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Finanças

Com estímulos do governo até 68% dos americanos ganham mais estando desempregados

A economia americana tem se recuperado com o avanço da vacinação, mas um novo estímulo fiscal aprovado pelo governo cria novamente um paradoxo: estar desempregado rende mais dinheiro do que trabalhar. Em um intervalo de apenas 3 semanas, o pleno emprego na economia americana cedeu lugar a um desemprego que passou a atingir ao menos […]

Com estímulos do governo até 68% dos americanos ganham mais estando desempregados

A economia americana tem se recuperado com o avanço da vacinação, mas um novo estímulo fiscal aprovado pelo governo cria novamente um paradoxo: estar desempregado rende mais dinheiro do que trabalhar.

Em um intervalo de apenas 3 semanas, o pleno emprego na economia americana cedeu lugar a um desemprego que passou a atingir ao menos 30 milhões de pessoas graças ao impacto da Covid19

A força com que os números caíram por lá, entretanto, não chegam a surpreender. A flexibilidade do mercado de trabalho americano é considerada uma das maiores do mundo, não havendo necessidade de aviso prévio ou outras burocracias do tipo.

Do mesmo modo, contratar trabalhadores é relativamente mais simples do que na Europa, e bastante mais fácil do que na América Latina, o que puxou números recordes de contratações no início deste ano.

Os dados mais recentes, de março e abril, porém, mostram um efeito no mínimo curioso. O consenso do mercado esperava um resultado de ao menos 1 milhão de vagas em abril. Já em março, o número foi reduzido para 777 mil. O resultado oficial de abril? +256 mil postos de trabalho criados.

O número surpreendeu negativamente um mercado que esperava uma retomada mais rápida em função do avanço expressivo da vacinação.

No meio do caminho, porém, havia um “estímulo”, ou melhor, um cheque.

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O governo Biden aprofundou os planos de estímulo à economia, assinando uma ajuda de $1400 para cada americano, totalizando quase $400 bilhões em ajuda federal diretamente no bolso das famílias (algo como 1,5% do PIB americano ou 25% do PIB brasileiro).

Como consequência do generoso pacote de ajuda, os americanos voltaram a uma situação inusitada e que já havia se tornado comum em abril e maio de 2020: ficar desempregado é mais lucrativo do que trabalhar.

Veja, os EUA não são reconhecidos pela generosidade do seu sistema de seguridade social, que a despeito de gastar $1.8 trilhão em saúde pública e $1 trilhão por ano, garante uma aposentadoria bastante abaixo da média de rendimentos do país, algo como $1500 para cada um dos 45 milhões de beneficiários.

Na prática, antes da pandemia, o departamento do trabalho estimava que os desempregados recebiam em auxílio federal uma média de 45% do seu salário na ativa, ou $377. Com os programas de estímulo e alívio às famílias, o valor subiu para $978.

Segundo o mesmo departamento, metade dos americanos possuem uma renda menor do que $957, o equivalente a $50 mil anuais.

Um estudo conduzido pelos economistas ter Peter Ganong, Pascal Noel and Joseph Vavra da Universidade de Chicago, teve como resultado que 68% dos americanos elegíveis aos benefícios financeiros podem receber mais estando desempregados do que em seus antigos empregos.

Na soma dos benefícios estaduais e federais, o resultado foi um ganho médio de 134% da renda anterior ao passar de empregado para desempregado.

Em alguns estados, como Mississipi, o valor chegou a 166% da renda prévia.

Outro resultado que surpreendeu os pesquisadores foi descobrir que em determinadas categorias os trabalhadores que haviam sido demitidos, como porteiros, zeladores e outros, estavam ganhando um valor maior desempregados do que aqueles cujo emprego fora mantido, e que portanto continuavam se expondo em meio a pandemia.

O resultado é uma medida de análise importante em meio a pressão pela implementação de uma renda básica universal.

Em casos anteriores, como nos próprios Estados Unidos, tentativas de criar um programa do tipo já haviam fracassado ao desestimular o trabalho. Isso é mais comum por lá na medida em que o trabalho é remunerado por hora, e a flexibilidade é maior.

Significa que você pode reduzir o número de horas trabalhadas, ganhar menos, compensar a diferença em um programa de renda básica.

Não se trata de uma realidade comparável a brasileira, onde o número de horas trabalhadas não é tão flexível, mesmo com a introdução do trabalho intermitente, mas demonstra o básico sobre estímulos fiscais e benefícios sociais.

No Brasil, um estudo da Fundação Getúlio Vargas, concluiu que o auxílio emergencial garantiu um aumento de renda de 24% para a média dos trabalhadores, chegando a 50% no caso dos trabalhadores informais.

Os efeitos são ainda maiores quando analisados por região, tendo em vista que estados de menor renda, como aqueles localizados no Norte e Nordeste do país, tiveram um aumento ainda mais expressivo de renda.

Um outro efeito prático desta medida foi a redução da pobreza. Os benefícios transitórios e emergenciais por aqui evitaram que 30 milhões entrassem na pobreza.

O trade-off, ou o custo da escolha em bom português, está no aumento considerável de preços e consequentemente na perda de poder de compra, uma vez que tamanha injeção de dinheiro novo não está alinhada a produção do país.

Trata-se de um dilema de mais de 2000 anos, enfrentando até mesmo pelos romanos, que muito além de criarem as palavras salário (o pagamento em sal aos legionários), dinheiro (denário, a moeda que substitui o às após um impressão desenfreada destruir o valor da moeda), moeda e “money” (ambos oriundos de moneta), já haviam criado a esperteza de produzir dinheiro para financiar gastos emergenciais (e posteriormente banalidades), ao cunhar moedas de maneira desenfreada, o que culminou em uma hiperinflação e aumento de tensões políticas conhecidas como “a crise do terceiro século”.

O resultado por lá não foi dos melhores. Por aqui, ainda está em análise, e deve se estender na medida em que os custos sociais da pandemia de tornarem mais visíveis.

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Sobre o autor
Felippe Hermes
Co-fundador e editor-chefe do BlockTrends, colunista da InfoMoney e co-fundador do Spotniks. Jornalista de criptomoedas, tecnologia e economia.
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