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Google

O monopólio do Google existe, e você deveria prestar atenção


Por Felippe Hermes
Dezembro 14, 2020

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O Google caiu e, com a queda, reacendeu a clássica discussão sobre sua importância quase monopolística e o dilema de privacidade das Big Techs.

Foram poucos minutos de um evento raro, mas revelador. A queda de um dos pilares da internet hoje, a Alphabet, ou “Google” resumidamente, gerou um debate curioso sobre casos de monopólio. 

A discussão em torno da dúvida “seria o Google um monopólio?”, via de regra é acompanhada pela semântica do termo. Não é um monopólio, pois existem inúmeros outros buscadores. Fim de papo, ou não.

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Na prática, monopólios existem no mundo real sob diversos aspectos, nem todos perfeitinhos como nos livros textos de economia.

Em comum, monopólios usam seu poder para extrair ganhos do consumidor. Talvez o mais óbvio deles seja a famosa “propriedade intelectual”. Protegida por lei, a PI garante ao seu detentor o direito de explorar comercialmente uma obra, ou uma ideia.

Essa prática, que promove uma corrida por patentes entre grandes empresas, é um dos mais aceitos e danosos mecanismos anti concorrência. 

Até 1911 por exemplo, a ideia do automóvel era uma patente e, portanto, obrigava a todos que quisessem produzir um veículo o pagamento de royalties para o seu detentor (que jamais produziu um carro).

Grandes corporações possuem hoje uma infindável lista de patentes que bloqueiam o caminho para concorrentes.

Em casos esdrúxulos, temos a Disney, que ativamente atua no congresso americano para aumentar o prazo da lei de propriedade intelectual e impedir que seus personagens virem domínio público (ao mesmo tempo em que a empresa nasceu produzindo filmes e conteúdos pautados em histórias clássicas, de uso livre).

Mas voltando ao campo da tecnologia, o próprio Google argumenta que não há um monopólio, dado que seus usuários não pagam pelo serviço e podem escolher outro, sem problemas.

É um argumento razoável, que poderia ainda assim passar como “monopólio tecnológico” na descrição do economista Joseph Schumpeter, de que quando você, ou uma empresa, produzem uma tecnologia, passam a ser monopolistas dela até que a concorrência atinja o mesmo produto.

De fato, o Google possui uma tecnologia eficaz (a despeito das críticas de mudanças recentes que restringem, e muito, as buscas), o que a torna uma ferramenta tecnológica bastante popular.

Ainda assim, a segunda questão é controversa. A ideia de que os clientes não pagam pelo serviço pode fazer sentido a primeira vista, mas não se sustenta.

Primeiro, é preciso lembrar que o Google coloca seu serviço como publicidade, por uma questão regulatória.

Ao se definir como um vendedor de espaço publicitário, a empresa passa a ocupar uma fração pequena no gigantesco mercado de publicidade global, responsável por girar $517 bilhões anualmente.

Isso por si só faz a empresa representar algo como 15-17% do mercado mundial, um número muito mais baixo do que os 92% em termos de buscadores, contra 2,7% do Bing, o buscador da Microsoft.

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Não seria um problema portanto, afinal, o Google compete com o Facebook, com a Amazon (que fatura cerca de $5,4 bilhões por trimestre na área, contra $28,9 do Google e $18 bilhões do Facebook), além de grandes grupos de mídia globais.

O problema, é claro, é que o Google é uma empresa de redes, cujo principal produto são os dados, mais especificamente os seus dados.

É isso que torna o poder de monopólio do Google relevante, na medida em que ele pode se utilizar de um produto, como o seu buscador, para oferecer produtos que geram prejuízos, como o Gmail ou YouTube.

Ambos, a despeito do prejuízo financeiro no balanço, contribuem para a obtenção de dados, que por sua vez melhoram o engine do Google e o tornam uma ferramenta melhor para os consumidores.

Em suma, você paga para utilizar todos os serviços na medida em que aceita a política de privacidade da empresa.

O grande problema entretanto, é que ainda estamos no início desta ideia de uma sociedade pautada em dados, e não nos acostumamos a dar valor.

Dados porém são escassos, o que cria neles um valor, financeiro inclusive, ainda que custe zero para você produzir. 

Pode parecer confuso, mas entender essa questão é algo crucial nos dias de hoje, em especial com a adoção massiva do 5G nas próximas décadas. Qualquer que seja a rede utilizada, o 5G tende a se beneficiar com a escala, tal qual Google ou Facebook, pois é a escala que os coloca a frente dos seus competidores.

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Quer um exemplo prático? Todos os os anos o Google paga $12 bilhões para a Apple utilizar seu navegador como padrão. 

O motivo? Consumidores que utilizam iPhones geram em média 3 vezes mais receitas em publicidade do que consumidores de Android.

É um resumo da força que a escala produz em favor do Google. A empresa se utiliza do seu tamanho para estar como “padrão”, em plataformas diversas e, com isso, criar um ambiente onde anunciar na internet se torne quase um sinônimo de anunciar no Google.

A ironia, é claro, é que o mesmo Estado que garante os monopólios de patentes, e crie um ambiente de juros reduzidos que favorece a escala destas empresas, seja sempre visto como a alternativa para barrar o poder de monopólio.

Ainda que você compre a ideia de que o Google não monopoliza o setor, pois há competição direta com Amazon e Facebook (tendo o Google 34% do mercado digital contra 19 e 15% dos demais), ou entre Android e iOs, as práticas negligentes e pouco claras com relação aos dados devem se tornar uma questão cada vez mais relevante.

Se o caminho será uma mudança vinda da população, ou uma legislação mais severa sobre o caso (como Westworld sugere na sua terceira temporada), é uma questão ainda em aberto. O certo é que companhias como o Google possuem um poder relevante sobre um aspecto crucial na vida das pessoas: as escolhas.

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