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Yellen vê IA como fator inflacionário e Fed pronto para agir

Ex-presidente do Fed disse que inteligência artificial ainda não gera ganhos de produtividade e que o banco central americano pode voltar a elevar juros.

Yellen vê IA como fator inflacionário e Fed pronto para agir
Foto: K / Unsplash

Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e ex-secretária do Tesouro americano, fez um alerta que deveria interessar a qualquer investidor acompanhando o ciclo de juros global. Em painel recente, ela afirmou que os investimentos em inteligência artificial são, por enquanto, inflacionários, e que o Fed está preparado para subir juros caso necessário.

A declaração contraria a narrativa predominante de que a revolução da IA traria, naturalmente, ganhos de produtividade capazes de conter pressões de preços. Yellen reconhece que isso pode acontecer no médio prazo, mas é categórica: “Não vemos evidências disso ainda.”

Para quem investe em ativos de risco, sejam ações de tecnologia, criptomoedas ou renda variável emergente, a leitura de Yellen recalibra expectativas. Se a IA pressiona custos antes de gerar eficiência, o ciclo de afrouxamento monetário que o mercado precifica pode demorar mais do que o esperado.

O paralelo com Greenspan e por que desta vez é diferente

Yellen fez uma comparação reveladora com o que aconteceu nos anos 1990, quando Alan Greenspan presidia o Fed. Na época, Greenspan era o único membro do board of governors a argumentar que os ganhos de produtividade trazidos pela revolução tecnológica segurariam a inflação, dispensando altas de juros. Ele estava certo.

O paralelo, porém, termina aí. Yellen foi direta: “Não dá para reduzir os juros por causa da IA. Não agora.” A diferença fundamental é que a adoção de IA ainda está na fase de investimento pesado, não na fase de colheita. Data centers consomem quantidades enormes de energia. A demanda por semicondutores pressiona cadeias de suprimento. Os custos sobem antes que a produtividade apareça nas estatísticas.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o mercado financeiro global segue oscilando entre apostas de corte e manutenção de juros. A incerteza não é apenas sobre dados de emprego ou PIB. É sobre quando, e se, a IA vai entregar o que promete em termos macroeconômicos.

Tarifas, choques de oferta e o Fed em compasso de espera

A inflação, na visão de Yellen, enfrenta pressões de múltiplas frentes. Além dos investimentos em IA, ela citou choques de oferta em diversos mercados, conflitos geopolíticos no Oriente Médio e o impacto das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.

Sobre as tarifas, Yellen fez uma distinção importante: o efeito é “enorme”, mas transitório. Elas elevam a inflação no momento em que são incorporadas aos preços, sem gerar necessariamente uma espiral permanente. Ainda assim, o impacto pontual complica a leitura do Fed sobre a trajetória dos preços.

O resultado é um banco central em modo de observação. Yellen descreveu o Fed como “on hold”, avaliando como todos esses fatores interagem antes de tomar uma decisão. Mas deixou claro que a disposição para agir existe. Se a inflação surpreender para cima de forma persistente, o Fed está pronto para elevar juros, como já detalhamos em nossa análise sobre as últimas decisões de política monetária americana.

O dólar como reserva e a busca por alternativas

Yellen também abordou um tema que ganha relevância a cada trimestre: o papel do dólar como moeda de reserva global. Ela reconheceu que as mudanças geopolíticas estão levando países a buscar alternativas à moeda americana, um movimento que se acelerou desde 2022.

Naquele ano, quando o G7 impôs sanções à Rússia por causa da invasão à Ucrânia, o recado ficou claro para diversas nações. “Muitos países passaram a se perguntar o que aconteceria se estivessem do lado errado”, disse Yellen. A preocupação não é teórica. Reservas em dólar podem ser congeladas, e isso mudou o cálculo de risco soberano de vários governos.

Ao mesmo tempo, Yellen ponderou que ainda existem poucas alternativas viáveis ao dólar no curto prazo. Nem o euro, nem o yuan, nem ativos digitais conseguiram oferecer a mesma combinação de liquidez, profundidade de mercado e estabilidade institucional. Essa leitura dialoga diretamente com o debate sobre desdolarização e o papel crescente de ativos alternativos no sistema financeiro global.

O problema fiscal que ninguém quer resolver

Talvez o ponto mais incômodo da fala de Yellen tenha sido sobre a situação fiscal dos Estados Unidos. Ela classificou o tema como uma das grandes preocupações que deveriam estar no radar dos investidores, algo que frequentemente fica em segundo plano diante da volatilidade de curto prazo.

Os problemas são estruturais. Mudanças demográficas elevam de forma contínua as despesas com previdência e saúde. A população envelhece, os custos sobem, e a base tributária não acompanha. É uma pressão silenciosa, mas persistente, sobre o orçamento federal.

E a solução? Politicamente inviável, segundo Yellen. Cortes de gastos são impopulares. Nenhum governante tem incentivos para propor austeridade. Quando questionada sobre como comunicar à população a necessidade de equilíbrio fiscal, ela foi pragmática: “Quem faz isso costuma perder a eleição.”

O comentário de que a fala parecia se aplicar também ao Brasil não passou despercebido. A dinâmica fiscal brasileira enfrenta desafios semelhantes: gastos obrigatórios crescentes, resistência política a ajustes e uma dívida que se acumula em silêncio.

O que isso significa para quem investe

A mensagem central de Yellen é de cautela. A combinação de IA inflacionária no curto prazo, tarifas pressionando preços, incerteza geopolítica e fragilidade fiscal cria um ambiente em que o custo do dinheiro pode permanecer elevado por mais tempo.

Para investidores em renda variável e ativos de risco, isso reforça a importância de não extrapolar cenários otimistas de corte de juros. O Fed tem mandato duplo, emprego e inflação, e Yellen deixou claro que a segunda metade dessa equação ainda preocupa.

Para quem acompanha o mercado cripto, a leitura é igualmente relevante. Ativos digitais se beneficiaram historicamente de ambientes de liquidez abundante. Se o ciclo de afrouxamento atrasa, a pressão compradora perde força. A tese de longo prazo não muda, mas o timing importa.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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