Tecnologia

Manus busca US$ 4 bi de valuation após Pequim barrar venda à Meta

Startup chinesa de agentes de IA retoma operações independentes, negocia rodada de US$ 500 mi e já prepara IPO em Hong Kong após fusão vetada pelo governo.

Manus busca US$ 4 bi de valuation após Pequim barrar venda à Meta
Foto: Alex Knight / Unsplash

A Manus, startup chinesa de inteligência artificial que viralizou no ano passado com uma demonstração de seu agente autônomo de IA, está em negociações para captar US$ 500 milhões em uma nova rodada que avaliaria a empresa em US$ 4 bilhões. A cifra é o dobro do valuation de cerca de US$ 2 bilhões pelo qual seus investidores originais recompraram participações da Meta após o colapso da fusão entre as duas empresas.

O caso da Manus é emblemático de uma dinâmica que vai muito além de uma startup isolada. Ele ilustra como a disputa geopolítica entre China e Estados Unidos está redesenhando o mapa global de fusões e aquisições em tecnologia, especialmente no campo da inteligência artificial. E mostra que, para empresas de IA nascidas na China, o caminho até o capital ocidental ficou mais estreito, mas o apetite dos investidores asiáticos segue forte.

O que aconteceu entre Manus e Meta

A trajetória recente da Manus parece roteiro de série. A startup, que desenvolve agentes de IA capazes de criar aplicativos, sites, apresentações e até vídeos, transferiu sua equipe para Singapura em meados de 2025. Em dezembro daquele ano, anunciou um acordo de aquisição de US$ 2 bilhões com a Meta, controladora do Facebook e Instagram.

Naquele momento, a Manus já registrava receita recorrente anual superior a US$ 100 milhões, um patamar respeitável para qualquer startup de IA e indicativo de tração real, não apenas hype. Mas a transação esbarrou em Pequim. O governo chinês bloqueou o negócio alegando potenciais violações de controles de exportação e regras de investimento estrangeiro, em meio a preocupações crescentes com a fuga de talentos e pesquisadores de IA para o Ocidente.

A decisão reflete um padrão que se consolidou nos últimos anos. Como analisamos na cobertura de tecnologia do portal, governos de ambos os lados do Pacífico têm tratado empresas de IA como ativos estratégicos nacionais, submetendo qualquer movimentação societária relevante a escrutínio geopolítico.

A separação e o custo regulatório

Desde o veto, a Manus vem se desembaraçando da Meta. O processo não foi trivial. A empresa precisou deletar dados gerados durante o período da aquisição para cumprir exigências regulatórias em jurisdições específicas, e avisou seus usuários em agosto que eles deveriam exportar e fazer backup de seus próprios dados antes da exclusão.

Os primeiros investidores e apoiadores da companhia ajudaram na recompra das ações a um valuation de aproximadamente US$ 2 bilhões. A equipe fundadora permaneceu no comando, e a empresa anunciou neste mês a retomada oficial de suas operações independentes.

O episódio tem paralelos com o que aconteceu em outras tentativas de aquisição cross-border no setor de tecnologia, como o embate em torno de empresas de chips e semicondutores nos últimos anos. A diferença é que, no caso da IA generativa, a velocidade com que startups ganham e perdem valor torna cada mês de indefinição regulatória particularmente custoso.

Quem está na mesa da nova rodada

A lista de potenciais investidores na rodada de US$ 500 milhões reforça a tese de que o capital asiático está preenchendo o vácuo deixado pela impossibilidade de fusão com big techs americanas. Entre os nomes cogitados estão a IDG Capital, uma das gestoras de venture capital mais tradicionais da China, e a Boyu Capital, veículo de investimento ligado à família do ex-presidente Jiang Zemin.

O nome mais inusitado da lista é a CATL (Contemporary Amperex Technology), gigante global de baterias para veículos elétricos. A presença de uma fabricante de baterias em uma rodada de IA pode parecer estranha à primeira vista, mas faz sentido dentro da lógica de diversificação que grandes conglomerados industriais chineses têm adotado. A CATL já sinalizou interesse em IA para otimização de processos industriais e logísticos.

Tencent, HSG e Zhenfund, que já eram investidoras da Manus, também devem participar. Esse mix de capital antigo e novo dá à rodada um perfil de consolidação, mais do que de aposta especulativa.

IPO em Hong Kong e o que isso sinaliza

Além da captação, a Manus estaria considerando uma reestruturação societária para preparar um IPO na bolsa de Hong Kong. A praça asiática tem se posicionado como alternativa viável para listagens de empresas de tecnologia chinesas que, por razões regulatórias ou geopolíticas, não conseguem ou não querem abrir capital nos Estados Unidos.

O movimento é coerente com uma tendência mais ampla. Desde que reguladores chineses apertaram as regras para listagens no exterior em 2021, Hong Kong consolidou-se como a porta de entrada preferida de empresas de tech do continente para o mercado de capitais internacional. A dinâmica de IPOs de tecnologia no mercado asiático tem acelerado, com valuations que em muitos casos superam os múltiplos vistos em rodadas privadas.

Para a Manus, um IPO a um valuation próximo ou superior a US$ 4 bilhões representaria uma validação significativa. Menos de um ano atrás, a empresa era uma subsidiária em processo de absorção. Agora, opera de forma independente, com receita recorrente expressiva e uma fila de investidores institucionais.

O que a Manus faz, afinal

A Manus desenvolve produtos e agentes de IA com funcionalidades que competem diretamente com ferramentas da OpenAI, Lovable e Replit. Seu portfólio inclui chatbot, ferramentas de “vibe coding” para criação de aplicativos e sites sem necessidade de programação avançada, geração de vídeo, assistente de navegação e criação de designs e apresentações.

O conceito de agentes de IA, que executam tarefas de ponta a ponta em vez de apenas responder perguntas, é considerado a próxima fronteira da inteligência artificial generativa. A demonstração viral da Manus no ano passado ajudou a popularizar essa categoria, que desde então passou a atrair investimentos bilionários de venture capital em todo o mundo.

Com receita recorrente anual acima de US$ 100 milhões, a Manus se diferencia de muitas startups do setor que ainda operam em estágio pré-receita. Esse patamar sugere adoção real por usuários e empresas, o que torna o valuation de US$ 4 bilhões menos especulativo do que a média do segmento.

O que isso significa para o mercado de IA

O caso da Manus cristaliza três tendências que devem moldar o setor de inteligência artificial nos próximos anos. Primeiro, a bifurcação geopolítica está criando dois ecossistemas paralelos de IA, um ocidental e outro asiático, com trânsito cada vez mais restrito entre eles. Segundo, startups de IA com receita real conseguem navegar crises regulatórias e societárias sem perder momentum de crescimento. Terceiro, Hong Kong está se firmando como hub financeiro para a nova geração de empresas de tecnologia chinesas.

Para investidores e profissionais de tecnologia que acompanham o setor, o recado é claro: a geografia de uma startup de IA passou a ser tão relevante quanto sua tecnologia. E os fluxos de capital estão se adaptando a essa nova realidade mais rápido do que muitos imaginavam.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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