Economia

6 meses após o IPO Nubank vale 80% menos. Este é o motivo

Cerca de 6 meses após IPO, Nubank despenca na bolsa e vale 80% menos.

Há uma lenda comum no mercado financeiro atribuída ao pai do ex-presidente americano John Kennedy. 

Segundo conta-se, Joseph Kennedy estava estava engraxando seus sapatos quando ouviu do engraxate dicas sobre o mercado de ações.

O ano era 1929, os EUA viviam sua década dourada após a primeira guerra mundial e após a ascensão do país como maior superpotência global. O mercado de ações havia subido 400% entre 1920 e 1929. 

Baseado na intuição, Kennedy decidiu vender todas as suas ações. 

“Se o investimento em ações se tornou algo tão banal, há um claro sinal de topo”.

Há algumas maneiras de se encarar isso, claro. É possível dizer que se trata de um sinal elitista, mas na prática, assumindo que bater o mercado é uma tarefa quase impossível no longo prazo, é razoável supor que quando ações se tornam dicas trocadas no táxi (ou Uber), no engraxate ou na padaria, os fundamentos já se perderam há tempos.

Quando se fala em investir a longo prazo, as razões são relativamente simples. Crescimento demanda tempo, e retornos razoáveis só ocorrem com o famoso “crescimento composto”, os juros sobre juros.

Em seu IPO (oferta inicial de ações), no último trimestre de 2021, o Nubank possivelmente “marcou o topo”. A expressão indica que a oferta de ações saiu no último momento de euforia do mercado.

De lá pra cá, o retorno das ações está em incríveis -83%, e a culpa curiosamente não é do banco.

No primeiro trimestre deste ano, o Nubank apresentou seus resultados. Excluindo os $45 milhões pagos em ações ao CEO, o banco lucrou $10 milhões. A receita cresceu 238% e a carteira e crédito segue em expansão.

A fintech brasileira, o maior banco digital do mundo, talvez seja um dos melhores exemplos de empresas de “growth”, ou empresas que buscam crescimento acelerado.

Ao longo dos últimos anos o mercado apostou forte nestas empresas, baseado na ideia de que “após um período de crescimento acelerado, passariam a dar lucro”.

Há alguns casos que comprovam a tese.

A Amazon levou mais de 15 anos entre a abertura de capital e começar a ter lucros razoáveis (e só fez isso quando seu negócio de armazenagem de dados, a AWS, passou a lucrar).

Por anos a Amazon reinvestia todo seu lucro para crescer.

A Netflix por sua vez, a ação que mais subiu na última década, seguiu caminho similar.

São estes exemplos que os investidores buscam replicar. Há, claro, uma diferença: a Amazon nunca teve grandes lucros mas sempre gerou caixa. Não foi preciso que os investidores continuassem aportando recursos para a empresa crescer. Este nem sempre é o caso das empresas de “growth”.

Em todo caso, o excesso de liquidez no mundo ajudou o Nubank, que cresceu tendo prejuízos seguidos, e contando com novos investimentos privados.

Em novembro, o Nubank decidiu fazer seu IPO. 

Como é comum na história do banco, o marketing foi o carro chefe. 

A fintech, que possui a melhor NPS no setor financeiro brasileiro, a métrica que avalia a qualidade do serviço prestado, decidiu doar aos seus clientes um “pedacinho”.

Em um dia o Nubank colocou mais pessoas na bolsa em seu IPO do que aquelas que já estavam lá investindo. Foram 6 milhões de novos investidores.

O mercado virou.

Desde o IPO do Nubank, o espaço e o crédito para empresas de crescimento acelerado diminuiu. 

Tudo ocorreu em função do aumento da taxa de juros dos Estados Unidos. 

Investidores costumam olhar os títulos da dívida americana como os mais seguros que existem, afinal, os EUA podem literalmente imprimir dólares e pagar seus credores.

Quando um título da dívida rende 1%, significa dizer que o investidor precisará aguardar 72 anos para duplicar o seu capital. Quando passa a render 2%, são 36 anos, em 3%, o capital dobra a cada 24 anos.

É com base nisso que os investidores medem o risco de se investir em outros projetos.

Quanto maior o retorno dos investimentos sem risco, menor a disposição de correr risco em outros projetos.

No final do último ano, o FED, o banco central americano, sinalizou que iria começar a elevar os juros e retirar dinheiro da economia.

A medida visa conter a inflação que nos EUA já é a maior em 4 décadas. 

Com estes anúncios, investidores têm saído de mercado mais arriscados, incluindo tecnologia.

As maiores empresas de tecnologia dos EUA já perderam $2,6 trilhões em valor de mercado. 

No total, o mercado já caiu $8 trilhões. E ainda estamos longe do fim.

A expectativa é de que os juros só comecem a cair novamente em 2023. 

No mesmo período, espera-se que caiam os juros também no Brasil. 

A medida pode aliviar a situação dos investidores do Nu, mas se serve de consolo, os indicadores do banco não andam de todo ruins.

A inadimplência do Nubank, que possui um perfil de crédito mais voltado para baixa renda, está em linha com os grandes bancos.

O Nu por sua vez possui R$14 bilhões em caixa. Dinheiro captado no IPO e em uma rodada de investimentos para financiar a operação do banco no México e na Colômbia.

O Nu também está em uma fase de consolidar clientes no Brasil após anos de crescimento na base. Os resultados internos podem melhorar, ainda que o preço das ações sofra.

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