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O que é a SELIC. E por que os juros que você paga são muito maiores que ela


Por Felippe Hermes
Setembro 22, 2021

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A taxa Selic é figurinha carimbada no noticiário, mas você sabe para o que exatamente ela serve?

Figurinha carimbada no Jornal Nacional em dias de “anúncio”, a Selic, ou melhor a “Taxa Selic”, é uma daquelas siglas que afetam seu dia a dia, mas que aposto que você provavelmente nunca parou pra pensar sobre.

Em resumo, essa é a história da taxa anunciada por William Bonner e no que ela afeta sua vida:

Foi em 1979 que o Banco Central se juntou a Andima, entidade privada do mercado de capitais, para criar o SELIC, uma sigla simples que resume o “Sistema Especial de Liquidação e Custódia”.

Na prática, trata-se de um sistema que registra todas operações envolvendo títulos públicos, e que movimenta algo como R$100 bilhões todos os dias.

Esse sistema existe pois, os registros antes manuais tornaram-se inviáveis na medida em que o sistema financeiro brasileiro foi evoluindo.

O objetivo do BC, e do próprio mercado, é saber basicamente “quem tem o que”.

Desde 1999, porém, o BC tem usado a Selic para estabelecer uma meta de juros, ou em outras palavras: quanto deve custar o dinheiro na economia.

Sim, você já deve saber, mas não custa lembrar. Como qualquer produto, o dinheiro tem um custo, que neste caso específico recebe o nome de “juros”.

Por meio dos juros a sociedade determina o quanto o dinheiro vale no tempo. Poupadores podem exigir um preço maior para se desfazer do seu dinheiro agora em prol dos gastadores, o que implicaria em dizer que “os juros estão maiores”.

Pessoas que dêem menos garantias de que irão honrar o compromisso de pagar pelo produto em questão, o dinheiro, devem ver o seu preço subir, em um mecanismo de ajuste implícito.

Eis que, por meio de uma decisão do “Comitê de Política Monetária”, o Copom, o dono do dinheiro que usamos (o governo), estabelece o seu preço.

E isso é, sem nenhum espanto, um meio de controlar a própria economia.

Caso o objetivo do governo seja aquecer a economia, ele pode determinar que o preço do dinheiro está menor, aumentando sua oferta e tornando mais fácil consumir agora. Caso a economia esteja aquecida, o governo pode aumentar o preço do produto.

Talvez você esteja se perguntando o motivo do governo querer reduzir ou aumentar o produto (dinheiro), e com isso reduzir o crescimento da economia.

Para entender isso, basta pensar que: se um produto se torna abundante, ele perde o seu apelo e consequentemente seu valor. Assim como o preço do dinheiro tem um nome próprio, os juros, a desvalorização desse produto pelos consumidores também possui: inflação.

Em suma, o Banco Central busca determinar o quanto vale o dinheiro, o bem mais essencial de uma economia, e permitir crescimento econômico, sem que o tal produto perca valor.

Essa é, em essência, a política monetária do Bacen. A Selic em si é apenas uma meta para perseguir um preço.

E quando falamos de “crescimento econômico” estamos falando essencialmente do quanto as famílias e empresas do país gastam ou investem.

Se os juros sobem, fica mais caro consumir agora. Se eles caem, o consumo presente aumenta.

O objetivo de todo banco central é, em essência, garantir que o seu produto mantenha o valor (uma inflação controlada), e que o crescimento econômico se mantenha. É um desafio imenso, claro, e muitas vezes o BC perde o controle, sendo obrigado a correr atrás de um objetivo em detrimento do outro (como agora em que o BC aumenta os juros para reduzir a inflação).

Quando o BC erra, e isso ocorre bastante, você paga o pato, consumindo menos, seja porque o dinheiro vale menos ou porque a taxa de juros subiu demais.

Mas, se os juros são usados para controlar a atividade econômica, resta a pergunta:

Porque então os juros ao consumidor não chegam sequer próximos à Selic?

Existem inúmeras razões que compõem o chamado “spread”, ou seja, a diferença entre o quanto o dinheiro custa pro banco e o quanto ele está disposto a emprestar pra você.

Algumas dessas razões podem ser resumidas em.

Garantias: a garantia de que o governo pagará sua dívida é basicamente a capacidade que ele tem de extrair recursos de você, pagador de impostos. Isso faz com que os juros do governo sejam os menores praticados em praticamente todas as economias do mundo.

As garantias ajudam o banco a ter certeza de que irá receber o dinheiro de volta. No caso brasileiro, onde apenas 16% dos calotes são recuperáveis (contra 70% na Europa e 84% nos Estados Unidos), essa margem de garantia do banco costuma ser bem elevada para compensar.

Calotes: a inadimplência no Brasil gira historicamente em torno de 4%, o que significa que todos os consumidores devem ressarcir os bancos nestes 4%.

Na prática, se o banco empresta R$100 para 25 pessoas e 1 dessas pessoas dá um calote, as outras 24 pessoas precisam pagar os R$100 em calote.

Se os juros cobrados pelo banco forem de 10% ao ano, significa que o banco esperava receber R$250 sobre os R$2500 que emprestou. Dessa maneira, os R$100 de calote equivalem a 40% de todo ganho esperado. Em suma, uma inadimplência de meros 4% podem impactar, e muito, os juros.

Custos administrativos: essa é simples de entender. Bancos funcionam com pessoas trabalhando em escritórios, consumindo energia elétrica, papel e tudo o mais que precisa ser pago, e é, por você cliente.

Impostos: bancos são bastante lucrativos, via de regra grandes e vigiados por uma entidade que literalmente controla o dinheiro na economia. Em resumo, são um alvo extremamente fácil para cobrar impostos. Justamente por isso, os impostos sobre o lucro dos bancos podem chegar a 45%, além de inúmeros outros, como o IOF, tudo repassado pra você, claro.

Concorrência: quando há menos vendedores de um produto, o preço cobrado por eles tende a ser maior, afinal, o risco de perder um consumidor é menor.

Por esses motivos, os juros são um mecanismo de transmissão relativamente lento. É demorado, e muitas vezes inócuo, para afetar a decisão de consumo das famílias, mas afeta, e muito mais rápido, o consumo das empresas.

Na prática, uma alta de juros eleva o custo e reduz o retorno das empresas, travando o consumo e segurando a inflação.


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