SK Hynix levanta US$ 26,5 bi no maior IPO estrangeiro da história dos EUA
Fabricante sul-coreana de chips de memória para IA superou o recorde da Alibaba de 2014. Demanda foi sete vezes maior que a oferta de ações.
A corrida global por chips de inteligência artificial acaba de produzir seu maior momento em Wall Street. A SK Hynix, gigante sul-coreana de semicondutores de memória, estreou na Nasdaq nesta sexta-feira levantando US$ 26,5 bilhões, o equivalente a 40 trilhões de wons. É o maior IPO de uma empresa não americana na história do mercado de capitais dos Estados Unidos, superando os US$ 25 bilhões que a Alibaba captou em 2014.
A companhia vendeu 177,9 milhões de American Depositary Shares (ADRs) a US$ 149 cada. A estrutura permite que investidores americanos comprem papéis a cerca de um décimo do valor de uma ação cheia na bolsa de Seul. As ações abriram com alta de 14% sobre o preço do IPO e continuaram subindo nas primeiras horas de negociação, sob o ticker temporário SKHYV. A partir de segunda-feira, o código definitivo será SKHY.
Por que o mercado americano está disputando ações da SK Hynix
O apetite dos investidores impressiona por mais de um motivo. A SK Hynix precificou suas ações americanas com um prêmio de 2,7% sobre a média de três dias na bolsa da Coreia do Sul. Mesmo assim, a demanda superou a oferta em mais de sete vezes.
Empresas coreanas historicamente sofrem com o chamado “desconto da Coreia”, um fenômeno em que o mercado aplica valuations mais baixos por conta de estruturas de governança complexas, retorno limitado aos acionistas, incerteza regulatória e riscos geopolíticos ligados à Coreia do Norte. Mas a SK Hynix conseguiu se descolar completamente dessa tendência.
A razão é simples e tem três letras: HBM. A companhia é uma das principais fabricantes de memória de alta largura de banda (high-bandwidth memory), componente essencial das GPUs usadas em treinamento e inferência de modelos de IA. A Nvidia, que domina o mercado de processadores para inteligência artificial, depende da SK Hynix como uma de suas fornecedoras primárias. Quem entende a dinâmica do setor de tecnologia sabe que esse tipo de dependência estrutural cria valuations de escala diferenciada.
Para onde vai o dinheiro levantado no IPO
De acordo com os documentos de registro da oferta, os US$ 26,5 bilhões serão direcionados a três frentes. A primeira é a construção de uma nova fábrica na Coreia do Sul, projeto que já está em andamento e visa endereçar a escassez global de chips de memória provocada pela demanda explosiva de IA.
A segunda frente é uma nova instalação de empacotamento de chips, também na Coreia do Sul. A terceira envolve a aquisição de scanners EUV (litografia ultravioleta extrema), máquinas indispensáveis para fabricar semicondutores de próxima geração. Cada scanner desse tipo custa centenas de milhões de dólares e é produzido exclusivamente pela holandesa ASML, o que ilustra a complexidade e a concentração da cadeia de suprimentos global de chips.
A decisão de investir pesado na Coreia do Sul, e não nos Estados Unidos, não passou despercebida em Washington. Como já analisamos em matérias sobre a guerra dos semicondutores e seu impacto global, a disputa por domínio na fabricação de chips é uma das tensões centrais da geopolítica atual.
EUA pressionam por fábricas em solo americano
O secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, aproveitou um evento da concorrente Micron na véspera do IPO para enviar um recado ao setor. Lutnick afirmou que já está em conversas com a Samsung e a SK Hynix sobre a construção de novas fábricas em território americano. A mensagem é clara: Washington não quer que a Coreia do Sul continue dominando a produção de uma tecnologia considerada estratégica.
A Micron, única grande fabricante americana de chips de memória e concorrente direta da SK Hynix e da Samsung, entrou no jogo com um compromisso de US$ 250 bilhões em novas instalações nos EUA. A empresa projeta que o investimento criará mais de 90 mil empregos e manterá a produção de chips de ponta em solo americano.
O momento da pressão americana é particularmente delicado. Ambas as fabricantes coreanas, SK Hynix e Samsung, acabam de anunciar mais de US$ 550 bilhões em investimentos conjuntos para novas instalações na Coreia do Sul. A tensão entre manter a produção na Ásia e atender às demandas políticas de Washington deve se intensificar nos próximos meses. É um cenário que redefine o fluxo de capital no setor de tecnologia de forma estrutural.
O que o IPO da SK Hynix sinaliza para o mercado
O sucesso estrondoso dessa listagem revela pelo menos três coisas sobre o momento atual. Primeiro, o mercado americano está disposto a pagar prêmios significativos por qualquer empresa posicionada na cadeia de suprimentos de IA. Segundo, o “desconto da Coreia” pode estar se tornando irrelevante para companhias com vantagem tecnológica real. Terceiro, a disputa por semicondutores de memória está se tornando tão intensa quanto a corrida por GPUs.
Para investidores, o dado mais revelador é a demanda. Sete vezes mais pedidos do que ações disponíveis, mesmo com prêmio sobre o preço coreano, sugere que o mercado ainda vê espaço para valorização no setor de chips de memória para IA. A SK Hynix negocia na Coreia do Sul a múltiplos mais baixos que a Nvidia, mas com uma posição igualmente crítica na cadeia produtiva.
A dúvida que permanece é se a companhia cederá à pressão por fábricas nos EUA. Construir fábricas de semicondutores fora da Ásia é notoriamente mais caro e complexo, como demonstram os atrasos enfrentados pela TSMC no Arizona. Mas com US$ 26,5 bilhões recém-captados, a SK Hynix tem caixa de sobra para negociar em posição de força.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.