil em maio, 390 mil em junho, e 100 mil barris na primeira semana de Agosto

Hoje a estatal Venezuela, um cabide de emprego que sustenta de militares a civis que apoiam o governo, produz 3 vezes menos que a Shell no Brasil.

Como diria Milton Friedman “Se colocarmos o governo para administrar o deserto do Saara, em 5 anos faltará areia”.

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