Artigo

Como o capitalismo salvou as baleias da extinção


Por Felippe Hermes
Setembro 23, 2021

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Considerado o grande vilão das mudanças climáticas, o petróleo foi responsável por uma revolução na humanidade. Não apenas tornou hábitos hoje banais, como jantar a noite, como também ajudou o meio-ambiente

Foi em 1918 que o mundo conheceu o primeiro bilionário da história da humanidade. Na lista da Forbes, John D. Rockefeller aparece com $1.2 bilhão ($21 bilhões em valores de hoje), ou 6 vezes mais do que o segundo colocado na lista.

A origem de sua fortuna é mais do que conhecida. Rockefeller inventou a indústria do petróleo, que por mais de um século reinou como a mais poderosa indústria do planeta.

Hoje considerada a grande vilã das mudanças climáticas, a indústria do petróleo já esteve no campo oposto. E os exemplos são imensos.

No campo da iluminação, o petróleo deu origem ao querosene, principal produto inventado por Rockefeller, e responsável por sua fortuna.

O querosene era uma invenção barata, e prática, ao contrário do espermacete de baleia (um líquido viscoso que apenas lembra o esperma, daí o nome), que sustentava as velas e a iluminação pública, demandando a caça de ao menos 50.000 baleias por ano.

De fato, a invenção do querosone de petróleo foi um choque de produtividade. Antes dele um trabalhador precisava gastar 6h diárias de trabalho para adquirir 1h de luz por meio de velas. A vida noturna era inviável para boa parte da humanidade. Tudo mudou graças a invenção do querosone de petróleo, onde 1h de luz poderia ser adquirido por 15 minutos de trabalho

Mesmo os carros foram uma invenção relevante. Com o combustível sustentado veículos a combustão, a demanda por cavalos caiu drasticamente.

Em 1880 havia 100 mil cavalos em Nova York, e outros 50 mil em Londres. Cada um deles defecando 10 Kg diários. Para o jornal inglês Times, as pilhas de esterco equino chegariam a 3m de altura em 1940. Chegariam, claro, não fossem os carros, levando o problema pra alguns quilômetros acima das nossas cabeças.

Mesmo a agricultura de beneficiou, com os fertilizantes derivados do petróleo ajudando a produtividade agrícola, que triplicou a produção de alimentos como arroz por hectares.

No século 21, é inegável que o petróleo seja visto como um problema, em especial para uma sociedade já adaptada aos seus benefícios, mas que agora busca novas maneiras de solucionar novos problemas.

O petróleo é ainda responsável por 11 das 35 bilhões de toneladas de CO2 que emitimos por ano, perdendo apenas para o carvão, a maneira jurássica que encontramos de gerar energia (ou paleozóica tardia para os geólogos de plantão).

Ao contrário do carvão, porém, o petróleo é produzido por grandes corporações, razão simples pela qual tem sido combatido com muito mais veemência.

Outras razões, como o fato de o carvão ser usado por nações em desenvolvimento também contribuem, claro, afinal, não se pode cobrar grande coisa de nações pobres quando há corporações e países ricos de quem podemos exigir algo.

Fato é que, desde ao menos janeiro de 2004, a situação tem mudado, graças em boa parte as tais corporações, e ao mercado financeiro.

Foi nesse ano que uma reunião intermediada pela ONU iniciou um processo que levaria a criação do conceito de ESG, uma sigla em inglês para “Meio ambiente, responsabilidade social e governança”.

Estes 3 pilares são hoje exigidos por fundos que administram cerca de $24 trilhões, ou 5% de toda riqueza global (12% se você excluir propriedades imobiliárias da conta).

Ser “ESG” significa hoje ter acesso a financiamentos com juros mais camaradas, recursos em maior quantidade, além de melhorar o valor da sua marca.

E o que exatamente a indústria mais poluente do planeta tem de ESG? Bem, sob um olhar desatento provavelmente nada. A indústria do petróleo é poluente, fato, e responsável por desastres ambientais ao longo da história.

Para as próprias empresas, porém, a história não é bem assim.

Na prática, e aqui temos outro fato, o petróleo é a maneira mais barata de gerar energia e produzir bens essenciais para a vida em sociedade. E ele continuará aí por no mínimo mais 30 ou 40 anos.

As empresas continuarão produzindo, e lucrando.

Para inúmeras dessas empresas, como Exxon, Shell e BP, a visão que elas tem de si mesmas é apenas uma: são produtoras de energia.

A BP, sigla de British Petroleum, tem investido $5 bilhões anuais em projetos de baixo impacto de carbono com. O objetivo? Emitir zero carbono em 2050.

Até 2030 a empresa deve construir cerca de 50 GW em energias renováveis, cerca de ⅓ da demanda de um país como o Brasil.

Na prática, zero carbono significa que as emissões serão compensadas, ou por projetos de captura, ou por projetos de redução de carbono, além claro de reduzir as emissões.

Projetos como esse estão cada vez mais comuns entre empresas do ramo.

Mas o que chama atenção não é exatamente como essas empresas se adaptam ao modelo ESG, mas sim a forma como elas são pretensamente esmagadas por ele.

Em resumo, o valor de mercado das gigantes de petróleo nunca foi tão baixo em relação ao quanto elas geram de caixa e lucro.

No caso da Petrobras, essa conta está em irrisórios 3,3 vezes. Isso significa que a cada 3 anos a empresa geraria de lucro o seu valor de mercado.

Com a política de dividendos, isso significa também que a empresa distribui 10,7% do seu valor de mercado para os acionistas, todo ano.

Mas não é apenas em valor de mercado que as empresas têm sido afetadas. Como mostra um relatório do JP Morgan, as restrições na oferta de petróleo tem sido tão grandes que o preço pode simplesmente subir pela dificuldade em migrar para energias renováveis.

O JP estima que o barril de petróleo possa se manter em $80 por um bom tempo, um valor até 5 vezes maior que o custo de produção de áreas como o pré-sal.

Tamanho lucro, claro, não tem passado desapercebido por ativistas. Conforme o lucro aumenta, pressões para que as empresas colaborem com as mudanças na matriz energética também aumentam.

Neste ano, por exemplo, um tribunal holandês considerou a Shell (uma empresa holandesa), responsável pelas mudanças climáticas, determinando que a empresa duplique suas metas de redução nas emissões até 2030.

A ideia é que a empresa reduza suas emissões em até 45% neste ano.

No que depender do aumento das pressões ESG, porém, o preço das ações deve seguir baixo, ainda que o faturamento e o lucro continue por lá.

Se as empresas de petróleo se tornarão “verdes” (não apenas na marca como a BP), e produzirão energia, é uma questão de gestão de longo prazo. No momento, o que se mostra relevante é uma oportunidade para investidores, e ativistas.

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