Bolha de IA ou oportunidade? O que dizem os múltiplos dos IPOs
SpaceX estreou na bolsa a 175x EV/Ebitda e OpenAI deve ser a próxima. Analistas comparam os números com a bolha pontocom e apontam caminhos para quem quer exposição ao setor.
O IPO da SpaceX sacudiu o mercado global com um valuation próximo de US$ 1,77 trilhão, o maior já registrado para uma estreia em bolsa. Com OpenAI e Anthropic na fila para abrir capital, a pergunta inevitável voltou à mesa: estamos diante de uma nova bolha tecnológica?
Os números, à primeira vista, assustam. A SpaceX chegou à bolsa negociando a 175 vezes EV/Ebitda, um múltiplo que faz qualquer analista de valor torcer o nariz. Outras empresas recém-listadas com narrativa de IA, como CoreWeave e SailPoint, também carregam múltiplos muito acima da média histórica de seus setores. O padrão lembra, ao menos visualmente, o que aconteceu entre 1999 e 2000.
Mas comparação superficial com a bolha pontocom pode ser enganosa. E é justamente aí que os dados contam uma história mais nuançada.
Os múltiplos são altos, mas a bolha pontocom era outra escala
Analistas da casa de research Eleven publicaram um estudo comparativo entre os valuations atuais e os da era pontocom. O resultado é revelador. O eBay, uma das poucas sobreviventes daquele período, negociava a mais de 1.600 vezes seu múltiplo equivalente no auge da bolha. A SpaceX, com seus 175 vezes, está longe de atingir esse patamar.
Isso não significa que os preços estejam justificados. Significa que o grau de especulação é, por enquanto, de natureza diferente. Enquanto as pontocom queimavam caixa sem receita previsível, as empresas de IA que vão ao mercado em 2025 e 2026 possuem contratos bilionários e, em muitos casos, receita recorrente. A questão é se esses contratos justificam a magnitude dos valuations atribuídos.
Como analisamos em nossa cobertura de tecnologia, o mercado de IA tem uma dinâmica de concentração que dificulta previsões baseadas apenas em múltiplos tradicionais.
A tese da inteligência artificial geral e o risco de FOMO
Parte do que sustenta esses valuations é uma aposta existencial: a corrida pela inteligência artificial geral, ou AGI. O conceito descreve um estágio em que o modelo de IA seria capaz de se aprimorar sozinho, sem intervenção humana significativa. Se isso acontecer, a empresa que chegar primeiro teria uma vantagem competitiva praticamente intransponível.
A lógica do “vencedor leva tudo” é o que alimenta a disposição de investidores em pagar múltiplos estratosféricos. Mas há ressalvas importantes. Limitações de infraestrutura física, como disponibilidade energética e capacidade de processamento, podem funcionar como freios naturais. Além disso, diferenças entre os produtos de cada empresa poderiam criar uma dinâmica de oligopólio, não de monopólio.
O risco, como aponta o analista Caio Borges, da Eleven, é o FOMO institucionalizado. “Devemos manter cautela para não cair na armadilha do medo de ficar de fora”, afirma. Quando o fluxo de capital se move por ansiedade e não por fundamento, as condições para uma correção severa se acumulam.
Essa dinâmica já apareceu em ciclos anteriores do mercado de tecnologia, como detalhamos na nossa análise sobre o impacto da IA no mercado financeiro.
SpaceX não é só foguete: a diversificação que sustenta o valuation
Um ponto frequentemente ignorado na discussão sobre o IPO da SpaceX é que a empresa não é uma companhia aeroespacial tradicional. Ela se apresentou ao mercado como um conglomerado com cinco frentes: lançamento espacial, conectividade (Starlink), semicondutores, inteligência artificial e infraestrutura de computação.
A Starlink, com mais de 9.600 satélites ativos e 10,3 milhões de assinantes, é apontada como a principal fonte de receita recorrente. O modelo de assinaturas oferece previsibilidade de caixa, algo que as pontocom dos anos 2000 simplesmente não tinham.
Além disso, a monetização de capacidade computacional já gera receita expressiva. A Anthropic, dona do Claude, mantém um contrato de US$ 1,25 bilhão por mês pelo uso do supercomputador Colossus II, válido até maio de 2029. O Google tem um acordo de US$ 920 milhões mensais a partir de outubro de 2026. São cifras que transformam a SpaceX em uma fornecedora de infraestrutura crítica para a indústria de IA.
Como ter exposição ao tema sem comprar a narrativa diretamente
Para analistas, o caminho mais prudente para quem quer participar do ciclo de IA sem se expor ao risco de sobrevalorização é olhar para a camada de infraestrutura. Data centers, redes de energia, semicondutores e conectividade são os insumos reais que sustentam o crescimento do setor, independentemente de qual modelo de linguagem prevaleça.
Segundo a Eleven, ETFs temáticos focados em data centers e infraestrutura digital oferecem uma exposição mais equilibrada ao tema. A lógica é simples: na corrida do ouro, quem mais lucrou foi quem vendia as picaretas.
Outra alternativa apontada são distorções de valuation em mercados emergentes. Com o capital global concentrado em IPOs de IA nos Estados Unidos, empresas de qualidade em outros setores e geografias podem estar sendo negociadas abaixo do seu valor justo, criando oportunidades para investidores com horizonte mais longo.
Essa leitura se conecta com o que temos acompanhado na seção de finanças do portal, onde a dinâmica de fluxo global tem impactado diretamente os preços de ativos em mercados como o brasileiro.
Bolha ou não, o risco existe
A resposta honesta para a pergunta sobre bolha de IA é: ainda não é possível cravar. Os múltiplos são elevados, mas não alcançam os níveis irracionais da era pontocom. As empresas têm receita real, contratos de longo prazo e modelos de negócio diversificados. Por outro lado, o volume de capital sendo despejado em data centers e infraestrutura de processamento cria uma corrida por capital que pode pressionar margens e, eventualmente, valuations.
O investidor que ignora o risco está tão exposto quanto aquele que foge do setor por medo. A diferença entre participar de um ciclo transformador e ser vítima de uma bolha está, quase sempre, na escolha do veículo de exposição e no horizonte de investimento.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.