Artigo

Amazon e saúde.

A Amazon agora quer cuidar da sua saúde


Por Felippe Hermes
Setembro 24, 2020

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A Amazon e outras Big Techs seguem abocanhando antigas funções do Estado. Depois do Google iniciar a tendência com o seu Google Maps na virada do milênio, a Amazon agora quer cuidar da sua saúde.

Cerca de 500mb, ou 135 disquetes repletos de dados coletados por clientes a cada dia. Pode parecer pouco, afinal, provavelmente é menos do que você consome no seu smartphone, mas para 1999, a quantia era realmente impressionante.

A informação, parte de um episódio do famoso 60 minutes, tratava de uma empresa de Seatle, que estava naquele momento chacoalhando o mercado editorial americano, a Amazon.

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Durante o programa, Jeff Bezos comentava sobre o processo que a Amazon utilizava para “prever” os hábitos de consumo dos seus clientes. O choque com a exatidão das previsões se deu quando o apresentador percebeu que dos 5 livros recomendados pelo site, ele já havia comprado 2 em livrarias.

De lá pra cá a Amazon expandiu sua atuação para inúmeros setores, como Brad Stone conta em “A loja de tudo”, a biografia da empresa (que você pode comprar aqui, no site da Amazon).

Em 2006, por exemplo, a Amazon lançou seu serviço de computação na nuvem, hoje responsável 32.7% do mercado, tendo empresas Disney, Netflix, NASDAQ, ESPN, ou mesmo a NASA entre seus clientes.

A AWS é o que se pode chamar de uma “Cash cow”, uma empresa madura e responsável por gerar uma quantidade exorbitante de caixa para sua dona.

O poder da empresa sozinha é tão grande, que algumas pessoas, como Elon Musk, sugerem que ela deveria ser separada da Amazon, pois permite que a sua dona utilize o caixa gerado por ela para promover dumping em outros setores.

Segundo analistas, a companhia valeria hoje, se fosse independente, $500 bilhões.

Este valor equivale a ⅓ do total de capitalização de mercado da Amazon hoje, e é apenas um dos inúmeros ramos que a empresa criou.

Segundo uma análise feita pelo banco de investimentos Nedhma Co. a parte de mídia da Amazon sozinha poderia ser avaliada em outros $500 bilhões. Dentro deste valor estão a Amazon Prime Vídeo, o Twitch, a parte de anúncios (afinal, se você é a maior loja do mundo, porque não cobrar para melhorar o ranking de quem quer vender?), e o Amazon Music.

O resultado de tamanha diversificação é uma empresa que atinge hoje $1,7 trilhões em valor de mercado, fazendo do seu CEO e principal acionista o homem mais rico do planeta com $200 bilhões em patrimônio.

A despeito do valor exorbitante, mais do que o dobro de toda a capitalização da bolsa brasileira, a Amazon tem sede de crescimento. 

E como uma empresa que vale $1 trilhão consegue continuar crescendo? A resposta pode ser simples, como Scott Galloway, professor de marketing e advisor de empresas de tecnologia resume: ela avança sobre mercados que movimentam $ trilhão.

Simples, não é? Pois é justamente aí que Scott que acredita que está o futuro de gigantes como Amazon, Google e Apple.

Quais setores seriam estes, você pode estar se perguntando, e resposta é tão simples quanto: Finanças, Saúde e Educação.

A parte financeira talvez seja a mais óbvia. Neste setor a Apple já está fincando sua bandeira com seu Apple Pay, enquanto o Google, ou mesmo o Facebook, já estuda até lançar contra concorrente em mercados como o brasileiro.

Na área de educação, o Google também está lançando cursos, voltados especialmente para formação de estudantes em áreas ligadas a tecnologia.

Mas é no mercado de saúde que a coisa começa a ficar mais interessante. Não se trata de um mercado trivial, afinal, apenas nos Estados Unidos ele movimenta $3 trilhões por ano, ou o dobro do PIB brasileiro.

Trata-se de um mercado repleto de burocracias e pronto para disrupção, especialmente de quem saiba lidar com dados, o petróleo do século 21.

É justamente neste mercado que a Amazon quer criar seu novo ramo de $ meio trilhão, ou mais.

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O começo da construção desse novo ramo não poderia ser mais representativo. A empresa se juntou ao JP Morgan e a Berkshire Hattaway, de Warren Buffett, para criar uma joint ventura na área, a Haven.

Com mais de 1.2 milhão de funcionários somados (700 mil dos quais funcionários da Amazon nos EUA), a Haven é praticamente um laboratório de testes. 

Desde o anúncio em 2018, a empresa já promoveu parcerias e adquiriu startups na área, criando planos de saúde bastante distintos daqueles tipicamente oferecidos no mercado.

Diga-se que a união com a Berkshire não nasceu ao acaso. A empresa de Buffett é famosa pela sua atuação na área de seguros (ainda que não em seguros de saúde).

No mesmo ano a farmácia virtual PillPack foi adquirida por $773 milhões, e seus produtos passaram a ser distribuídos entre os 105 milhões de clientes do Amazon Prime.

Com parcerias que se estendem para além dos EUA, como uma atuação conjunta com o NHS, o SUS britânico, a empresa espera utilizar inteligência artificial e sua capacidade de processar dados para atender os consumidores.

Já em 2019 a empresa lançou, novamente restrito a alguns funcionários, o Amazon Care, app capaz de capturar dados sobre saúde e formatar soluções aos consumidores.

Como a Microsoft, dona da Azure, a Amazon espera construir dentro da nuvem, um conjunto de dados capaz de analisar e garantir soluções médicas mais diretas aos clientes, reduzindo assim custos aos planos de saúde.

Seu grande diferencial porém, está na cadeia de distribuição. Graças a sua experiência em distribuição online, a empresa tem testado modelos de distribuição de medicamentos na mesma agilidade com que distribui outros produtos, cortando assim parte dos custos de cadeias tradicionais.

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Em uma farmácia tradicional, há além dos custos óbvios da própria estrutura física da farmácia, os custos de atravessadores, que negociam rebates e outras participações no valor gasto por planos de saúde em medicamentos.

É um negócio que, como relata a CNBC, consome entre 10 e 15% da margem bruta do setor.

Em outro ramo do setor, a Amazon lançou o Halo, seu relógio capaz de medir até emoções, e que combinado com o celular, permite aos usuários escanearem seu corpo e receber informações como percentual de gordura

O mercado, no qual o Apple Watch segue líder seguido pela Fitbit (comprada pelo Google), e pela Xiaomi, deve movimentar cerca de $52 bilhões por ano. Isso porque, além do próprio aparelho, as empresas vendem planos, permitindo que por um valor que começa em $4 por mês, você possa monitorar aspectos de sua saúde.

Numa luta entre gigantes, há alguns caminhos possíveis. O primeiro deles, e mais benéfico ao consumidor, é que essas empresas tem bala na agulha para espremer empresas tradicionais, como fizeram com a área de celular, mídia e varejo.

Trata-se de algo capaz de mudar o jogo, em um setor crucial para a sociedade americana, e que a cada eleição se torna mais relevante.

A parte negativa, claro, é o aumento da quantidade de dados que um seleto grupos de empresas passa a ter sobre sua vida. 

Isso cria um paradoxo importante de se entender hoje: 

O custo de se viver as maravilhas tecnológicas nos mais amplos setores, têm subido na mesma proporção em que os preços caem. Até onde esse é um bom acordo, é a questão que definirá as próximas décadas.

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