Artigo

Jeff Bezos

O capitalismo americano está morrendo, mas não do jeito que você acha


Por Felippe Hermes
Junho 30, 2020

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“O empreendedor é o responsável pelo processo de destruição criativa, sendo o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor do capitalismo.” – Joseph Schumpeter

Foi em 2016 que Jeff Bezos leu sobre a disputa entre Estados do meio-oeste estimulada por Elon Musk para saber quem receberia a fábrica da Tesla.

Para promover seu investimento, Musk incentivou que os Estados lutassem entre si para saber quem lhe daria as melhores condições e maiores subsídios. O resultado? $1.3 bilhão saído dos cofres do Estado de Nevada direto para a Tesla.

Que Musk e Bezos, o CEO da Amazon e o homem mais rico do planeta, não são grandes amigos, não é segredo para ninguém. Ambos disputam em seus planos de uma “nova era da corrida espacial”.

O fato é que foi essa disputa, na qual fontes internas da Amazon relataram a Bloomberg posteriormente, que acendeu um alerta para Bezos. Algo estava errado, afinal a Amazon não recebia tantas benesses quanto outras grandes empresas americanas na época.

Com este objetivo na cabeça, Bezos desafiou seu time a montar uma estratégia para promover a construção da sua segunda sede.

Cerca de 238 prefeitos peregrinaram até Seatle, sede da Amazon, com o intuito de demonstrar que estavam aptos a receber o investimento e seus 50 mil empregos.

Para surpresa de ninguém, o solteiro mais rico do planeta decidiu que passaria metade do seu ano em Nova York, e não no interior do Kansas. O privilégio porém, tinha um preço. Bezos demandava $3 bilhões em compensações da cidade para levar os tais 50 mil empregos.

O caso gerou uma revolta, em especial por se tratar de uma cidade com visibilidade não apenas nacional, como global. Políticos, como Ocasio Cortez, atacaram fortemente o acordo, que acabou sendo desfeito.

Essa entretanto é apenas uma das inúmeras frentes abertas por Bezos e que ajudaram a torná-lo a “Mãe de todos os corporativistas”.

Bezos teria, segundo as mesmas fontes, ficado revoltado ao descobrir que a Boeing havia cooptado $8.3 bilhões em subsídios do Estado de Washington apenas para manter seus postos de trabalho.

Porque, afinal, Bezos e a gigante Amazon, não recebiam algum privilégio do tipo para manter seus quase 1 milhão de funcionários?

Para corrigir tamanhas “injustiças” (insira sua risada aqui), a gigante do varejo despejou $14,2 milhões em lobby (algo legalizado por lá).

Tanta grana ajudou a manter e aprovar leis que criaram um cenário bizarro: a Amazon simplesmente não pagou $1 em impostos sobre o lucro.

Se neste momento você já está empunhando o primeiro livro de Hoppe ou Rothbard que encontrou por perto e gritando “imposto é roubo”, deixe-me falar a sério sobre o caso e, quem sabe, você pode perceber que nem sempre tamanha esperteza é positiva.

Nos anos 70, dois pesquisadores tornaram-se famosos ao descrever o óbvio: políticos também reagem a incentivos, como qualquer um. Buchannan e Tullock criaram a chamada “Public Choice“, uma escola de pensamento voltada para analisar casos como estes.

Foi o próprio Tullock quem descreveu, em seu “paradoxo de Tullock”, que cada $1 despendido em lobby, pode gerar $100 em retorno para empresas.

Neste ponto, Bezos e outros gigantes da área, estão se saindo grandes negociantes. Mas um olhar mais atento para o tal lobby revela algumas questões interessantes.

Bezos, que como já mencionei, é o homem mais rico do planeta com $137 bilhões (pós-divórcio), viu sua empresa entre as maiores doadoras de campanhas como as da senadora Elizabeth Warren, conhecida defensora de impostos sobre grandes fortunas.

Parece contraditório? Bem, se você for um destes fervorosos defensores de que taxar jatinhos e iates é a solução para o problema fiscal em países como o Brasil, então certamente terá dificuldades em entender.

Piora, claro. Se você acredita em teses como essas, terá ainda mais dificuldade em saber porque afinal Bezos patrocina também uma campanha para elevar o salário mínimo americano de $8 para $15 dólares.

Veja bem, Bezos que, ao contrário do que eu possa estar dando a entender, não é a raiz de todos os males, mas uma das duas maiores expressões. Tem concorrentes de pesos, como o WalMart, com 4.5 milhões de empregados, além de dezenas de milhares de outras pequenas empresas com 1 ou 2 funcionários.

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Qual você acredita que seja a probabilidade de tais empresas competirem com uma gigante que extorque governos e escreve leis que lhe garantem capital abundante a custo quase zero? Pois é, acertou se disse que “nenhuma”.

Se isso não lhe parece contraditório o suficiente, lembro que Michael Moore, famoso militante de esquerda, já elogiou as 500 maiores empresas americanas por fornecerem planos de saúde e outros benefícios a seus funcionários, isso em um livro, chamado “Stupid White Man”, em que denuncia dentre outras coisas o capitalismo.

Percebe a contradição? Enquanto documentários são produzidos para denunciar os maléficos Irmãos Koch, que doam recursos para os republicanos, os democratas embarcam de mãos dadas com as gigantes do Vale do Silício, repletos de boas vontades e… companhias cujo objetivo é criar monopólios.

Não, não é qualquer exagero da minha parte. No capitalismo do juro zero promovido pelo FED, o banco central americano, e propiciado pelas inovações, criar monopólios é a regra.

Para chegar neste objetivo grandes empresas promoveram uma mudança de “mindset” (como diriam os coachs), e tornaram o famoso “dumping”, em algo bacana. Não é mais como nos terríveis anos 80 dos filmes em que era possível atirar com uma metralhadora utilizando apenas uma mão.

O famoso dumping deixou de ser concorrência desleal para se tornar “inovação”.

Ao contrário dos gigantes que caíram, como o Yahoo, o mercado das Big Techs hoje está inundando a área de venture capital com grana extraída de governos locais, ou do próprio Banco Central.

Ninguém quer ficar para trás e ver dois moleques de Stanford destruírem seu negócio, como ocorreu com o Yahoo ao se negar comprar o Google por $1 milhão.

Ao mesmo passo, a criação de ecossistemas repletos de vantagens subsidiárias, como o Amazon Prime, que custa $15 bilhões por ano, tornam mais natural a ideia de que “comprar na internet é comprar na Amazon”.

Casos como o da Diapers.com, em que Bezos passou meses vendendo produtos abaixo do preço de custo para forçar a concorrente a quebrar são apenas uma entre as dezenas de implicações de tamanha escalada tomada pela empresa.

Como Musk, nosso corporativista do bem (Just kidding), lembrou, a Amazon pode hoje tornar inviável que um autor produza e distribua seus livros, tudo isso graças a capacidade de extrair grana da sua parte de servidores, a AWS, e jogar em subsídios no e-commerce.

Sua área de logística também pode dificultar a vida de qualquer um que não esteja alinhado aos interesses de Bezos. Gigantes como a FedEx estão na lista de próximas falências, tudo porque Bezos pode se utilizar de crédito barato para dar de presente aos consumidores $15 bilhões em frete grátis.

Com 48% do mercado de varejo online, o que por sua vez significa 18% de todo o varejo nos EUA, a companhia tem se tornado um Deus, capaz de decidir quem sobrevive e quem morre no tal “capitalismo”.

A tal destruição criativa, base da inovação, está em risco nos EUA. E ao contrário do que eles próprios acreditam, políticos mais à esquerda tem colaborado para ampliar o fosso que separa as gigantes “do bem”, repletas de causas progressistas, do restante da economia.

Como se não fosse preocupante o suficiente, o mesmo FED tem garantido além de crédito barato, a compra de ativos no mercado, o que por sua vez subsidia diretamente as maiores empresas da bolsa.

O consumidor americano está sendo levado a, em nome da defesa da economia, comprar participações em empresas cujo objetivo central é garantir monopólio e estabilidade em seus negócios.

Neste cenário, a preocupação não é apenas com a saúde da economia americana, mas com o próprio dólar. A enxurrada de dinheiro jogado na economia cria um ambiente capaz de levar economistas a se perguntarem se os EUA não estariam entrando em um ambiente de “japanificação”, em referência às 4 décadas de estagnação da economia do gigante asiático.

Questões como essa deveriam acender um alerta também em países como o Brasil, afinal, estas empresas também possuem interesse em entrar no nosso mercado.

O problema, entretanto, é que ao contrário daquela cidade perdida no interior do Kansas, não temos sequer a chance de disputar pela parte “Premium” da Amazon, os tais 50 mil empregos qualificados.

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