BlackRock e Fidelity dominam ETFs de Bitcoin nos EUA
As duas gestoras acumulam fatia dominante nos ETFs de Bitcoin à vista, reduzindo espaço para concorrentes e redesenhando o mercado cripto institucional.
Quando a SEC aprovou os primeiros ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos, em janeiro de 2024, onze gestoras entraram na disputa. Pouco mais de dois anos depois, o mercado se consolidou de forma brutal: BlackRock e Fidelity concentram juntas mais de 80% dos ativos sob gestão nessa classe de produto. O restante se divide entre nove competidores que, na prática, disputam migalhas.
Dados compilados pela Bloomberg Intelligence mostram que o iShares Bitcoin Trust (IBIT), da BlackRock, acumula cerca de US$ 62 bilhões em ativos, enquanto o Wise Origin Bitcoin Fund (FBTC), da Fidelity, soma aproximadamente US$ 18 bilhões. Nenhum outro fundo ultrapassa US$ 4 bilhões. A concentração não é acidental: reflete a lógica implacável da distribuição institucional.
Por que duas gestoras dominam o mercado de ETFs de Bitcoin
O segredo não está nas taxas, que são relativamente similares entre os fundos. A vantagem da BlackRock e da Fidelity reside em algo mais difícil de replicar: infraestrutura de distribuição. A BlackRock possui o iShares, maior plataforma de ETFs do mundo, com acesso direto a mais de 200 corretoras e plataformas de wealth management nos Estados Unidos.
A Fidelity, por sua vez, conta com uma base de 46 milhões de contas individuais e um histórico de proximidade com o varejo sofisticado americano. Quando um consultor financeiro precisa alocar exposição a Bitcoin para um cliente, a escolha natural recai sobre nomes que ele já conhece e usa no dia a dia. Como explicamos em nossa cobertura de criptomoedas, a familiaridade institucional pesa mais que qualquer diferença de poucos pontos-base na taxa de administração.
O resultado é um ciclo virtuoso. Mais ativos significam mais liquidez. Mais liquidez reduz o spread de compra e venda. Spreads menores atraem mais capital institucional. Gestoras menores, como Valkyrie, Invesco e Franklin Templeton, enfrentam dificuldade para competir nessa espiral.
O que os dados dizem sobre fluxos recentes
Os fluxos líquidos de capital contam uma história clara. Nas últimas quatro semanas, o IBIT registrou entradas de aproximadamente US$ 3,2 bilhões, segundo dados da Bloomberg. O FBTC captou cerca de US$ 900 milhões no mesmo período. Todos os demais fundos combinados somaram menos de US$ 400 milhões em entradas líquidas.
O Grayscale Bitcoin Trust (GBTC), que chegou a deter mais de US$ 28 bilhões quando foi convertido de fundo fechado para ETF, hoje administra pouco mais de US$ 3,5 bilhões. A sangria de capital do GBTC, que mantém taxa de 1,5% contra 0,25% do IBIT, ilustra como o mercado pune rapidamente quem não se adapta à nova realidade competitiva.
Um ponto que merece atenção: a dinâmica dos mercados financeiros tradicionais mostra que esse tipo de concentração é a norma, não a exceção. No mercado de ETFs de ouro, o GLD da State Street e o IAU da BlackRock respondem por mais de 75% dos ativos há mais de uma década.
O impacto para o investidor brasileiro
Para quem investe do Brasil, a consolidação tem implicações práticas. Os ETFs de Bitcoin negociados na B3, como o IBIT11, geralmente utilizam o fundo da BlackRock como referência. A concentração de liquidez no produto americano torna o espelhamento mais eficiente e reduz o tracking error para os veículos locais.
Por outro lado, a dominância de duas gestoras levanta questões sobre risco sistêmico. Se a BlackRock decidisse, por qualquer razão regulatória ou estratégica, alterar a estrutura do IBIT, o impacto reverberaria por todo o ecossistema de produtos cripto listados globalmente. É uma centralização significativa em um mercado que nasceu com a promessa de descentralização.
Os debates sobre o papel do Bitcoin como reserva de valor ganham uma camada adicional quando se percebe que o acesso institucional ao ativo depende cada vez mais de dois intermediários tradicionais.
O que esperar da concorrência daqui para frente
A guerra de taxas já mostrou seus limites. A Bitwise cobra 0,20%, a taxa mais baixa do mercado, e mesmo assim não conseguiu ganhar tração significativa. A próxima fronteira competitiva deve ser a integração com serviços adjacentes: empréstimos colateralizados por Bitcoin, staking de outros ativos cripto no mesmo ecossistema e ferramentas de gestão de portfólio que combinem exposição tradicional e digital.
A BlackRock já sinalizou interesse em expandir sua linha de ETFs cripto para além do Bitcoin e Ethereum. A Fidelity, que opera sua própria custódia de ativos digitais, tem vantagem estrutural nesse aspecto. Para os concorrentes menores, o caminho mais viável talvez seja o nicho: ETFs temáticos, exposição a protocolos DeFi específicos ou produtos com proteção contra volatilidade.
O mercado de ETFs de Bitcoin completou sua primeira fase de maturação. A segunda fase será definida não por quem entra, mas por quem consegue sobreviver.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.