Tecnologia

Trump e Xi se reúnem nos EUA com IA no centro da pauta

Visita de Estado de Xi Jinping a Washington reúne líderes de OpenAI, Nvidia, Apple e Google em jantar raro, com IA e tarifas como eixos centrais.

Trump e Xi se reúnem nos EUA com IA no centro da pauta
Foto: Yelena from Pexels / Unsplash

A primeira visita de Estado de Xi Jinping aos Estados Unidos desde 2023 começa na próxima terça-feira, 23 de setembro, e traz consigo algo que vai muito além do protocolo diplomático. O encontro entre os líderes das duas maiores economias do mundo tem a inteligência artificial como tema central, ao lado das negociações tarifárias que já se arrastam há meses.

O contexto é revelador. Quando Xi esteve em solo americano pela última vez, durante a cúpula da APEC em São Francisco, a corrida pela IA generativa ainda era dominada quase exclusivamente por empresas americanas. De lá para cá, a China reduziu a distância de forma acelerada, e Washington respondeu com restrições cada vez mais severas à exportação de chips avançados, especialmente os semicondutores da Nvidia.

Agora, os dois países se sentam à mesa com uma dinâmica diferente. E a lista de convidados para o jantar de Estado diz tanto quanto a pauta oficial.

O jantar que funciona como termômetro geopolítico

A Casa Branca organizou um jantar na Sala Leste para a delegação chinesa no dia 24 de setembro, e a lista de presenças confirmadas é um mapa da indústria de tecnologia global. Sam Altman, da OpenAI, Jensen Huang, da Nvidia, Tim Cook, da Apple, Sundar Pichai, do Google, Cristiano Amon, da Qualcomm, Jeff Bezos e Elon Musk são alguns dos nomes esperados.

Reunir os CEOs das principais empresas de IA americana na mesma sala que o presidente chinês é uma movimentação calculada. Envia uma mensagem dupla: para a China, demonstra a profundidade do ecossistema tecnológico americano; para o mercado doméstico, sinaliza que o governo quer essas empresas alinhadas à estratégia geopolítica.

Uma fonte da organização do evento descreveu os lugares no jantar como “bastante disputados”. Não é exagero. Em maio, quando Trump levou mais de uma dezena de CEOs em visita a Pequim, o próprio Xi disse aos executivos americanos que suas empresas “estão profundamente envolvidas na reforma e abertura da China”. A retórica é de cooperação, mas a prática é de competição estratégica.

A corrida pela IA define o tom das negociações

O governo americano opera sob uma premissa clara: empresas como OpenAI, Anthropic, Google e Meta não podem desacelerar o desenvolvimento de IA, sob risco de a China assumir a liderança. Essa posição existe mesmo diante de crescentes apelos internos e internacionais para moderar o ritmo diante dos riscos de perda de controle sobre sistemas cada vez mais avançados.

A tensão é real. Washington mantém restrições severas às exportações de chips para a China, mirando especialmente semicondutores da Nvidia que são essenciais para treinar modelos de IA de grande escala. Pequim, por sua vez, tem investido pesadamente em alternativas domésticas e acelerado seus programas de pesquisa em inteligência artificial.

Sam Altman, CEO da OpenAI, sugeriu publicamente que Trump e Xi poderiam ganhar o Prêmio Nobel da Paz caso cheguem a um acordo sobre inteligência artificial. A declaração pode soar hiperbólica, mas revela o que a indústria espera deste encontro: algum tipo de framework bilateral para a tecnologia mais transformadora da década.

A expectativa, porém, é temperada por realismo. Analistas consideram improvável um acordo para desacelerar o desenvolvimento de IA ou implementar salvaguardas em escala mundial. O mais provável é que as discussões avancem em pontos menos sensíveis, como cooperação em aplicações de IA para saúde ou clima, deixando a competição no campo militar e de infraestrutura digital intacta.

Tarifas e comércio: os US$ 30 bilhões em jogo

Antes do encontro entre os presidentes, os bastidores já estão movimentados. O representante comercial americano Jamieson Greer se reúne com autoridades chinesas em Nova York neste domingo. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, também trabalham para preparar o terreno.

As negociações giram em torno de um acordo para reduzir tarifas sobre produtos energéticos e agrícolas americanos, parte de uma iniciativa mais ampla para diminuir barreiras sobre US$ 30 bilhões em produtos considerados menos sensíveis de cada lado. O acordo foi estruturado durante a última cúpula entre os líderes.

A presença de representantes da Cofco, a estatal chinesa de comércio de alimentos, na delegação de Xi reforça o peso do setor agrícola nas conversas. Do lado chinês, mais de uma dezena de empresas estão sendo consideradas para integrar uma delegação de CEOs, com a BYD entre os nomes mais avançados. Se esses executivos terão protagonismo real ou apenas presença protocolar é uma das poucas incógnitas da semana.

O que isso significa para o mercado de tecnologia

Para investidores e profissionais do setor de tecnologia, o encontro Trump-Xi tem implicações concretas. Qualquer sinal de flexibilização nas restrições de exportação de chips beneficiaria diretamente a Nvidia, cujas vendas para o mercado chinês foram severamente limitadas. Por outro lado, um endurecimento adicional poderia acelerar os esforços da China em desenvolver semicondutores próprios, redesenhando a cadeia global de suprimentos.

A visita também coloca em evidência uma tendência que se consolidou nos últimos anos: a fusão entre política externa e política industrial no setor de IA. As big techs americanas não são apenas empresas, são instrumentos de projeção de poder. E os CEOs que estarão no jantar da Casa Branca sabem disso.

O roteiro da visita se encerra na sexta-feira, 25 de setembro, com um chá privado e uma visita aos Arquivos Nacionais, onde Xi verá documentos históricos dos Estados Unidos no ano em que o país celebra 250 anos de independência. O simbolismo é evidente: duas potências que se olham de frente, cada uma segurando suas cartas, em uma partida que vai definir quem lidera a próxima era tecnológica.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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