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Tecnologia

Fortuna dos fundadores da Anthropic e o que o IPO revela sobre IA

O S-1 da Anthropic mostra sete cofundadores com US$ 14 bi cada e uma estrutura de controle que levanta questões sobre governança em empresas de IA.

Fortuna dos fundadores da Anthropic e o que o IPO revela sobre IA
Foto: Alex Knight / Unsplash

Sete pessoas saíram da OpenAI no início de 2021 para criar a Anthropic. Cinco anos e meio depois, o formulário S-1 protocolado na SEC revela que cada uma delas detém cerca de 240 milhões de ações da empresa criadora do Claude. Ao preço de US$ 58,90 por ação, equivalente à última rodada privada, cada participação vale entre US$ 13,7 bilhões e US$ 14,4 bilhões.

A cifra já seria suficiente para colocar os cofundadores entre as maiores fortunas do setor de tecnologia. Mas o dado que realmente importa está nas estimativas de Wall Street para a estreia em bolsa: se a Anthropic abrir capital perto de US$ 2 trilhões de valuation, cada fundador teria um patrimônio entre US$ 27 bilhões e US$ 29 bilhões.

Juntos, os sete detêm aproximadamente 1,69 bilhão de ações, algo em torno de 10% da companhia. É um número expressivo, mas a verdadeira história do prospecto não está na riqueza dos fundadores. Está na engenharia de controle que eles montaram.

A estrutura de controle que desafia a lógica acionária

O S-1 descreve uma arquitetura de governança que merece atenção. Uma única ação Classe F, detida por uma LLC controlada pelos sete fundadores, concentra 50,1% dos direitos de voto da companhia. Essa ação não tem participação econômica. Na prática, o controle da empresa está completamente desvinculado da propriedade.

Cada fundador permanece na LLC enquanto mantiver ao menos 2% das ações Classe A que possuía no momento do IPO. Isso significa que um cofundador poderia doar 98% de sua participação e seguir influenciando as decisões da empresa. O próprio prospecto reconhece o conflito: à medida que ações forem doadas, a participação econômica cairá, mas o poder de voto permanecerá intacto.

Essa estrutura dual-class não é novidade no Vale do Silício. Google, Meta e Snap adotaram mecanismos semelhantes. A diferença é que, no caso da Anthropic, os fundadores prometeram doar 80% de suas participações para causas filantrópicas, o que amplifica o desalinhamento potencial. Como detalhamos em nossa cobertura sobre tendências de tecnologia, empresas de IA têm adotado estruturas cada vez mais criativas para manter o controle dos fundadores.

Prejuízo de US$ 80 bilhões e a aposta em escala

O número mais impactante do S-1 talvez não seja a fortuna dos fundadores, mas o prejuízo operacional. A Anthropic reportou perda de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre. É um valor que reflete o custo brutal de competir na corrida por modelos de linguagem de fronteira, onde o treinamento de um único modelo pode consumir centenas de milhões de dólares em computação.

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A rodada Série H, realizada entre maio e junho, levantou US$ 45,7 bilhões com a venda de 77,6 milhões de ações preferenciais a US$ 589 cada. Em setembro, a empresa fez um desdobramento de 10 para 1 nas ações ordinárias, ajustando o preço unitário para US$ 58,90.

Os dois maiores investidores, Amazon e Google, terão ações Classe N sem direito a voto após o IPO. O prospecto não detalha quantas ações cada uma possui, mas revela limites: a Amazon para de converter notas quando sua participação atingiria 12%, e o Google está limitado a 14,99%. Somadas, essas fatias superam os 10% dos cofundadores.

A presença de duas big techs rivais como maiores acionistas de uma mesma startup de IA é, por si só, um reflexo da dinâmica competitiva que moldou o setor nos últimos anos. Ambas investiram pesado na Anthropic para garantir acesso à tecnologia do Claude em seus respectivos ecossistemas de nuvem.

As promessas filantrópicas são revogáveis

O compromisso dos fundadores de doar 80% de suas ações soa altruísta, mas o prospecto faz questão de qualificar: trata-se de “expressões voluntárias e revogáveis da intenção filantrópica de cada cofundador”. Não há obrigação legal. Os valores, os beneficiários e o cronograma ainda não foram definidos.

Dario Amodei, CEO e cofundador, aparece com 245 milhões de ações, das quais 4,6 milhões estão em fundos de doação. Ele mantém direitos de voto sobre essas ações por meio de procurações, mesmo não sendo mais o proprietário econômico. Incluindo tudo, seu patrimônio chegaria a US$ 14,4 bilhões no preço atual.

A remuneração direta dos fundadores é relativamente modesta para os padrões do Vale do Silício. Dario Amodei recebeu US$ 17,96 milhões em remuneração total em 2025, incluindo salário de US$ 654 mil. Daniela Amodei, presidente e cofundadora, recebeu US$ 16,4 milhões. O CFO Krishna Rao ganhou US$ 720 mil em salário, mas detém cerca de 9,5 milhões de ações em opções avaliadas em aproximadamente US$ 559 milhões.

O que o IPO da Anthropic sinaliza para o mercado de IA

A abertura de capital da Anthropic não é apenas mais um IPO de tecnologia. É um teste para o apetite do mercado por empresas de IA pura que ainda não dão lucro, mas cujo potencial de receita está diretamente atrelado à adoção de modelos de linguagem por governos e corporações.

O fato de os coordenadores serem Goldman Sachs e Morgan Stanley, com poder para dispensar o lock-up de 180 dias dos fundadores, indica que a operação será dimensionada para atrair investidores institucionais de grande porte. A questão central para quem acompanha o setor é se o mercado está disposto a precificar uma empresa com prejuízo semestral de US$ 80 bilhões a US$ 2 trilhões de valuation.

Para contextualizar: a Nvidia, que de fato lucra com a corrida da IA, levou anos para atingir valuations dessa magnitude. A Anthropic pede ao mercado que compre uma visão de futuro sem histórico de lucratividade. Como analisamos em nossa cobertura sobre mercados financeiros, a tolerância dos investidores com prejuízos em empresas de alto crescimento tem sido testada repetidamente nos últimos ciclos.

Um detalhe adicional: o Anthropic Public Benefit Fund, subsidiária voltada à missão de benefício público da empresa, receberá 846,8 milhões de ações, equivalentes a 5% do total diluído. Esse dado permite estimar o total de ações em circulação em cerca de 16,9 bilhões, o que coloca cada cofundador com aproximadamente 1,4% da companhia individualmente.

O S-1 da Anthropic é, acima de tudo, um documento sobre como concentrar poder enquanto se distribui riqueza. Os fundadores construíram um mecanismo que permite manter controle absoluto mesmo doando quase tudo. Para investidores do mercado público, resta decidir se confiam na visão de sete pessoas que apostaram contra a OpenAI e, até aqui, acertaram.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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