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Nasdaq tomba 5,5% após onda azul: o que muda para tech

A liquidação em Wall Street zerou os ganhos pós-eleição e levantou dúvidas sobre o futuro da expansão de IA nos EUA sob um Congresso democrata.

Nasdaq tomba 5,5% após onda azul: o que muda para tech
Foto: Jeremy de Blok / Unsplash

Um dia depois de Wall Street celebrar a vitória ampla do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato, o mercado americano devolveu tudo e foi além. O Nasdaq despencou 5,52% na sessão de quinta-feira, zerando os ganhos da véspera e acumulando perda superior a 10% em relação ao recorde registrado no mês anterior. O S&P 500 registrou o pior pregão desde abril de 2025.

A euforia durou exatamente 24 horas. O que mudou entre a festa e o pânico não foi um dado econômico novo, mas a digestão do que a chamada “onda azul” significa na prática para o setor que mais sustentou a alta dos índices nos últimos dois anos: tecnologia e inteligência artificial.

Por que o mercado virou contra as big techs

O gatilho da liquidação foi a percepção de que um Congresso inteiramente democrata, combinado com vitórias em governos estaduais estratégicos, abre caminho para duas frentes que preocupam o setor de tecnologia. A primeira é uma regulamentação mais rígida sobre a expansão da inteligência artificial. A segunda, talvez mais imediata, envolve a possibilidade de desaceleração forçada na construção de data centers, infraestrutura essencial para o avanço da IA generativa.

Investidores migraram de papéis de crescimento para setores defensivos com velocidade atípica. As ações da Nvidia recuaram 9,26%, fechando a US$ 181,60. A Broadcom caiu 10,43%, para US$ 291,53. A CoreWeave, uma das protagonistas do segmento de neocloud, perdeu 9,83%. O ETF iShares Semiconductor (SOXX), que reúne as principais fabricantes de chips, registrou queda de 12,79%.

Luca Girardi, analista de investimentos da Nomad, contextualizou o movimento. Segundo ele, o ajuste ocorre sobre múltiplos que já estavam comprimidos pelo receio de desaceleração nos investimentos em IA, mesmo com o setor ainda entregando crescimento de resultados acima de 20% e revisões positivas de guidance. Ou seja, os fundamentos não pioraram. O que mudou foi o cenário político e, com ele, a percepção de risco regulatório.

VIX dispara ao maior nível desde março

O VIX, indicador de volatilidade implícita do S&P 500 frequentemente chamado de “índice do medo”, saltou 69,42% no pregão, variando mais de 11 pontos e superando os 28 pontos. Foi o maior nível desde março deste ano, período em que o mercado precificava os primeiros sinais de enfraquecimento do consumo americano.

Uma alta dessa magnitude no VIX não é trivial. Historicamente, saltos acima de 50% em uma única sessão aconteceram em momentos como a crise bancária regional de março de 2023, o susto com o carry trade do iene em agosto de 2024 e o início do ciclo de aperto monetário em 2022. O padrão sugere que o mercado está reprecificando um risco estrutural, não apenas reagindo a um evento pontual. Para entender como movimentos de aversão ao risco afetam diferentes classes de ativos, vale acompanhar a dinâmica entre renda variável e renda fixa nos próximos dias.

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Mercado de trabalho aquecido adiciona pressão

Paralelamente à turbulência política, os dados de emprego adicionaram uma camada de complexidade. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego recuaram para 189 mil na semana encerrada em 31 de outubro, abaixo da estimativa de 196 mil dos economistas consultados e no menor patamar em 57 anos.

Um mercado de trabalho tão apertado, em tese, reduz a urgência de cortes de juros pelo Federal Reserve. Isso é particularmente negativo para ações de tecnologia, cujas valuations dependem fortemente da taxa de desconto aplicada a fluxos de caixa futuros. Com o payroll de outubro previsto para sexta-feira, o mercado enfrenta um cenário em que tanto a política fiscal quanto a monetária podem se tornar menos favoráveis ao setor de crescimento.

Como analisamos em matérias recentes sobre o impacto da regulamentação sobre empresas de IA, a tensão entre inovação e controle governamental já vinha se intensificando. A diferença agora é que ela deixou de ser retórica e ganhou maioria legislativa.

O que isso significa para quem investe

A correção do Nasdaq merece contexto. Mesmo após a queda de 10% em relação ao topo, o índice ainda acumula valorização expressiva nos últimos 12 meses, impulsionada pelo ciclo de IA. A questão não é se o setor de tecnologia está quebrado, porque não está. É se o ritmo de expansão que o mercado vinha precificando é compatível com um ambiente regulatório mais restritivo.

Se o Congresso democrata avançar com legislação que limite a construção de data centers ou imponha requisitos mais rígidos para treinamento de modelos de IA, as projeções de receita de empresas como Nvidia e Broadcom precisarão ser revisadas para baixo. Não é um cenário de colapso, mas de compressão de múltiplos, algo que já começou a acontecer.

Para investidores brasileiros com exposição ao mercado americano, a rotação setorial em curso pode representar tanto risco quanto oportunidade. Setores defensivos como saúde, utilities e consumo básico tendem a se beneficiar no curto prazo. Já para quem mantém posições em tecnologia com horizonte mais longo, a pergunta central é se a tese de investimento em IA continua intacta apesar da mudança política.

Os fundamentos de receita e lucro das big techs seguem sólidos. O que mudou, por enquanto, é o prêmio de risco. E em Wall Street, prêmio de risco muda de preço muito rápido.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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