Artigo

Mulher com os olhos atentos ao Bitcoin

380 “mortes” depois, o Bitcoin continua mais vivo do que nunca. Para desespero dos críticos.


Por Marcelo Campos
Abril 20, 2020

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O que você estava fazendo em 3 de janeiro de 2009? Não lembra? Pode não ter parecido, mas naquele dia a história do mundo mudou. Você, mesmo sem saber, começou a testemunhar o nascimento de uma nova era na relação entre sociedade e o dinheiro. 

  • Resumo da notícia:
    – Mais de 380 manchetes nos últimos 10 anos já deram o Bitcoin como “morto”
    – Pode-se dizer que a cada uma delas a moeda digital voltou mais forte
    – Ouvir os críticos sem critérios pode ser uma forma de perder oportunidades
    – A inflação decrescente do Bitcoin pode trazer um novo ciclo de alta

Em 3 de janeiro de 2009 o Bitcoin nascia. O seu criador? Uma pessoa, ou um grupo de pessoas, sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto. Talvez não pareça muito, mas naquele dia ocorria a gênese do primeiro ativo digital descentralizado, não-copiável e verdadeiramente seguro. Tão seguro que o seu valor tinha lastro em sua própria tecnologia: a blockchain.

Com características tão revolucionárias, era natural o surgimento de desconfiança dentre os mais diversos especialistas. De fato, nos últimos dez anos, tornou-se comum encontrar “obituários” do Bitcoin, justificados pelos mais variados “argumentos”. Desde declarações sobre como o criptoativo teria utilidade apenas para criminosos lavarem dinheiro, até descrições sobre como a moeda seria um suposto esquema de ponzi.  

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O que ninguém te contou foi como essa “fraude”, como descrita por Jamie Dimon, CEO do J. P. Morgan, começou a ter sua tecnologia adotada por institutos de pesquisa, bancos centrais, consultorias financeiras e, por incrível que pareça, até mesmo pelos grandes bancos, dentre eles o próprio J. P. Morgan. Essa história, a verdadeira história de como uma moeda descentralizada mudou a forma como nos relacionamos com valor e confiança, será contada agora.

Os primeiros anos e o primeiro crash

O Bitcoin permaneceu relativamente anônimo por quase dois anos. Conhecido somente entre programadores e amantes de criptografia, a moeda digital viu sua primeira transação no mundo real apenas em 22 de maio de 2010, quando Laszlo Hanyecz comprou duas pizzas por 10.000 bitcoins. Se a transação tivesse sido realizada nos dias de hoje, Laszlo teria gasto mais de R$350 milhões em apenas uma refeição.

O interesse pelo primeiro ativo financeiro criptográfico da história começou a crescer com o tempo. Dessa forma, não foi um susto quando em 2011 a moeda disparou de US$1 para US$31 em apenas seis meses. No entanto, o então incipiente mercado de criptoativos levou um forte golpe quando um usuário tentou vender 60.000 bitcoins de uma vez só.

A primeira bolha, e a mais perigosa, estourou em junho daquele ano. Foi em meio ao primeiro crash que a Forbes declarou que “o bitcoin não era seguro e que a moeda não teria futuro algum”. 

Por alguns meses, a previsão da Forbes parecia estar correta quando o bitcoin se desvalorizou de forma aguda e atingiu a marca de US$2, em dezembro de 2011. Na época, o proponente do ouro Peter Schiff, uma famosa personalidade do mercado financeiro americano, declarou que “o bitcoin não tinha fundamento ou valor intrínseco”.

Se você tivesse comprado R$1.000 em bitcoins na época dessa declaração, você teria R$1,6 milhão hoje.

No entanto, o Bitcoin tinha e tem seu valor intrínseco intimamente conectado a sua tecnologia. A blockchain, em resumo, é livro contábil aberto e descentralizado que pode registrar transações entre duas partes de maneira eficiente, verificável e permanente. Se a principal mercadoria da internet é a informação, a principal mercadoria da blockchain é a confiança.

Indo além, virtualmente todos os ativos que possuem uma blockchain por trás têm o seu preço cotado em bitcoins. Portanto, enquanto houver blockchain e o Bitcoin for o principal ativo do mercado, o criptoativo terá valor intrínseco.

Recuperação e o 1º halving do Bitcoin

E, como a história mostrou, o mercado de ativos digitais apenas necessitava de volume financeiro para se reestruturar e, com uma comunidade ativa enxergando fundamento e lastro na criptomoeda, o bitcoin iniciou um longo processo de valorização no ano seguinte. Foi em novembro de 2012 que um evento chave aconteceu no mercado, o primeiro halving do Bitcoin.

Como descrito por Satoshi Nakamoto em seu whitepaper, o Bitcoin seria um criptoativo com oferta limitada de 21 milhões de bitcoins e, com o passar do tempo, a oferta de novos bitcoins seria reduzida. O halving do Bitcoin seria um evento que cortaria pela metade a remuneração do bloco minerado, logo, cortaria pela metade a oferta de novos bitcoins. Se a oferta é reduzida e a demanda permanece constante, o preço de qualquer produto dispara. E foi exatamente isso que aconteceu com o Bitcoin no decorrer do ano seguinte.

O criptoativo até tropeçou no meio do caminho, mas em novembro de 2013 o bitcoin ultrapassou a barreira dos US$1000 pela primeira vez e, como todo ativo que sobe repentinamente, sofreu uma correção nos meses seguintes até a marca de US$600.  Emin Gün Sirer, personalidade da computação e professor em Cornell, declarou que “o bitcoin estava quebrado desde a criação de seu protocolo”.

Se você tivesse comprado R$1.000 em bitcoins na época dessa declaração, você teria R$100 mil hoje.

As críticas ao Bitcoin não pararam por aí, na mesma época Timothy Lavin escreveu à Bloomberg que “o bitcoin servia de fachada para o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos”.

Apesar de frequente, o argumento do bitcoin servir de fachada para o mercado ilegal, não poderia ser mais desonesto. No Brasil, a forma mais comum para lavagem de dinheiro continua sendo a prática do dólar-cabo, popularmente personificada em doleiros que enviam remessas para o exterior e realizam transferências monetárias em bancos suíços.

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Na verdade, por utilizar a tecnologia blockchain, o bitcoin torna qualquer transação rastreável e facilita o trabalho de investigadores em recuperar valores obtidos de forma corrupta. Não à toa a China vem expandindo o seu sistema de faturamento construído em blockchain para cidades como Pequim e, no Brasil, a Prefeitura de São Paulo já estuda como adotar a blockchain para reduzir a corrupção na máquina pública.

O 2º halving e a atenção midiática:

Ao longo de 2014, 2015 e 2016, o mesmo ciclo se perpetuou. Apesar do bitcoin não ter se valorizado descomunalmente no período, a moeda havia se tornado imune aos frequentes obituários que estamparam a Business Insider, o New York Times, a Reuters, o Financial Times, o Washington Post, a Economist e a CNBC.

Até mesmo aqui no Brasil, onde a criptomoeda era relativamente desconhecida na grande mídia, o bitcoin acumulava profetas do apocalipse, dentre eles, a figura mais conhecida era a de Samy Dana, que em 2014 declarou que o “bitcoin não tinha o menor lastro e que ninguém garantia os preços”.

Se você tivesse comprado R$1.000 em bitcoins na época que o Samy Dana explanou sua opinião, você teria R$25 mil hoje.

O que Samy Dana não explicou é que a única garantia de preços que qualquer ativo monetário tem é a confiança que seus detentores possuem em seu valor intrínseco. O real, por exemplo, tem seu valor garantido pelo Banco Central do Brasil, uma instituição centralizada e mundialmente reconhecida. No entanto, isso não impediu que, do começo do ano até o dia em que esse texto estava sendo preparado, o Bitcoin, lastreado na tecnologia blockchain, tenha obtido 26% de valorização frente ao real.

Em julho de 2016, o marasmo do mercado foi abalado pelo segundo halving do Bitcoin, o evento que corta pela metade a oferta de novos bitcoins no mercado. Na época, o preço aumentou em 80% em poucas semanas, mas, em seguida, desinflou e estabilizou por volta de US$600. No entanto, a semente do segundo halving e a frequente atenção midiática que o criptoativo começou a receber iniciaram uma lenta, porém robusta, valorização durante o final de 2016 e o começo de 2017.  

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Foi em 2017 que a maioria dos brasileiros entrou em contato com o bitcoin pela primeira vez. Em março, o preço começou uma veloz escalada até a alta histórica, mas alguns percalços no meio do caminho ressuscitaram a tradição dos obituários. Em setembro de 2017, o governo chinês anunciou que todas as exchanges de bitcoin em seu território estavam com funcionamento suspenso até segunda ordem. O preço, que havia alcançado a marca de US$5000, sofreu uma violenta depreciação em poucos dias. Jamie Dimon, CEO da J. P. Morgan, afirmou na época que “o bitcoin é uma fraude que eventualmente explodirá”.

A afirmação se torna ainda mais curiosa se considerarmos que hoje, três anos depois, a J. P. Morgan tem um projeto próprio de blockchain, denominado Quorum. No mesmo período, Ben Bernanke, ex-presidente do FED, afirmou que “o bitcoin tinha uma pequena probabilidade de dar certo”.

Se você tivesse comprado R$1.000 em bitcoins na época que Ben Bernanke declarou isso, você teria R$3.000 hoje.

O fato é que o bitcoin continuou sua escalada de preços, mesmo com a proibição chinesa, e alcançou o valor de US$19.783 em 17 de dezembro de 2017. Porém, a moeda desconhecida de outrora, ganhava atenção de especuladores do mundo inteiro e, naturalmente, sofreu uma desvalorização intensa, retornando para a marca de US$3.300 em dezembro de 2018. Na época, Peter Mallouk, famoso conselheiro financeiro norte-americano, afirmou que “o bitcoin estava morto e não iria embora de forma silenciosa”.

O 3º halving e o panorama futuro

Mas a nossa história não termina aqui. Durante 2019, o bitcoin voltou a se valorizar de forma consistente e, até o momento em que esse texto era escrito, a criptomoeda estava sendo negociada na casa dos US$6.960.

A realidade é que o bitcoin sobreviveu ao teste dos dez anos. Apesar dos incessantes obituários, a tecnologia revolucionária por trás do valor da criptomoeda, a blockchain, vem sendo estudada e adotada por grandes bancos, institutos de pesquisas e, recentemente, até por bancos centrais. O que inclui o banco central chinês, que havia adotado um viés proibicionista há poucos anos.

O próximo capítulo desta história ocorrerá em maio, quando a oferta de bitcoins sofrerá a terceira redução de sua história e há expectativas para um novo ciclo de alta nos preços. No fundo, a revolução da blockchain vem acontecendo consistentemente ao longo dos últimos dez anos. A grande questão que pode ser colocada é: você continuará acreditando nos colecionadores de obituários ou irá abraçar a nova relação entre humanidade, confiança e dinheiro?

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