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Nvidia garante US$250 bi para data center da OpenAI: o que muda

Nvidia pode bancar US$250 bi em garantias para o data center de 10 gigawatts da OpenAI. O acordo redesenha a cadeia de poder na corrida por infraestrutura de IA.

Nvidia garante US$250 bi para data center da OpenAI: o que muda
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A Nvidia está negociando um compromisso que, se confirmado, não tem paralelo na história da indústria de tecnologia: cerca de US$250 bilhões em garantias de financiamento para viabilizar um megaprojeto de data center da OpenAI no sul de Ohio. O valor, por si só, supera o PIB de mais de 130 países. O que está em jogo vai muito além de chips e servidores.

O projeto, desenvolvido pela SB Energy, subsidiária da SoftBank, prevê uma instalação de 10 gigawatts de capacidade, uma das maiores já concebidas no mundo. O custo total estimado ultrapassa US$500 bilhões, contando a infraestrutura física e os chips que vão dentro dela. A primeira fase, com 800 megawatts, deve ficar pronta em 2028.

Por que a Nvidia está bancando a OpenAI

A lógica do acordo é dupla. Para a OpenAI, trata-se do primeiro movimento concreto para controlar sua própria infraestrutura computacional. Hoje, a empresa do ChatGPT depende de servidores alugados da Microsoft, da Amazon e da Oracle. Essa dependência limita capacidade de escala e poder de negociação.

Para a Nvidia, a equação é igualmente estratégica. Garantir financiamento para um cliente desse porte significa travar demanda por seus chips de IA por anos. Em um mercado onde concorrentes como AMD, Intel e startups de chips customizados avançam, assegurar um contrato dessa magnitude funciona como uma barreira competitiva gigantesca.

A garantia de US$250 bilhões cobre o aluguel do data center e o financiamento da dívida associada à construção. Não inclui, porém, os próprios chips da Nvidia que serão instalados na unidade. Para isso, há uma negociação paralela que pode chegar a US$350 bilhões adicionais em financiamento de compra de GPUs. Somando tudo, o envolvimento financeiro da Nvidia nesse projeto pode superar US$600 bilhões.

O paradoxo de uma empresa de US$852 bi que não dá lucro

A OpenAI é avaliada em US$852 bilhões, o que faz dela uma das empresas privadas mais valiosas do planeta. Mas há um detalhe que investidores e analistas não ignoram: a companhia ainda não é lucrativa. Seus custos operacionais, especialmente com computação, crescem em ritmo acelerado, como já discutimos em análises anteriores sobre o setor de IA.

Esse descompasso entre valuation e resultado financeiro levanta uma questão central: como uma empresa que queima caixa pode sustentar compromissos de centenas de bilhões em infraestrutura? A resposta está justamente na disposição de parceiros como Nvidia e SoftBank em absorver o risco. Ambas apostam que a demanda por computação de IA vai continuar crescendo exponencialmente nos próximos anos, tornando esses investimentos rentáveis no médio prazo.

O modelo se assemelha ao que ocorreu com a Amazon nos anos 2000, quando a empresa operava com margens negativas enquanto investia agressivamente em infraestrutura. A diferença de escala, no entanto, é brutal. Os valores envolvidos aqui são uma ordem de magnitude acima de qualquer ciclo de capex que a indústria de tecnologia já viu.

Ohio como novo epicentro da infraestrutura de IA

A escolha do sul de Ohio para o projeto não é acidental. A região oferece terrenos federais e privados com espaço suficiente para uma instalação dessa magnitude, acesso a redes elétricas robustas e custos operacionais inferiores aos da Califórnia ou de grandes centros metropolitanos.

A tendência de descentralização geográfica dos data centers já vinha se desenhando. O que muda agora é a escala. Um complexo de 10 gigawatts consome energia equivalente a uma cidade inteira de médio porte. Isso coloca pressão sobre redes elétricas locais e levanta questões sobre sustentabilidade energética na expansão da IA, tema que ganha cada vez mais relevância entre reguladores e investidores.

O que esse acordo significa para o mercado de IA

Se concretizado, o acordo Nvidia-OpenAI redesenha o mapa de poder na indústria de inteligência artificial. Três desdobramentos merecem atenção.

Primeiro, a OpenAI ganha autonomia operacional. Deixar de depender exclusivamente de Microsoft e Amazon para rodar seus modelos é um movimento que pode alterar a dinâmica de parcerias e concorrência no setor. A Microsoft, que investiu mais de US$13 bilhões na OpenAI, pode ver sua influência diminuir à medida que a empresa constrói infraestrutura própria.

Segundo, a Nvidia consolida sua posição como eixo central da cadeia de IA. A empresa já domina mais de 80% do mercado de chips para treinamento de modelos. Agora, ao se tornar também financiadora de infraestrutura, ela cria uma integração vertical que dificulta a vida dos concorrentes.

Terceiro, o volume de capital envolvido sinaliza que o ciclo de investimentos em IA está longe de desacelerar. Como temos acompanhado na cobertura de mercados financeiros, o capex das big techs em infraestrutura de IA bateu recordes consecutivos nos últimos trimestres. O projeto de Ohio indica que essa trajetória vai se intensificar.

O risco que ninguém quer calcular

O elefante na sala é simples: e se a demanda por IA não crescer no ritmo que justifica US$500 bilhões em um único projeto? O histórico de bolhas tecnológicas ensina que ciclos de hype podem reverter com velocidade. A crise das pontocom deixou data centers vazios por anos.

A diferença, argumentam defensores do investimento, é que a IA generativa já tem casos de uso comercial concretos e receita real. Mas a distância entre receita real e receita suficiente para pagar US$500 bilhões é considerável. Se a OpenAI não atingir lucratividade nos próximos anos, quem absorve o prejuízo são exatamente os garantidores: Nvidia e SoftBank.

Para quem acompanha o setor de tecnologia e investimentos, esse acordo é um termômetro. Se der certo, valida a tese de que IA é a maior revolução tecnológica desde a internet. Se der errado, pode se tornar o maior write-off da história corporativa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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