Buffett vendeu 75% das ações da Berkshire em silêncio antes de deixar o cargo
Warren Buffett reduziu drasticamente o portfólio de ações da Berkshire Hathaway nos últimos anos, levantando US$ 134 bilhões em vendas líquidas e acumulando caixa recorde antes de anunciar sua aposentadoria.
Warren Buffett, o investidor mais acompanhado do planeta, executou uma das maiores liquidações silenciosas da história do mercado financeiro americano. De acordo com dados compilados pelo Yahoo Finance, o megainvestidor vendeu aproximadamente 75% do portfólio público de ações da Berkshire Hathaway ao longo dos últimos anos — tudo isso antes de anunciar oficialmente que deixaria o cargo de CEO no final de 2025.
Os números por trás da liquidação
A escala das vendas impressiona. Somente em 2024, a Berkshire Hathaway realizou US$ 134 bilhões em vendas líquidas de ações. O caixa da holding saltou para US$ 334 bilhões até o final do primeiro trimestre de 2025, um recorde absoluto para a companhia. Esse montante representava, na ocasião, cerca de 30% do valor de mercado total da empresa.
A posição mais emblemática foi a Apple. Buffett havia transformado a fabricante do iPhone na maior aposta da Berkshire, chegando a deter mais de 905 milhões de ações. Mas entre o final de 2023 e meados de 2025, ele cortou a posição em aproximadamente 75%, vendendo centenas de milhões de papéis em trimestres consecutivos. A fatia restante ainda era relevante, mas a mensagem ficou clara: Buffett via pouco valor no preço das ações de tecnologia.
Além da Apple, Buffett zerou posições históricas. Saiu completamente de Chevron, Paramount Global e HP. Reduziu significativamente a exposição ao Bank of America, outra aposta de longa data. Cada venda foi reportada nos arquivamentos trimestrais da SEC, mas o mercado demorou a perceber a magnitude do movimento combinado.
A lógica do caixa recorde
Buffett justificou parte das vendas citando questões tributárias — a expectativa de que alíquotas sobre ganhos de capital poderiam subir. Mas analistas apontaram uma razão mais estrutural. Com o S&P 500 negociando a múltiplos historicamente elevados em 2024 e início de 2025, Buffett simplesmente não encontrava ativos a preços que considerasse razoáveis.
Na carta anual aos acionistas de fevereiro de 2025, ele escreveu que “o caixa não é lixo” e que preferia manter o dinheiro parado a pagar preços inflados. A Berkshire alocou parte dos recursos em títulos do Tesouro americano de curto prazo (T-bills), que na época rendiam acima de 5% ao ano, gerando bilhões em receita financeira praticamente sem risco.
Essa postura conservadora ganha outro significado quando se considera que juros elevados seguem sendo realidade tanto nos EUA quanto no Brasil, com a Selic projetada em 13% e o Federal Reserve mantendo taxas restritivas por mais tempo que o previsto.
A transição para Greg Abel
Em maio de 2025, durante a reunião anual da Berkshire em Omaha, Buffett anunciou que Greg Abel assumiria como CEO até o final do ano. Abel, que já comandava todas as operações não relacionadas a seguros, herdaria uma empresa com mais dinheiro em caixa do que quase qualquer outra companhia do mundo — mas com um portfólio de ações drasticamente menor.
A liquidação prévia pode ter sido, em parte, uma decisão de governança. Buffett sempre foi o único responsável pelas grandes decisões de alocação da Berkshire. Reduzir a exposição dava a Abel liberdade para montar seu próprio portfólio, sem a pressão de carregar posições identificadas com o antecessor.
O movimento de Buffett também reacende o debate sobre concentração de capital em ações de tecnologia. Enquanto o Oráculo de Omaha reduzia sua exposição a big techs, empresas como Nvidia miravam receitas trimestrais de US$ 78 bilhões, e gigantes como Google anunciavam investimentos de US$ 40 bilhões em inteligência artificial. A divergência entre o maior value investor da história e a narrativa dominante de mercado é, no mínimo, um sinal que merece atenção.
O que o mercado pode aprender
Buffett não tentou acertar o topo. As vendas foram distribuídas ao longo de vários trimestres, diluindo o impacto no mercado e evitando que qualquer venda individual gerasse pânico. É a mesma disciplina que ele prega há décadas: vender quando os preços estão confortáveis, não quando estão perfeitos.
Com 95 anos, Buffett encerra a fase ativa de sua carreira com a Berkshire Hathaway valendo mais de US$ 1 trilhão e um colchão de liquidez que pode financiar aquisições por anos. Se os mercados corrigirem, Abel terá a munição que poucos gestores no mundo possuem. Se não corrigirem, o caixa continuará rendendo juros.
De qualquer forma, a maior liquidação silenciosa de Buffett ficará registrada como um dos movimentos mais calculados — e mais pacientes — da história dos mercados financeiros.