AWS dispara 39% e sustenta lucro recorde da Amazon no 3T26
A divisão de nuvem da Amazon cresceu no ritmo mais forte em cinco anos, mas o mercado questiona os US$ 77 bilhões gastos em infraestrutura no trimestre.
A Amazon entregou o maior lucro operacional de sua história no terceiro trimestre de 2026, puxada por uma aceleração expressiva da AWS, sua divisão de computação em nuvem. A receita do segmento atingiu US$ 46 bilhões, um avanço de 39% na comparação anual, o ritmo mais forte em quase cinco anos. No consolidado, o lucro operacional bateu US$ 28,1 bilhões, contra US$ 17,4 bilhões um ano antes, e a margem operacional alcançou 13,9%, um recorde absoluto.
Os números, porém, não convenceram o mercado de forma unânime. As ações oscilaram entre alta e queda no pregão seguinte à divulgação. O motivo: a companhia gastou US$ 77,2 bilhões em investimentos de infraestrutura no trimestre, cifra que superou em mais de 30% os US$ 58,8 bilhões projetados por analistas. O resultado é um debate cada vez mais intenso sobre até que ponto a corrida por capacidade de processamento gera retorno proporcional.
O motor da AWS e a aposta de Andy Jassy em US$ 1 trilhão
O desempenho da AWS não foi apenas forte em termos absolutos. Ele representa uma reaceleração significativa. Nos trimestres anteriores, a divisão vinha crescendo na faixa dos 20% a 30%, refletindo a desaceleração pós-pandemia no mercado de nuvem e a cautela dos clientes corporativos. Os 39% do terceiro trimestre sinalizam que a demanda por infraestrutura voltada a inteligência artificial está de fato se convertendo em receita recorrente.
O CEO Andy Jassy reforçou a confiança ao projetar crescimento superior a 40% para a AWS em 2027 e 2028. Mais do que isso, afirmou que a Amazon tem potencial para desenvolver dois negócios com receita anual de US$ 1 trilhão ao longo da próxima década. A declaração é ousada, mas não desconexa da realidade. A AWS já opera em um ritmo anualizado próximo de US$ 184 bilhões, e a publicidade digital da empresa se consolida como a terceira maior plataforma do mundo, atrás apenas de Google e Meta.
A questão central, como discutimos em nossa cobertura do setor de tecnologia, é se o mercado aceita financiar essa expansão no ritmo que a Amazon impõe. Historicamente, a companhia sempre priorizou crescimento sobre lucratividade imediata, e os acionistas de longo prazo foram amplamente recompensados. Mas o contexto de 2026 é diferente: taxas de juros ainda elevadas nos Estados Unidos tornam cada dólar de investimento mais caro em termos de custo de oportunidade.
US$ 77 bilhões em capex: voto de confiança ou excesso?
O volume de investimentos da Amazon no trimestre é, por si só, impressionante. Para efeito de comparação, os US$ 77,2 bilhões gastos entre julho e setembro superam o PIB anual de mais de 100 países. A empresa está construindo data centers em ritmo acelerado para atender à demanda por processamento de modelos de inteligência artificial, treinamento de grandes modelos de linguagem e inferência em larga escala.
No trimestre anterior, o mercado havia recebido os investimentos elevados com otimismo, interpretando-os como um voto de confiança na relevância da AWS. A diferença agora é que a geração de caixa livre ficou pressionada, o que levantou dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo. O lucro líquido de US$ 20,7 bilhões, com lucro por ação de US$ 1,89, ficou 3% abaixo do registrado no mesmo período de 2025 e aquém do esperado pelo mercado.
Esse é o dilema que investidores em tecnologia enfrentam neste ciclo. As big techs estão travando uma guerra de infraestrutura cujos frutos só aparecerão em dois ou três anos. Microsoft, Google e Meta seguem a mesma estratégia. A pergunta que o mercado faz é: quem vai capturar a maior fatia do valor gerado pela IA, e quanto desse valor realmente se materializa em lucro distribuível?
O que os outros segmentos da Amazon revelam
Fora da AWS, os resultados mostram uma empresa madura, mas com crescimento desigual. A receita consolidada de US$ 201,9 bilhões representou alta de 12% sobre o ano anterior, em linha com as projeções. A América do Norte cresceu 6%, enquanto as operações internacionais avançaram 5%.
Os destaques positivos ficaram com a publicidade, que saltou 11% para US$ 19,6 bilhões, e as assinaturas, como o Prime, que também avançaram 11%, totalizando US$ 14 bilhões. O marketplace de terceiros seguiu robusto, com receita de US$ 46,5 bilhões e crescimento de 9%.
O ponto fraco foram as vendas diretas online, que cresceram apenas 2%, para US$ 68,5 bilhões. A antecipação do Prime Day para o segundo trimestre e um câmbio menos favorável ajudam a explicar parte da desaceleração, mas o número também reflete a maturação do e-commerce como canal. O crescimento explosivo da pandemia ficou para trás, e agora a Amazon compete por incrementos menores em um mercado mais saturado.
O que isso significa para quem acompanha big techs
O resultado da Amazon no terceiro trimestre de 2026 cristaliza uma tendência que estamos acompanhando ao longo do ano: a inteligência artificial está redistribuindo o valor dentro das grandes empresas de tecnologia. A AWS, que já era o segmento mais rentável, agora também é o que mais cresce. Isso coloca a Amazon em posição privilegiada na corrida por infraestrutura de IA, ao lado de Microsoft Azure e Google Cloud.
No entanto, a reação mista do mercado é um lembrete de que crescimento de receita e consumo de caixa precisam caminhar em equilíbrio. Com um valuation de 24,3 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, a Amazon negocia em um patamar que exige execução impecável. Qualquer tropeço na monetização da IA pode gerar revisões significativas.
Para investidores brasileiros expostos via BDR (AMZO34), vale considerar que o câmbio adiciona uma camada extra de risco. A tese de longo prazo da Amazon segue intacta, apoiada na liderança em nuvem, na diversificação de receitas e na escala incomparável. Mas o mercado, neste momento, quer ver os bilhões investidos se transformarem em retorno concreto, não apenas em promessas de US$ 1 trilhão.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


