Stablecoins valem a pena? O que são e como funcionam
Com mais de US$ 230 bilhões em circulação, stablecoins se tornaram a porta de entrada do cripto. Entenda se fazem sentido para você.
Você provavelmente já ouviu falar em USDT, USDC ou “dólar digital”. Mas quando alguém pergunta se stablecoins valem a pena, a resposta depende de entender exatamente o que está por trás dessas moedas. E por trás delas há muito mais do que parece.
O mercado de stablecoins ultrapassou US$ 230 bilhões em capitalização total, segundo dados da DefiLlama. Para colocar em perspectiva, esse valor é maior que o PIB de países como Portugal. Só o Tether (USDT) responde por mais de US$ 150 bilhões. A adoção não para de crescer, e os casos de uso se multiplicam, de remessas internacionais a reserva de valor em economias instáveis.
O que são stablecoins e por que existem
Stablecoins são criptomoedas projetadas para manter paridade com um ativo estável, geralmente o dólar americano. Enquanto o Bitcoin pode oscilar 10% em um dia, uma stablecoin como o USDC é desenhada para valer sempre US$ 1,00.
Elas surgiram para resolver um problema prático. Traders de cripto precisavam de uma forma de “estacionar” capital entre operações sem converter de volta para moeda fiduciária, um processo lento e caro. Com o tempo, o uso se expandiu. Hoje, stablecoins são usadas para pagamentos internacionais, salários de freelancers, remessas familiares e até como alternativa ao dólar em países com controle cambial.
A Venezuela, por exemplo, se tornou um dos maiores mercados de stablecoins per capita do mundo. Com o bolívar em colapso e sanções que dificultam o acesso ao sistema financeiro tradicional, cidadãos comuns passaram a usar USDT como moeda do dia a dia. Como acompanhamos na editoria de criptomoedas, esse fenômeno está se repetindo em outros países emergentes.
Os três tipos de stablecoin e suas diferenças
Nem toda stablecoin funciona da mesma forma. Existem três categorias principais, e entender as diferenças é essencial antes de colocar dinheiro nelas.
Colateralizadas por moeda fiduciária: são as mais comuns. O USDT (Tether) e o USDC (Circle) funcionam assim. Para cada token em circulação, a empresa emissora mantém uma reserva equivalente em dólares, títulos do Tesouro americano ou equivalentes de caixa. Na prática, você confia que a empresa tem o dinheiro.
Colateralizadas por cripto: o DAI, da MakerDAO, é o exemplo mais conhecido. Em vez de dólares em um banco, a garantia são outras criptomoedas depositadas em contratos inteligentes. O sistema é transparente e auditável na blockchain, mas exige sobrecolateralização. Para emitir US$ 100 em DAI, é preciso depositar pelo menos US$ 150 em ETH.
Algorítmicas: tentam manter a paridade usando mecanismos de oferta e demanda controlados por código, sem garantia real. O caso mais famoso foi o TerraUSD (UST), que perdeu completamente a paridade em maio de 2022, vaporizando US$ 40 bilhões. Desde então, o mercado trata stablecoins algorítmicas com ceticismo justificado.
USDT vs USDC: qual a diferença na prática
Essa é uma das dúvidas mais comuns entre investidores iniciantes. Ambas valem US$ 1,00, mas as semelhanças param por aí.
O USDT, emitido pela Tether, é a stablecoin mais líquida e mais negociada do mundo. Está disponível em praticamente todas as exchanges e redes blockchain. Porém, a Tether historicamente enfrentou questionamentos sobre a qualidade de suas reservas. Embora tenha melhorado a transparência nos últimos anos, publicando atestações trimestrais, nunca passou por uma auditoria completa de uma das Big Four.
O USDC, da Circle, adota uma postura mais regulatória. Publica atestações mensais feitas pela Deloitte, mantém reservas quase integralmente em títulos do Tesouro americano e tem licenças regulatórias em diversos estados dos EUA. Em contrapartida, é menos líquido em exchanges internacionais e já enfrentou um episódio de desparidade durante a crise do Silicon Valley Bank em março de 2023, quando caiu brevemente para US$ 0,87.
Para quem quer exposição ao dólar com menor risco regulatório, o USDC tende a ser a escolha mais conservadora. Para quem prioriza liquidez e aceitação universal, o USDT segue dominante. Como detalhamos em análises anteriores sobre o ecossistema cripto, a escolha depende do perfil de uso.
Quais os riscos reais de stablecoins
A palavra “estável” no nome cria uma falsa sensação de segurança. Stablecoins carregam riscos que o investidor precisa conhecer.
Risco de contraparte: no caso de stablecoins centralizadas como USDT e USDC, você depende da solvência e da honestidade da empresa emissora. Se a Tether enfrentar problemas legais ou regulatórios graves, o valor do USDT pode ser afetado.
Risco regulatório: governos ao redor do mundo estão criando marcos regulatórios para stablecoins. A União Europeia já implementou o MiCA, que exige reservas segregadas e licenças específicas. Nos EUA, o Congresso discute legislação que pode restringir emissores não bancários. Mudanças regulatórias podem afetar a disponibilidade e o funcionamento dessas moedas.
Risco de custódia: se você mantém stablecoins em uma exchange centralizada, está exposto ao risco da plataforma. A quebra da FTX em 2022 ensinou essa lição de forma dolorosa. Manter em carteira própria (self-custody) elimina esse risco, mas exige conhecimento técnico para não perder acesso às chaves privadas.
Stablecoins valem a pena para o investidor brasileiro
Para o brasileiro, stablecoins oferecem algo que poucos produtos financeiros tradicionais entregam: exposição direta ao dólar sem precisar abrir conta no exterior, com transferências rápidas e custos baixos.
Quem envia dinheiro para familiares no exterior, recebe pagamentos em dólar como freelancer ou simplesmente quer diversificar parte do patrimônio em moeda forte encontra nas stablecoins uma ferramenta prática. O custo de uma transferência de USDC via rede Ethereum Layer 2 pode ser inferior a R$ 1, contra os R$ 50 a R$ 200 cobrados por bancos em remessas internacionais.
Porém, é fundamental lembrar que ganhos com stablecoins estão sujeitos à tributação no Brasil. A Receita Federal exige a declaração de criptomoedas, incluindo stablecoins, e operações acima de R$ 35 mil por mês com ganho de capital são tributadas. Para entender melhor as implicações fiscais de ativos digitais, vale acompanhar as atualizações regulatórias.
A resposta curta: stablecoins valem a pena como ferramenta, não como investimento em si. Elas não rendem sozinhas. Seu valor está na utilidade, na acessibilidade ao dólar e na eficiência de transferência. Quem entende isso e gerencia os riscos de contraparte e custódia tem em mãos um dos instrumentos mais poderosos que o mundo cripto já produziu.
Sobre o autor
Renato MouraJornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.