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Amazon abandona NDAs em data centers: o que muda na prática

A AWS aboliu os acordos de confidencialidade com governos locais para tentar frear mais de 100 moratórias contra data centers nos EUA.

Amazon abandona NDAs em data centers: o que muda na prática
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A Amazon Web Services decidiu parar de usar acordos de confidencialidade (NDAs) nas negociações com governos locais para aprovação de novos data centers nos Estados Unidos. O anúncio foi feito por Matt Garman, CEO da AWS, em uma publicação que tenta responder à crescente resistência de comunidades americanas contra a expansão dessas instalações.

A medida não é um gesto de boa vontade espontâneo. É uma reação calculada a um movimento que está ganhando corpo: mais de 100 moratórias contra data centers estão sendo discutidas em diferentes localidades dos EUA. O estado de Nova York já aprovou uma suspensão de um ano em licenças para grandes data centers. A Amazon está, na prática, tentando conter um incêndio regulatório antes que ele se espalhe.

Por que as comunidades americanas estão rejeitando data centers

A raiz do problema é a falta de transparência. A ativista ambiental Erin Brockovich resumiu o padrão que gera revolta: projetos anunciados depois que as licenças já estão garantidas, desenvolvedores que não retornam ligações e autoridades locais que assinaram NDAs antes que os vizinhos soubessem que um projeto estava sendo considerado.

Esse ciclo corroeu a confiança pública. Como analisamos na cobertura de tecnologia do portal, a corrida por infraestrutura de inteligência artificial acelerou drasticamente a construção de data centers, mas as empresas trataram a expansão como uma operação sigilosa, e não como um projeto que afeta diretamente a vida de milhares de pessoas.

O CEO da Anthropic, Dario Amodei, classificou a situação como “fundamentalmente uma crise de confiança”, em que as pessoas assumem que governos e big techs estão sempre tramando alguma forma de prejudicá-las. É um diagnóstico que vale para todo o setor, não apenas para a Amazon.

Os quatro mitos que a Amazon tenta derrubar

Garman tentou desmontar quatro críticas recorrentes aos data centers: consumo excessivo de água, aumento nos custos de eletricidade, poluição e ausência de benefícios para as comunidades locais.

Sobre a água, a Amazon apontou que o consumo direto de seus data centers representa apenas 0,5% de todo o uso industrial de água nos EUA, volume descrito como “ordens de magnitude menor” do que campos de golfe ou o cultivo de amêndoas. A Nvidia, por sua vez, afirmou recentemente que seu novo sistema de refrigeração elimina “praticamente todo o uso de água” dentro dos data centers.

Há um problema nesses números, no entanto. Tanto a Amazon quanto a Nvidia parecem ignorar o consumo mais amplo de água envolvido na geração de eletricidade e na fabricação de chips. Cientistas alertaram que precisam estudar o uso de água e energia dos data centers de forma independente, já que não existem exigências federais ou estaduais sobre como as empresas de tecnologia reportam esses dados. Em outras palavras: as big techs estão pedindo que acreditemos nos números que elas mesmas compilam, sem auditoria externa.

Quanto à eletricidade, Garman argumentou que as tarifas só subiram em alguns estados com grande concentração de data centers, enquanto em outros caíram ou cresceram mais lentamente. Ele atribuiu os aumentos à falta de investimento prévio na rede elétrica. Mas um órgão de fiscalização independente apontou recentemente que os data centers foram os principais responsáveis por um aumento de 76% nos preços de energia, em base anual, na maior rede elétrica dos Estados Unidos. Os dados contam uma história diferente da narrativa corporativa.

A questão da poluição e o caso Texas

O ponto mais delicado talvez seja a poluição. Um data center planejado pela Amazon no Texas tem licença para emitir até 33 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, volume superior ao de qualquer outra usina de energia do país. Garman contra-argumentou dizendo que os geradores ficam ociosos 99,9% do tempo, funcionando em média apenas 10 horas por ano para testes de manutenção.

A resposta, embora tecnicamente válida, não aborda o ponto central da crítica: se os geradores quase nunca funcionam, por que solicitar uma licença tão permissiva? O limite alto na licença cria uma percepção de risco que alimenta a desconfiança, como já discutimos ao analisar o impacto energético da IA.

O caso do Texas é emblemático porque ilustra como o setor opera na prática: pede o máximo possível de margem regulatória, argumenta que usará uma fração mínima e espera que a comunidade confie nessa promessa. É uma estratégia que funcionava em um ambiente de baixa fiscalização, mas está sendo desafiada agora.

Um bilhão em contribuições é suficiente?

Garman também destacou que, nos últimos três anos, a Amazon contribuiu com mais de 1 bilhão de dólares para comunidades onde mantém presença significativa de data centers. É um número expressivo, mas que precisa ser colocado em perspectiva: a AWS gerou cerca de 105 bilhões de dólares em receita apenas em 2024. O investimento comunitário representa menos de 1% desse faturamento.

O abandono dos NDAs é um passo concreto, mas provavelmente insuficiente para reverter o sentimento anti-data center. Como observou a escritora Jasmine Sun, quando opositores dos data centers são confrontados com os argumentos das empresas de tecnologia, a resposta costuma ser simples: “Eu não acredito neles.”

Para a indústria de tecnologia como um todo, o episódio é um alerta. A expansão da infraestrutura de IA depende de licenças locais, apoio comunitário e redes elétricas que consigam absorver a demanda. Se as moratórias avançarem, Garman avisa que “os EUA podem estar escrevendo seu próprio bilhete perdedor nessa corrida, e as consequências durariam gerações.”

O argumento de competitividade global pode funcionar em Washington, mas não convence moradores que veem seus custos de energia subir e caminhões de construção passarem pela porta todos os dias. A Amazon aprendeu, talvez tarde, que transparência não é opcional quando se está construindo instalações do tamanho de shopping centers no quintal dos outros.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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