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SpaceX, OpenAI e Anthropic valem mais que 25 anos de IPOs

Trio de empresas caminha para superar US$ 4 trilhões em valor combinado, eclipsando toda a geração de riqueza em aberturas de capital de venture capital nos últimos 25 anos.

SpaceX, OpenAI e Anthropic valem mais que 25 anos de IPOs
Foto: john mckenna / Unsplash

A abertura de capital da SpaceX a um valuation de US$ 1,77 trilhão já seria, isoladamente, o maior evento de liquidez da história do venture capital americano. Mas ela não está sozinha. Com Anthropic e OpenAI se preparando para seguir o mesmo caminho, ambas empurrando suas avaliações para a casa dos trilhões, o trio projeta um valor combinado que ultrapassa US$ 4 trilhões.

Para colocar esse número em perspectiva: segundo dados do relatório NVCA-PitchBook Venture Monitor divulgado nesta semana, essas três saídas devem gerar mais valor do que todos os IPOs de empresas americanas financiadas por venture capital desde o ano 2000. Vinte e cinco anos de exits comprimidos em três operações.

O que ficou pequeno diante de US$ 4 trilhões

Esses 25 anos não foram exatamente modestos. O período inclui os IPOs do Google em 2004, da Tesla em 2010 e da Meta em 2012, três empresas que hoje figuram entre as mais valiosas do planeta. Também abarca aquisições bilionárias como LinkedIn, Slack e WhatsApp, todas acima de US$ 20 bilhões cada.

O IPO do Uber em 2019 movimentou US$ 84 bilhões e foi considerado monumental na época. Hoje, representa menos de 5% do valuation com que a SpaceX acabou de estrear no mercado público. Enquanto isso, o total de recursos levantados em IPOs nos Estados Unidos em 2024 ficou em torno de US$ 70 bilhões, de acordo com a SEC. Uma única operação da SpaceX já supera esse volume inteiro em mais de 25 vezes.

É claro que existem ressalvas. O dado não inclui empresas fora dos EUA, como a Alibaba. E boa parte da criação de valor no setor de tecnologia aconteceu dentro de companhias que já eram públicas quando lançaram seus produtos mais transformadores. O iPhone, o Android, o YouTube e o Instagram surgiram em empresas listadas, portanto não entram nessa conta de IPOs de venture capital. Ainda assim, a escala impressiona.

Por que as empresas ficam privadas por mais tempo

Um fator estrutural explica parte dessa distorção: as empresas estão demorando muito mais para abrir capital. O Google de hoje provavelmente teria adiado seu IPO por mais alguns anos, acumulando rodadas privadas a valuations crescentes antes de estrear na bolsa com um número muito maior. Como acompanhamos na cobertura de tecnologia, esse fenômeno se intensificou na última década com a abundância de capital privado disponível.

No caso específico da inteligência artificial, há um agravante. O treinamento de modelos de fronteira exige volumes absurdos de capital. OpenAI e Anthropic passaram por rodadas de financiamento que, em qualquer outra era, seriam consideradas incompatíveis com o estágio de maturidade das empresas. OpenAI levantou dezenas de bilhões apenas nos últimos 18 meses. Anthropic seguiu caminho semelhante, com aportes massivos liderados por Amazon e Google.

Essa dinâmica de captação agressiva inflou os valuations privados a patamares sem precedentes. Quando essas empresas finalmente chegam ao mercado público, já carregam avaliações que antes só existiam após anos de negociação em bolsa.

O que isso significa para o mercado de venture capital

A concentração de valor em tão poucas empresas levanta questões sobre a saúde do ecossistema de venture capital como um todo. Se três companhias geram mais riqueza do que milhares de exits ao longo de um quarto de século, o modelo de distribuição de retornos está se tornando cada vez mais binário.

Para os limited partners (investidores institucionais que alocam em fundos de VC), a mensagem é clara: os retornos do setor estão cada vez mais dependentes de acertar os mega-outliers. A dinâmica se reflete diretamente no mercado financeiro, onde fundos de pensão e endowments recalibram suas alocações em busca de exposição à inteligência artificial.

Os dados do NVCA-PitchBook mostram que a esmagadora maioria do capital privado nos Estados Unidos está fluindo para IA. Não é exagero dizer que o venture capital americano se transformou, na prática, em um veículo de financiamento para a corrida de modelos de linguagem e infraestrutura de computação.

A infraestrutura financeira no limite

A escala dessas operações já está forçando os limites da infraestrutura financeira existente. A abertura de capital da SpaceX a US$ 1,77 trilhão não tem paralelo histórico em termos de magnitude para uma empresa recém-listada. Quando OpenAI e Anthropic seguirem, o mercado terá que absorver trilhões adicionais em novas ações de empresas que, até ontem, eram privadas.

Isso afeta desde a mecânica de formação de preço nos primeiros dias de negociação até a composição dos principais índices de mercado. Empresas que estreiam a esses valuations entram imediatamente no radar de fundos indexados, ETFs e estratégias passivas, transformando a forma como o capital flui no mercado de ações.

O cenário é inédito. E o que torna tudo mais notável é a velocidade. A OpenAI foi fundada em 2015. A Anthropic, em 2021. Em menos de uma década de existência, ambas caminham para figurar entre as empresas mais valiosas da história. SpaceX, fundada em 2002, levou mais tempo, mas chegou ao mercado público já como a empresa privada mais valiosa que os Estados Unidos já produziram.

A pergunta que fica não é se esses valuations fazem sentido hoje, mas se a geração de receita dessas empresas conseguirá, nos próximos anos, justificar avaliações que superam tudo o que o venture capital produziu em um quarto de século. Para o investidor, o momento exige menos euforia e mais atenção aos fundamentos que sustentam esses números.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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