SoftBank cria empresa de robótica para data centers e mira IPO de US$ 100 bi
Conglomerado japonês estrutura nova subsidiária focada em robôs para construção de data centers de IA, com planos de abrir capital em operação que pode superar US$ 100 bilhões.
Masayoshi Son não está satisfeito em ser apenas investidor da revolução da inteligência artificial. O fundador do SoftBank quer construir, literalmente, a infraestrutura física que sustenta essa revolução. E para isso, está criando uma empresa de robótica dedicada à construção de data centers, com ambições de um IPO que pode alcançar US$ 100 bilhões.
A informação, revelada pelo TechCrunch nesta semana, mostra que o conglomerado japonês já estrutura a nova subsidiária com foco em automatizar a edificação dos gigantescos centros de dados que alimentam modelos de IA. O movimento conecta duas obsessões de Son: robótica e inteligência artificial.
Por que automatizar a construção de data centers
O gargalo da corrida pela IA não é mais apenas o chip. É o concreto, o aço e a mão de obra. Segundo estimativas da McKinsey, o investimento global em data centers deve ultrapassar US$ 500 bilhões anuais até 2027. Amazon, Microsoft e Google já comprometeram, juntas, mais de US$ 300 bilhões em capex para infraestrutura de nuvem e IA nos próximos anos.
O problema é que construir esses complexos é lento, caro e intensivo em trabalho humano. Um data center de grande porte leva de 18 a 36 meses para ficar pronto. Nos Estados Unidos, a escassez de mão de obra na construção civil agrava o cenário. A taxa de vagas não preenchidas no setor gira em torno de 400 mil posições, segundo a Associated Builders and Contractors.
A tese do SoftBank é direta: se robôs conseguem montar carros, podem montar data centers. Automatizar esse processo reduziria prazos, cortaria custos e permitiria uma escala de construção que o mercado de trabalho humano simplesmente não consegue acompanhar. Como já discutimos em nossa cobertura sobre transformação digital, a automação industrial está se expandindo para setores antes considerados artesanais.
O plano de IPO mais ambicioso do ano
O que chama atenção não é apenas a empresa em si, mas a escala da ambição. Segundo fontes ouvidas pelo TechCrunch, o SoftBank já projeta uma abertura de capital que poderia avaliar a nova companhia em US$ 100 bilhões. Para contexto, a Arm Holdings, outra aposta de Son, vale cerca de US$ 160 bilhões na Nasdaq.
A cifra parece agressiva para uma empresa pré-operacional, mas reflete a lógica de mercado atual: qualquer negócio que sente na interseção entre IA e infraestrutura física ganha múltiplos generosos. A Vertiv, que fabrica sistemas de refrigeração para data centers, viu suas ações subirem mais de 300% desde o início do boom de IA generativa.
Son também conta com uma vantagem estratégica. O SoftBank já é o maior acionista da Arm, cujos chips alimentam a maioria dos dispositivos móveis do planeta e ganham espaço nos servidores de IA. Integrar robótica de construção com design de chips otimizados para data centers cria uma verticalização difícil de replicar.
O contexto asiático e a corrida por infraestrutura
A movimentação do SoftBank acontece num momento em que a Ásia se posiciona como polo central da infraestrutura global de IA. Japão, Malásia, Índia e Indonésia receberam compromissos bilionários de Microsoft, Google e Amazon nos últimos 12 meses. O próprio governo japonês anunciou incentivos fiscais para a construção de data centers no país, numa tentativa de competir com os Estados Unidos e a Europa.
As bolsas asiáticas, aliás, fecharam mistas nesta madrugada, pressionadas por tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Irã e pela leitura dos PMIs industriais chineses. O Nikkei 225 recuou 0,3%, enquanto o Hang Seng avançou 0,5%. Mas o setor de tecnologia e infraestrutura digital segue como o principal motor de valorização nos mercados da região, como acompanhamos em nossa seção de finanças.
O que isso significa para o investidor
Para quem investe em tecnologia, o movimento do SoftBank sinaliza uma mudança de fase no ciclo de IA. A primeira onda foi dos modelos (OpenAI, Anthropic, Google DeepMind). A segunda foi dos chips (Nvidia, AMD, Arm). Agora começa a terceira: a da infraestrutura física.
Empresas que resolvem gargalos reais de construção, energia e refrigeração tendem a capturar valor à medida que a demanda por capacidade computacional cresce exponencialmente. Segundo a Agência Internacional de Energia, data centers devem consumir o dobro de eletricidade até 2028 em relação a 2023.
Se o SoftBank conseguir entregar robôs que construam data centers mais rápido e mais barato, a companhia não será apenas uma aposta de Son. Será um pilar da economia digital global. A questão é se a execução acompanhará o discurso, algo que o histórico do Vision Fund, com suas apostas em WeWork e outras startups que derreteram, ensina a observar com ceticismo saudável.
Como analisamos em nosso conteúdo sobre IA e mercado financeiro, distinguir narrativa de fundamento continua sendo o exercício mais importante para quem aloca capital nesse setor.