Artigo

Como a falência da chinesa Evergrande pode afetar o Brasil


Por Felippe Hermes
Setembro 21, 2021

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Figurando entre as 3 maiores falências do mundo, se concretizada, o caso da gigante de construção chinesa é um evento de impacto global, cuja consequência ainda é incerta.

Edward Lorenz se formou em matemática, mas sua grande contribuição para a ciência nasceu no campo da física, ou mais especificamente, na área de metereologia, onde seguiu carreira.

Foi Lorenz quem primeiro descreveu o chamado “efeito borboleta”. Na prática, o efeito retrata como uma pequena alteração em um sistema dependente de condições iniciais pode gerar grandes mudanças.

Na teoria, onde o efeito é mais popular, um bater de asas de uma borboleta no hemisfério sul pode provocar um tornado no Texas.

Para além da teoria e do filme de mesmo nome protagonizado pro Ashton Kutcher, o efeito borboleta é visto como uma metáfora para mudanças.

Este é o caso, por exemplo, do que está acontecendo na China neste momento. A construtora chinesa Evergrande, responsável por 4% do mercado chinês, anunciou uma série de calotes em seus compromissos, criando dúvidas sobre sua continuidade.

As estimativas até o momento apontam $300 bilhões em dívidas, um valor considerável, equivalente a 2% do PIB chinês, ou 1% do total de dívida existente no país.

Trata-se de uma empresa gigante, responsável pela construção de 1,6 milhão de apartamentos, ou 3 vezes mais do que toda construção civil brasileira.

Ao mesmo tempo, falamos de um setor que representa 6.8% da economia chinesa, algo como $1 trilhão por ano. Considerando fornecedores indiretos, o valor chega a 25% do PIB.

O peso de uma falência no setor, algo ainda não declarado, seria sem sombra de dúvidas catastrófico para a retomada global.

A preocupação, claro, é legítima. Imóveis representam 78% do total de riqueza acumulada por chineses, algo como $50 trilhões.

Mas e a economia brasileira com isso?

Dizer que o Brasil não é uma ilha e que efeitos globais impactam no país seria chover no molhado, mas o caso entre a construção civil por lá e a economia por aqui, é bem mais unido do que possa parecer.

Desde 2009, a economia chinesa passou a americana e se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.

São $98 bilhões comercializados entre os dois países, com um saldo positivo de $28 bilhões para o Brasil.

Em suma, exportamos para os chineses o dobro do que exportamos para americanos e 7 vezes mais do que exportamos para a Argentina.

Dentre os $63 bilhões de dólares em exportações, $19,4 bilhões se resumem a um produto: minério de ferro.

A China é o maior comprador da Vale, que por sua vez é, ou era, a maior empresa da América Latina.

Até poucas semanas atrás o preço do minério de ferro estava em $200, tendo caído para $100 neste momento, mesmo antes da crise com a Evergrande.

O impacto na bolsa de valores é nítido, e rápido. A Vale perdeu R$171 bilhões em valor de mercado até o momento.

Para a economia brasileira, porém, os impactos variam entre algo imediato, como maior pressão na queda do minério de ferro, aos indiretos, de médio e longo prazo.

Por conta da alta do minério no primeiro semestre, as previsões de crescimento da economia brasileira saíram de 3.4% para 5.6%.

Neste momento, o boletim Focus, que reúne as estimativas de dezenas de instituições, apontam para um crescimento de 5%.

A desaceleração, porém, não se limita ao PIB.

O IGPM, o índice de inflação que tem 60% da sua composição no IPA, índice ligado a produtores, e consequentemente influenciado pelo preço de commodities, caiu 1% em setembro, revertendo uma tendência de alta.

A FGV estima que a inflação medida pelo IGPM recue para 20% em dezembro, ante 35% um ano antes.

Ao contrário do IGPM, o IPCA, que mede a inflação ao consumidor, costuma ser menos sensível a commodities. É bastante provável, porém, que com a diminuição da demanda global, a oferta de produtos agrícolas de minerais ajude a reduzir os preços de produtos vendidos por aqui.

O efeito dessa queda pode ajudar a compensar outros desequilíbrios, como os da conta de energia.

Os efeitos a médio prazo também pode incluir uma menor demanda por alimentos, haja vista que a economia chinesa pode frear seu crescimento até o caso da construtora ser resolvido.

A longo prazo, os efeitos mais severos advém não da crise, mas dá própria estrutura demográfica chinesa. A expectativa é de que a economia chinesa continue diminuindo seu ritmo de crescimento, como nas últimas duas décadas, até estabilizar em 2-3% ao ano no final dessa década.

As implicações dessa desaceleração para o Brasil tende a ser bastante grave, afinal, nosso setor primário é o único que ainda mantém um aumento considerável de produtividade.

Efeitos globais e o Brasil

Ao contrário de boa parte das empresas chinesas, a Evergrande tem crescido por meio de dívidas emitidas no exterior. Isso reduz a capacidade dos bancos públicos chineses de conter eventuais problemas.

De fato, a gigante de construção chinesa é a segunda empresa do país com maior emissão de dívida em dólar, cerca de $20 bilhões.

O valor afeta inúmeros bancos, como UBS, HSBC, RBC e gestoras, como a BlackRock.

Em junho deste ano os credores já estavam temerosos de calotes, e optando por não renovar concessões de crédito.

Um eventual calote internacional pode levar a uma reação em cadeia, algo cujo risco atual é considerado baixo.

O maior risco entretanto, segue sendo identificar quais empresas chinesas podem representar ameaças.

Em 2018, a gigante de seguros Anbang, com cerca de $315 bilhões em ativos, também enfrentou problemas similares.

O governo chinês terminou por assumir os ativos da empresa, incluindo hotéis como Waldorf Astoria, e entregando partes da empresa a outros grupos, diluindo seu risco.

A pouca, ou nula transparência, de conglomerados chineses, que compram ativos ao redor do planeta, incluindo o Brasil, tem sido desde então uma preocupação crescente do próprio Partido Comunista Chinês.

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