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Porque o funcionário mais mal pago da Amazon nos EUA ganha mais que 97% dos brasileiros


Por Felippe Hermes
Setembro 15, 2021

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Com um dos maiores salários mínimos dos EUA, o equivalente a $18, ou R$70 a hora, a Amazon segue sendo atacada por manifestantes que consideram seus salários “baixos”.

Foi em Agosto de 2020 que uma guilhotina apareceu em frente a casa de Jeff Bezos, CEO e fundador da Amazon. O motivo? Um grupo de manifestantes exigindo que a empresa aumentasse o salário mínimo para $30 por hora. Na ocasião, Bezos havia cruzado a marca de $200 bilhões em patrimônio.

De longe uma das empresas que mais emprega pessoas nos Estados Unidos, a Amazon se tornou um colosso na última década, a despeito de ter sido fundada em 1994.

Desde 2013 a empresa viu seu número de funcionários crescer nada menos do que 15 vezes, saindo de 87 mil para os atuais 1,35 milhão de empregados.

A mudança de rumo da Amazon resultou de uma confluência de fatores, alguns internos, como o avanço da AWS, a provedora de serviços de computação da Nuvem que se tornou uma máquina de fazer dinheiro, e outros externos, como o próprio FED, o banco central americano (outra máquina de fazer dinheiro com seu juro zero), e o aumento do próprio e-commerce.

A Amazon se tornou um caso raro de empresa de tecnologia. Seus produtos principais são um misto de softwares escaláveis, como a AWS, Prime etc, que demandam pouco capital como qualquer Tech, e produtos, ou serviços, altamente intensivos em mão de obra e capital, como o e-commerce e a parte logística.

Foi por saber integrar ambos os setores, e manejar recursos de um para outro, que a companhia de Bezos se tornou a mais poderosa dentre as Big Techs.

Ao contrário da Apple, outra gigante, a Amazon costuma promover incessantemente disrupção em diversos setores onde atua.

Internamente a companhia de Bezos criou uma gigante de anúncios e publicidade online, que já rivaliza com o Google e o Facebook, criou um braço financeiro, outro logístico, com uma frota de aviões maior que a da FedEx e área de mídia cujo valor de mercado estimado ($500 bilhões), supera o da própria Disney.

A habilidade de transferir recursos entre os diversos setores, financiando sua expansão com preços agressivos que agradam o consumidor, também ganhou uma nova roupagem em 2018, quando Jeff, agora ex-CEO da companhia, anunciou que nenhum funcionário da empresa receberia menos do que $15/h.

O valor é igual aquele defendido por candidatos como Bernie Sanders em sua candidatura a presidente nas primárias do Partido Democrata (e que, como apurou o NY Times, Bernie não pagava aos seus funcionários de campanha). Trata-se do dobro daquele estabelecido em lei pelo governo federal, de $8,25/h.

A decisão de Bezos, considerada “insuficiente” pelos manifestantes, haja vista que em 2020 Jeff ficou $4000 mais rico a cada segunda, é um valor com uma motivação também curiosa.

Ao contrário da Amazon, boa parte dos lojistas e dos pequenos negócios nos EUA, não possuem condições financeiras de arcar com este valor.

Uma livraria de bairro precisa, além do custo físico e de ter de lidar com estoque limitado, arcar com seu custo completo, sem o privilégio de utilizar recursos extras de um outro negócio (como a Amazon faz colocando parte do lucro da AWS em subsídio para consumidores do Prime).

Dessa maneira, a empresa consegue viabilizar uma competição na qual joga praticamente sozinha.

Seu maior concorrente, o Walmart, a rede americana que foi sinônimo de grande corporação, busca há anos maneiras de migrar sua operação para o varejo online e assim reduzir seus custos para competir.

Tendo nascido online, a Amazon consegue planejar seus próximos passos com uma agilidade sem precedentes.

Também sem precedentes foi o aumento expressivo da demanda durante a pandemia.

Apenas em 2020 a empresa teve de contratar 500 mil funcionários para atender as demandas de clientes.

Outra medida da pandemia, porém, acabou afetando a empresa.

Para ajudar pessoas que perderam renda, o governo americano distribuiu cheques (sim, pelos correios), para as famílias. Como consequência, nada menos do que 68% dos americanos se viram em uma situação onde ganhavam mais ficando em casa do que trabalhando (uma vez que ainda poderiam receber seguro desemprego).

A medida levou a um escassez de trabalhadores pouco qualificados, criando falta de mão de obra em empresas como McDonald’s, que agora se dispõe a pagar o “tuition” (faculdade), de quem topar trabalhar por lá.

No caso da Amazon, a ideia é garantir que os novos funcionários tenham um salário mínimo de $18. Considere que um americano médio entre 25 e 44 anos trabalha cerca de 40,5h por semana e 22 dias no mês, e o resultado é que nenhum trabalhador da Amazon ganhará menos do que $3000 mensais.

Para entender o que isso significa no Brasil, você precisa utilizar o chamado “dólar PPP”, ou “paridade do poder de compra” na sigla em inglês.

A OCDE estima que o dólar ppp no Brasil esteja em R$2,36 em 2020.

Assuma este valor e o resultado é que, no mínimo, um funcionário da Amazon ganhará R$7080 por mês para o cargo inicial na empresa (empacotador).

Segundo o jornal Nexo, em uma calculadora disponível aqui, com dados de 2018 (cabe ressaltar que a renda do trabalhador caiu em 2019 e 2020), o valor é maior do que aquele que 97% dos brasileiros levam pra casa por mês.

O salário pago pela Amazon representa um misto de custo de capital da empresa, muito menor nos EUA, de produtividade do trabalhador americano (que compra os produtos da Amazon), e da sua situação de competição feroz para crescer.

É também um alerta sobre a situação brasileira, cada vez mais complicada quando o assunto é produtividade.

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