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Nokia reinventa negócio com IA e ação sobe 150% em um ano

A finlandesa Nokia encontrou nova vocação como fornecedora de infraestrutura para data centers de IA. A ação subiu 150% em 12 meses e a Nvidia investiu US$ 1 bilhão na empresa.

Nokia reinventa negócio com IA e ação sobe 150% em um ano
Foto: Brett Sayles / Unsplash

Quem viveu os anos 2000 associa Nokia a celulares indestrutíveis e ao jogo da cobrinha. Essa Nokia ficou no passado. A empresa finlandesa se reinventou como fornecedora de infraestrutura crítica para data centers de inteligência artificial e está colhendo resultados que poucos previram: valorização de cerca de 150% na bolsa de Helsinki nos últimos 12 meses.

Para colocar em perspectiva, o setor de comunicações sem fio, no qual a Nokia se insere, avançou em média 68,5% no mesmo período. A diferença de desempenho reflete uma tese que o mercado comprou com convicção: a de que, no boom de IA, quem fornece o encanamento é tão importante quanto quem produz os modelos.

O que a Nokia faz nos data centers de IA

A Nokia produz hardware e software que funcionam como o sistema nervoso dos data centers. São soluções de rede que direcionam e entregam dados dos servidores aos clientes finais. Usando uma analogia simples: se os cabos de fibra óptica são a estrada, os produtos da Nokia são o GPS que garante que os dados cheguem ao destino certo, no tempo certo.

Com a explosão de demanda por infraestrutura de IA, esse tipo de solução ganhou relevância estratégica. Empresas como OpenAI, Meta e Alphabet dependem de redes escaláveis e de alta performance para operar seus modelos. Justin Hotard, CEO da Nokia, classificou os produtos da empresa como “a espinha dorsal da economia de IA” em comunicado recente.

Não se trata de exagero retórico. A transformação digital acelerada pela IA gera uma demanda crescente por infraestrutura de rede que acompanhe a escala dos modelos de linguagem e dos clusters de GPUs usados para treiná-los.

A aquisição que mudou o jogo

A virada estratégica da Nokia começou em 2024, ainda sob o comando do ex-CEO Pekka Lundmark. O movimento decisivo foi a aquisição da Infinera, fabricante especializada em tecnologia de rede óptica, por US$ 2,3 bilhões. A Infinera produz lasers, receptores e chips que transportam dados em altíssima velocidade, exatamente o tipo de componente que data centers de IA exigem em escala.

O impacto foi imediato. A participação de mercado da Nokia no segmento de redes ópticas nos Estados Unidos saltou de 6,3% para 27,3% em 2025. Em menos de dois anos, a empresa saiu de uma posição marginal para se tornar um dos principais fornecedores do mercado americano, o mais aquecido do mundo em investimentos de IA.

Essa movimentação lembra o que aconteceu com outras empresas que souberam se reposicionar em ciclos tecnológicos. Como analisamos em matérias sobre o impacto da IA no mercado financeiro, a capacidade de adaptação é o que separa empresas que surfam ondas tecnológicas daquelas que são engolidas por elas.

O CEO que veio da Intel e trouxe o Vale do Silício

A consolidação da Nokia no ecossistema de IA se acelerou com a chegada de Hotard ao cargo de CEO em 2025. Antes de assumir a empresa finlandesa, ele chefiava os setores de data center e IA da Intel, o que lhe dava trânsito direto com os maiores compradores de infraestrutura do mundo.

Hotard não veio sozinho. Trouxe executivos veteranos do Vale do Silício para expandir o braço de infraestrutura de IA da Nokia. O trabalho foi reconhecido rapidamente pelo mercado de uma forma bastante concreta: em outubro de 2025, a Nvidia comprou 2,9% da Nokia por US$ 1 bilhão.

Quando a maior empresa de chips de IA do mundo coloca dinheiro em uma fornecedora de rede, é um sinal difícil de ignorar. O investimento da Nvidia funciona como um selo de validação técnica e comercial. Mais do que um retorno financeiro, a Nvidia enxerga na Nokia uma parceira estratégica para o ecossistema de data centers que ela própria alimenta com suas GPUs.

Laboratório de IA na Califórnia e parceiros de peso

Em 2025, a Nokia inaugurou um laboratório de inovação voltado para IA em Sunnyvale, na Califórnia, coração do Vale do Silício. O objetivo é acelerar o desenvolvimento de tecnologias de rede nativas em IA, pensadas desde o início para atender a demanda de data centers de alto desempenho.

O laboratório conta com apoio de um grupo diversificado de parceiros: AMD, Keysight, Lenovo, Supermicro, VIAVI, Weka, Everpure e Nscale. Essas empresas trabalham em conjunto com a Nokia para desenvolver e testar soluções avançadas de rede. É um modelo colaborativo que reflete a realidade do setor: nenhuma empresa sozinha domina toda a cadeia de valor de um data center de IA.

A estratégia de construir parcerias no ecossistema de IA é semelhante ao que a Nvidia fez ao criar uma rede de desenvolvedores e fabricantes ao redor de sua plataforma CUDA. A Nokia parece estar replicando essa lógica na camada de rede.

Projeções quase dobraram após trimestre forte

Os números confirmam a tese. Após um primeiro trimestre fiscal forte no segmento de redes ópticas, a Nokia quase dobrou sua projeção de crescimento para o ano, elevando a faixa de 6% a 8% para 18% a 20%. É uma revisão agressiva que sinaliza que a demanda está superando até as estimativas mais otimistas da própria empresa.

Para investidores que acompanham o setor de tecnologia, a história da Nokia oferece uma lição importante. Em ciclos de inovação acelerada, como o atual boom de IA, nem sempre as empresas mais óbvias capturam o maior valor. Às vezes, o fornecedor de infraestrutura de bastidores se beneficia tanto quanto, ou mais, do que as empresas que estampam manchetes.

A Nokia de 2025 não fabrica celulares. Fabrica a infraestrutura que permite à IA funcionar em escala. E o mercado está precificando essa diferença.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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