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Yellen vê IA como fator inflacionário e descarta corte de juros nos EUA

Ex-presidente do Fed disse que a inteligência artificial ainda não entregou ganhos de produtividade e que o banco central americano está pronto para elevar juros se necessário.

Yellen vê IA como fator inflacionário e descarta corte de juros nos EUA
Foto: K / Unsplash

Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e ex-secretária do Tesouro americano, jogou um balde de água fria sobre quem espera que a inteligência artificial resolva os problemas da economia global no curto prazo. Para ela, os investimentos massivos em IA são, por enquanto, mais inflacionários do que produtivos. E isso muda o cálculo inteiro sobre o que o Fed deveria fazer com os juros.

A declaração foi feita durante um painel na Expert XP e conecta dois debates que costumam correr em paralelo, mas que Yellen tratou como interdependentes: o boom de investimentos em infraestrutura de IA e a trajetória da política monetária americana.

Por que a IA pressiona a inflação em vez de reduzi-la

O argumento de Yellen é direto. A corrida por data centers, semicondutores e energia necessários para treinar e rodar modelos de IA está criando choques de demanda em mercados que já operavam sob pressão. Chips avançados seguem escassos. A demanda por energia elétrica para centros de processamento cresce a taxas que não se viam há décadas. Tudo isso pressiona preços.

A ex-chefe do Fed reconheceu que, historicamente, novas tecnologias acabaram gerando ganhos de produtividade que compensaram os custos iniciais. Mas fez questão de separar expectativa de evidência. “A produtividade pode aumentar de novo, como aconteceu com a adoção de novas tecnologias no passado, mas ainda não vemos evidências disso”, afirmou.

Para contextualizar, Yellen recuperou um episódio que viveu de perto. Em 1996, quando fazia parte do board of governors do Fed, Alan Greenspan argumentava sozinho que os ganhos de produtividade trazidos pela revolução digital segurariam a inflação, tornando desnecessária uma alta de juros. A maioria do colegiado discordava, mas decidiu esperar. Greenspan estava certo. A produtividade dos trabalhadores americanos cresceu a uma média anual de 2,5% entre 1996 e 2004, segundo dados do Bureau of Labor Statistics, bem acima dos 1,5% da década anterior.

Desta vez, porém, Yellen não compra a mesma tese. “Não dá para reduzir os juros por causa da IA. Não agora. Talvez no médio prazo”, disse. É uma distinção importante para quem acompanha os mercados financeiros globais: o ciclo de investimento em IA está na fase de queimar caixa, não na fase de colher eficiência.

Fed está pronto para subir juros, não apenas manter

Yellen foi além da narrativa de que o Fed seguirá em modo de espera. Na visão dela, o banco central americano não apenas está analisando os dados como está preparado para agir e elevar os juros, caso a inflação surpreenda para cima.

A combinação de fatores que ela listou é preocupante: choques de oferta em diferentes mercados, demanda aquecida por semicondutores e energia, e os impactos dos conflitos no Oriente Médio sobre commodities. Some a isso as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, que Yellen classificou como de impacto “enorme”, embora transitório, sobre os preços.

Para investidores que vinham precificando cortes de juros no segundo semestre, o recado é claro. O cenário base de Yellen não inclui afrouxamento monetário tão cedo. Quem acompanha o impacto das tarifas sobre os mercados sabe que a combinação de protecionismo comercial com pressão inflacionária cria um ambiente particularmente difícil para ativos de risco.

Dólar perde espaço, mas não tem substituto viável

Sobre o papel do dólar como moeda de reserva global, Yellen adotou um tom realista. Ela reconheceu que as sanções aplicadas à Rússia em 2022, quando liderava o Tesouro, aceleraram a busca de outros países por alternativas à moeda americana.

“Muitos países passaram a se perguntar o que aconteceria se eles estivessem do lado errado”, admitiu. É uma declaração notável vinda de alguém que esteve diretamente envolvida na decisão de usar o sistema financeiro global como arma geopolítica.

Ainda assim, Yellen não vê mudanças rápidas. A razão é prática: não existem alternativas viáveis em escala. O euro tem limitações estruturais. O yuan chinês opera sob controle de capital. E embora o debate sobre desdolarização tenha ganhado força, a infraestrutura financeira global ainda gira em torno do dólar. Segundo dados do FMI, a moeda americana representava cerca de 58% das reservas cambiais globais no fim de 2024, uma queda gradual, mas ainda uma posição dominante.

O problema fiscal que ninguém quer resolver

Talvez a parte mais desconfortável da fala de Yellen tenha sido sobre a situação fiscal dos Estados Unidos. Ela classificou o tema como uma das grandes preocupações que investidores deveriam ter, citando problemas estruturais como o envelhecimento da população, que eleva os gastos com previdência e saúde de forma quase automática.

O déficit fiscal americano atingiu 6,3% do PIB no ano fiscal de 2024, segundo o Congressional Budget Office, um nível que seria alarmante em qualquer outro país. A dívida pública já supera 120% do PIB.

Quando questionada sobre como comunicar à população a necessidade de ajuste fiscal, Yellen foi pragmática ao extremo: “É muito desafiador. Quem faz isso costuma perder a eleição.” A frase poderia ter sido dita sobre qualquer democracia ocidental, e o mediador do painel não perdeu a chance de notar a semelhança com o cenário brasileiro.

Para quem investe, a mensagem de Yellen não é de pânico, mas de recalibração. A tese de que a IA vai resolver a inflação e permitir juros mais baixos pode até se concretizar, mas não no horizonte que o mercado está precificando. Enquanto isso, o Fed tem munição e disposição para apertar a política monetária. E o problema fiscal americano segue sendo o elefante na sala que todos veem, mas ninguém quer enfrentar.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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