Ações tokenizadas podem destravar US$ 5 tri em cripto
CEO da Securitize afirma que tokenização de ações pode criar mercado de US$ 5 tri. Entenda por que isso muda o jogo para investidores cripto.
O CEO da Securitize, Carlos Domingo, fez uma afirmação que merece atenção: a tokenização de ações pode destravar um mercado de até US$ 5 trilhões para o ecossistema cripto. Não se trata de projeção de entusiasta. A Securitize é a plataforma que administra o fundo BUIDL da BlackRock, o maior fundo tokenizado do mundo, com mais de US$ 2,5 bilhões em ativos sob gestão.
A tese é simples. Hoje, o mercado de criptomoedas gira em torno de US$ 3,5 trilhões em capitalização total. Se ações tradicionais passarem a ser negociadas em blockchains públicas, o capital que entra no ecossistema muda de patamar. Não é mais só bitcoin e altcoins. É Apple, Nvidia e Petrobras rodando em infraestrutura cripto.
O que são ações tokenizadas e por que agora
Ações tokenizadas são representações digitais de papéis reais, emitidas em blockchain. Funcionam como um espelho: o token acompanha o preço da ação, paga dividendos e confere os mesmos direitos econômicos. A diferença é que a liquidação acontece em minutos, não em dois dias úteis.
A janela regulatória está se abrindo. Nos Estados Unidos, a SEC sinaliza mais abertura para ativos digitais sob o novo comando. No Reino Unido, a FCA acaba de permitir que fundos mútuos tenham até 10% de exposição a produtos cripto listados em bolsa. No Brasil, o novo presidente da CVM anunciou que vai regulamentar tokenização com suporte de inteligência artificial, criando um ambiente mais claro para emissores.
Esses movimentos simultâneos não são coincidência. Governos perceberam que a tokenização não ameaça o mercado tradicional. Ela o torna mais eficiente. E quem sai ganhando é o investidor de varejo, que passa a ter acesso a ativos antes restritos a grandes players.
O tamanho da oportunidade: de onde vêm os US$ 5 trilhões
A conta de Carlos Domingo considera o mercado global de ações, que soma cerca de US$ 110 trilhões em capitalização. Se apenas 3% a 5% desse volume migrar para infraestrutura blockchain nos próximos anos, o resultado fica entre US$ 3,3 trilhões e US$ 5,5 trilhões em novos ativos circulando em redes descentralizadas.
Parece otimista, mas os dados de ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês) mostram uma aceleração consistente. Segundo a plataforma RWA.xyz, o total de ativos tokenizados ultrapassou US$ 20 bilhões em 2025, um crescimento de mais de 300% em relação ao ano anterior. O segmento de títulos do Tesouro americano tokenizados, liderado justamente pelo fundo BUIDL da BlackRock, responde por quase metade desse volume.
Para quem acompanha o mercado cripto, esse é um dado revelador. O crescimento não está vindo de especulação com memecoins. Está vindo de instituições financeiras tradicionais que encontraram na blockchain uma forma de cortar custos e ampliar acesso.
O que muda na prática para o investidor brasileiro
No Brasil, a tokenização de ativos avança em ritmo próprio. A CVM já autorizou emissões de tokens de renda fixa e recebíveis, mas ações tokenizadas ainda dependem de regulamentação específica. O novo comando do regulador deixou claro que esse é um dos temas prioritários.
Para o investidor brasileiro, as implicações são relevantes. Ações tokenizadas podem permitir a compra fracionada de papéis listados em bolsas estrangeiras diretamente via carteira cripto, sem a necessidade de uma corretora internacional. Isso reduz custos de câmbio, elimina intermediários e abre possibilidades de negociação 24 horas, sete dias por semana.
Já existem plataformas oferecendo algo parecido com ações sintéticas em DeFi, mas sem o respaldo regulatório e a custódia institucional. O diferencial da abordagem da Securitize e de concorrentes como a Ondo Finance é que os tokens são lastreados em ativos reais, custodiados por instituições reguladas. É a diferença entre uma promessa e uma garantia legal.
Os riscos que ninguém comenta
O entusiasmo tem fundamento, mas não é isento de riscos. A fragmentação regulatória é o principal deles. Uma ação tokenizada nos EUA pode não ser reconhecida no Brasil ou na Europa. Isso cria silos de liquidez, o oposto do que a blockchain promete.
Há também a questão da governança. Quem detém uma ação tokenizada tem direito a voto em assembleia? Em muitos modelos atuais, não. O token confere direitos econômicos, como dividendos, mas não direitos políticos. Para investidores institucionais, isso é um obstáculo sério.
Por fim, a infraestrutura técnica precisa escalar. Ethereum, a rede preferida para tokenização de RWA, ainda enfrenta gargalos de custo e velocidade em momentos de alta demanda. Soluções de segunda camada e blockchains alternativas como Avalanche e Solana estão ganhando espaço nesse nicho, mas a consolidação ainda está longe de acontecer.
A convergência entre TradFi e DeFi está acelerando
O ponto central é que a fronteira entre finanças tradicionais e cripto está ficando cada vez mais borrada. BlackRock emite fundos em blockchain. Bancos como JPMorgan operam redes próprias de liquidação tokenizada. O Bradesco já testa operações com ativos digitais via Drex, o real digital do Banco Central.
Se ações tokenizadas de fato decolarem, o impacto não será apenas no tamanho do mercado cripto. Será na relevância da infraestrutura blockchain como camada de liquidação financeira global. E isso muda o perfil de quem compra, como compra e por que compra ativos digitais.
Para o investidor que olha além do preço do bitcoin, essa é a tendência mais importante de 2025. Não porque vai gerar retorno imediato, mas porque está redefinindo o que significa “mercado de capitais” no século 21.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.