Treasuries são o maior risco dos mercados, dizem gestores
Pesquisa com 190 gestores globais mostra que alta desordenada nos rendimentos dos títulos americanos superou a bolha de IA como principal ameaça aos mercados.
O inimigo número um dos mercados financeiros globais mudou de endereço. Saiu do Vale do Silício e foi para o mercado de títulos do Tesouro americano. Uma pesquisa realizada entre 4 e 10 de setembro com 190 gestores que administram juntos cerca de US$ 512 bilhões em ativos mostra que a alta desordenada nos rendimentos dos Treasuries tomou o lugar da chamada “bolha de IA” como o maior risco extremo percebido pelo mercado.
Cerca de 33% dos entrevistados apontaram a escalada dos yields como a principal ameaça, ante 27% no mês anterior. A preocupação com inteligência artificial, que liderava o ranking com 32%, recuou para 28%. É uma inversão que diz muito sobre o momento atual: a ansiedade migrou de valuations esticados em tecnologia para algo mais estrutural, o custo do dinheiro mais seguro do mundo.
Gestores reduzem exposição a ações e elevam caixa
O reflexo prático já aparece nas carteiras. A alocação líquida em ações caiu de 56% para 49% entre agosto e setembro. O nível de caixa subiu de 3,5% para 3,9% dos ativos. Embora o percentual ainda esteja abaixo de 4%, patamar historicamente associado a sinais de compra, o movimento mostra cautela crescente.
Quem acompanha o mercado financeiro global sabe que essa combinação de redução em ações e aumento de caixa não é trivial. Gestores institucionais costumam mover portfólios de forma incremental. Uma oscilação de 7 pontos percentuais na alocação em ações, em um único mês, sinaliza que o desconforto não é retórico.
A venda a descoberto de títulos do Tesouro americano aparece como a segunda operação mais popular entre os gestores ouvidos, ficando atrás apenas de posições compradas em ações de semicondutores globais. Ou seja, o mercado está, ao mesmo tempo, apostando que os yields vão continuar subindo e que o ciclo de investimento em chips ainda tem fôlego.
O que precisa acontecer para o dinheiro voltar aos Treasuries
A posição líquida dos gestores em Treasuries está 48% abaixo do peso ideal, contra 39% no mês anterior. Trata-se da menor exposição a títulos americanos desde maio de 2022, quando o Federal Reserve iniciava o ciclo de aperto monetário mais agressivo em décadas.
Para 27% dos entrevistados, o dinheiro só volta ao mercado de títulos se os rendimentos atingirem um nível considerado realmente atrativo. O exemplo citado é um yield de 6% no título de 30 anos, algo que não se via desde antes da crise de 2008. Outros 19% condicionam a rotação a uma alta significativa no mercado acionário, que geraria lucros para serem realocados.
Esse dado é revelador. Significa que, para quase metade dos gestores, o mercado de renda fixa americana ainda não oferece prêmio suficiente para compensar a volatilidade. Como explicamos em nossa análise sobre o papel dos Treasuries nos mercados, os títulos do Tesouro dos EUA funcionam como referência global de precificação de risco. Quando os gestores fogem deles, o efeito cascata atinge desde bolsas até mercados emergentes.
Recompra do Tesouro gera ceticismo entre profissionais
O Tesouro americano anunciou operações de recompra de títulos de longo prazo, iniciadas no dia 9 de setembro e com previsão de se estenderem até 4 de novembro. A ideia, em tese, é aliviar a pressão sobre os yields. Mas o mercado não comprou a tese.
Dos gestores ouvidos, 46% esperam que as recompras não tenham nenhum impacto sobre os rendimentos. Outros 26% acreditam que os juros podem subir ainda mais, mesmo com a intervenção. Apenas uma minoria vê espaço para alívio. O ceticismo é compreensível: o volume de emissões novas do Tesouro continua elevado, e a demanda internacional por títulos americanos tem mostrado sinais de fadiga.
Para o investidor brasileiro, esse cenário importa diretamente. Juros mais altos nos EUA tendem a fortalecer o dólar, pressionar moedas emergentes e reduzir o apetite por ativos de risco. Como abordamos na análise sobre o impacto dos juros americanos no Brasil, cada 50 pontos-base de alta nos Treasuries de 10 anos historicamente se traduzem em fuga de capital de mercados como o nosso.
Eleições americanas adicionam mais incerteza ao cenário
O fator político também pesa. A expectativa de uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos EUA subiu de 23% para 31% entre agosto e setembro. A leitura predominante é que uma maioria democrata na Câmara e no Senado significaria mais gastos fiscais, o que pressionaria ainda mais os rendimentos dos títulos.
Nesse cenário, 45% dos gestores esperam uma combinação de alta nos yields e queda nas ações. É o pior dos mundos para portfólios tradicionais do tipo 60/40, que dependem da correlação negativa entre renda fixa e variável para funcionar como proteção.
A mensagem dos gestores é clara: o risco não está mais concentrado em uma narrativa setorial como a IA. Está no alicerce do sistema financeiro global, nos títulos que servem de base para precificar tudo o mais. Enquanto os yields continuarem subindo de forma desordenada, o caixa vai continuar engordando e a cautela vai ditar o ritmo dos mercados.
Infraestrutura de IA segue protegida, por enquanto
Um dado curioso da pesquisa: apenas 14% dos gestores esperam cortes nos investimentos em infraestrutura de IA pelas grandes empresas de tecnologia, as chamadas hyperscalers, ao longo deste ano. Apesar de a “bolha de IA” ter perdido o posto de maior risco, o consenso ainda é de que o ciclo de investimento em data centers, chips e modelos de linguagem segue firme.
Isso explica por que posições compradas em semicondutores continuam como a operação mais popular. O mercado diferencia a narrativa especulativa em torno da IA da demanda real por infraestrutura. Uma coisa é o valuation da Nvidia parecer esticado. Outra, muito diferente, é Microsoft, Google e Amazon cortarem seus planos de capex. Por enquanto, a segunda hipótese parece distante.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
