Radar Cripto

A erosão silenciosa

Ethereum perde valor, perde dominância e perde TVL, mas o mercado de stablecoins conta uma história que ainda não chegou ao preço.

Resumo

Ethereum perde valor, perde dominância e perde TVL, mas o mercado de stablecoins conta uma história que ainda não chegou ao preço.

O Ether caiu 41% em doze meses. Saiu de US$ 2.776 para os atuais US$ 1.635, depois de visitar uma mínima de US$ 1.569 no caminho. Em qualquer outro ciclo, uma queda dessa magnitude numa rede que ainda concentra mais de US$ 36 bilhões em valor travado geraria barulho de capitulação. Desta vez, o que chama atenção é justamente o silêncio. Não há pânico visível, não há manchetes de colapso. O que há é uma erosão lenta e contínua de preço, de atividade e de narrativa, tudo acontecendo ao mesmo tempo e sem que nenhum evento isolado leve a culpa.

A tese desta semana é simples: Ethereum está sendo corroído por uma combinação de macro hostil, perda de relevância relativa dentro do próprio ecossistema cripto e uma rede que, paradoxalmente, funciona bem demais para gerar demanda por seu token. Mas há um dado fora do lugar nesse quadro pessimista, e ele mora nas stablecoins. A questão é se esse dado importa agora ou só vai importar depois.

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Uma rede que funciona bem demais para o próprio token

O Ethereum arrecadou US$ 7,3 milhões em taxas nas últimas 24 horas. Para uma rede que processa a maior parte das finanças descentralizadas do planeta, esse número é baixo. E taxas baixas são ótimas para o usuário, mas péssimas para a tese de investimento do ETH. Desde a EIP-1559, que introduziu a queima parcial de taxas em cada transação, o argumento deflacionário do Ether depende de atividade suficiente para que a queima supere a emissão de novos tokens. Com taxas nesse patamar, a queima é marginal. O ativo emite mais do que destrói, e a narrativa do “ultrasound money” perde sustentação prática.

Parte da explicação está nas próprias soluções de escalabilidade que o Ethereum incentivou. As chamadas Layer 2, redes como Arbitrum, Optimism e Base, absorveram uma fatia enorme das transações que antes competiam por espaço na rede principal. Isso reduziu congestionamento e custos para o usuário final, mas drenou a receita que alimentava o mecanismo de queima. É o tipo de sucesso técnico que não se traduz em valorização do ativo base, pelo menos não na velocidade que o mercado gostaria.

O TVL (valor total travado em protocolos DeFi) do Ethereum está em US$ 36,3 bilhões, com queda de 20,6% nos últimos trinta dias. O TVL global de DeFi, considerando todas as chains, caiu 36% em doze meses e hoje soma US$ 72,8 bilhões. Ethereum ainda detém praticamente metade desse bolo, o que mostra resiliência relativa. Mas a tendência é de encolhimento generalizado, e a rede líder não escapa.

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O macro não perdoa quem não gera caixa

Com os juros dos Treasuries de 10 anos a 4,56% e a Fed Funds Rate em 3,63%, o custo de oportunidade de manter capital em ativos de risco sem rendimento previsível continua elevado. A inflação dos EUA a 4,2%, acima do esperado, eliminou nas últimas semanas qualquer expectativa de corte de juros no curto prazo. Isso importa mais para Ethereum do que para Bitcoin, e a razão é estrutural.

Bitcoin se beneficia da narrativa de reserva de valor e ativo anti-fragilidade. Ethereum vive e morre pela atividade econômica na rede, ou seja, depende de apetite por risco e de desenvolvedores construindo coisas novas que atraiam capital. Quando os juros reais estão altos, o dinheiro institucional prefere ficar na renda fixa, e a experimentação em DeFi, NFTs e novas aplicações descentralizadas perde fôlego. É uma mecânica de transmissão direta: juros altos comprimem atividade on-chain, que comprime taxas, que comprime a queima de ETH, que comprime a tese de valorização.

O CPI interanual, segundo os dados do FRED, está em 3,78%, com alta de 41% em relação ao mesmo indicador doze meses atrás. A inflação não apenas persiste, ela acelerou. Enquanto isso, o índice DXY (que mede a força do dólar contra uma cesta de moedas) recuou 1,3% em doze meses, para 120,08. Em ciclos anteriores, dólar fraco era vento a favor de cripto. Mas dessa vez o dólar está caindo por motivos que não ajudam ninguém: incerteza fiscal americana e reposicionamento global de reservas, não alívio monetário. Sem corte de juros concreto, a queda do dólar não se converte em liquidez para ativos de risco.

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A dominância do Bitcoin diz quem está no comando

A dominância do Bitcoin no mercado cripto está em 55,96%. Curiosamente, esse número caiu 3,65% em doze meses, o que normalmente sinalizaria rotação de capital para altcoins. Mas o ETH não capturou essa rotação. Com queda de 41% no ano, ele ficou para trás do próprio mercado. O capital que saiu de Bitcoin não foi para Ethereum. Foi para stablecoins, para Solana, para ativos de nicho, para qualquer lugar que oferecesse uma narrativa mais fresca.

É revelador que a BlackRock e a Fidelity dominem os ETFs de Bitcoin nos EUA com fatia crescente, enquanto o fluxo para ETFs de Ethereum permanece discreto. A infraestrutura institucional se construiu ao redor do Bitcoin. Ethereum tem seus ETFs, tem exposição via veículos como o QETH11 na B3, mas a demanda institucional real está em outro endereço. Isso não é irreversível, mas é o retrato do momento.

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O mercado de derivativos confirma o desânimo

O funding rate do ETH está em -0,0083%, levemente negativo. Quando o funding é negativo, significa que há mais posições vendidas (short) do que compradas (long) no mercado perpétuo, e são os vendidos que pagam para manter suas posições abertas. É um sinal fraco de pressão vendedora, não de capitulação violenta, mas de uma convicção morna de que o preço não sobe no curto prazo.

O open interest (contratos em aberto) soma 696.051 ETH. Em termos de dólar, isso equivale a pouco mais de US$ 1,1 bilhão. Para a segunda maior criptomoeda do mercado, com market cap de US$ 197 bilhões, é um posicionamento relativamente baixo. Pouco interesse em apostar para cima, pouco interesse em apostar para baixo. O mercado de derivativos está dizendo, com toda a clareza que consegue, que Ethereum não é a prioridade de ninguém agora.

O sentimento pelo Fear and Greed Index está em 12, classificado como “medo extremo”, com média de 23 nos últimos trinta dias. Em si, leituras de medo extremo são historicamente associadas a bons pontos de entrada. Mas o medo extremo pode durar meses, especialmente quando não há catalisador técnico ou narrativo para reverter o humor. E, no caso do ETH, o catalisador mais óbvio, uma explosão de atividade on-chain, depende de condições macro que não estão presentes.

O número fora do lugar: stablecoins a US$ 313 bilhões

Aqui está o dado que não encaixa na narrativa de erosão generalizada. O market cap de stablecoins atingiu US$ 313,5 bilhões, com alta de 27,5% em doze meses. Esse crescimento é significativo. Stablecoins são a liquidez latente do ecossistema cripto: dinheiro parado, esperando para ser alocado. Quando as stablecoins crescem enquanto os preços caem, significa que há capital entrando no sistema, mas que esse capital ainda não decidiu onde ir.

Uma parte expressiva dessas stablecoins vive em Ethereum. São US$ 156,6 bilhões em stablecoins circulando na rede, quase metade do total global. Isso significa que, apesar da queda no TVL e nas taxas, Ethereum continua sendo a infraestrutura preferida para estacionar e movimentar dólares digitais. É um dado de resiliência estrutural que o preço do ETH não reflete.

A questão é temporal. Capital estacionado em stablecoins é pólvora seca. Mas pólvora sem faísca é só pó. E a faísca, neste caso, seria um alívio monetário real, um corte de juros, uma reversão no apetite por risco, ou um novo ciclo de inovação on-chain que atraia usuários e desenvolvedores de volta. A iniciativa dos megabancos japoneses de criar uma stablecoin conjunta até 2027 mostra que instituições tradicionais estão convergindo para essa infraestrutura. A tokenização de ativos do mundo real, que segundo a Securitize pode destravar um mercado de US$ 5 trilhões, também tende a usar Ethereum como trilho principal. São teses de médio e longo prazo, não de próxima semana.

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O que invalidaria essa leitura

A erosão do Ethereum tem causas identificáveis: macro restritivo, migração de atividade para L2s sem captura de valor pelo token base, perda de narrativa para Bitcoin e para chains concorrentes, derivativos desinteressados e sentimento no subsolo. Nenhum desses fatores é permanente, mas todos estão ativos ao mesmo tempo, e isso cria um peso cumulativo difícil de reverter com um único catalisador.

O contraponto honesto é que Ethereum já esteve em situações piores e se recuperou, e que o acúmulo de US$ 156 bilhões em stablecoins na rede é um tipo de voto de confiança silencioso na infraestrutura, mesmo que não no token. Se o Fed sinalizar cortes, se a atividade DeFi reacender, se uma nova onda de aplicações, seja de tokenização, de IA on-chain ou de algo que ainda não existe, trouxer usuários de volta para a rede principal, a queima de taxas volta, a narrativa deflacionária revive e o preço tem espaço técnico considerável para recuperar. A faixa de US$ 1.569 a US$ 1.639 onde o ETH opera hoje está próxima da mínima de doze meses. Compradores de longo prazo sabem que acumulação acontece justamente quando ninguém quer olhar.

Mas contar com isso agora é confundir possibilidade com probabilidade. Com inflação acelerando, juros estáveis e sem catalisador de curto prazo, a erosão pode continuar. Quem está posicionado em ETH precisa ter clareza sobre o que está comprando: infraestrutura de longo prazo, não momentum de curto prazo. E quem está de fora precisa decidir se US$ 313 bilhões em pólvora seca são motivo suficiente para aguentar o silêncio.

  • Decisão do FOMC e tom do comunicado do Fed nas próximas reuniões: qualquer sinal de corte muda o cálculo de custo de oportunidade para cripto.
  • Evolução do TVL do Ethereum nos próximos 30 dias: nova queda abaixo de US$ 30 bilhões indicaria deterioração estrutural.
  • Funding rate: reversão para positivo com aumento de open interest sinalizaria mudança de posicionamento.
  • Fluxo líquido para ETFs de Ethereum nos EUA: dado semanal que mede apetite institucional real.
  • Market cap de stablecoins: se continuar subindo enquanto preço cai, a divergência eventualmente se resolve, a questão é quando e para qual lado.
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