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Micron dispara 13% com receita 4x maior: o efeito IA nos chips

Micron teve receita de US$ 41,4 bi no trimestre, muito acima dos US$ 35,9 bi esperados. É o sexto tri seguido de crescimento de três dígitos, puxado por chips para IA.

Micron dispara 13% com receita 4x maior: o efeito IA nos chips
Foto: Tima Miroshnichenko / Unsplash

Seis trimestres seguidos de crescimento de três dígitos

A Micron Technology entregou resultados que fizeram Wall Street reavaliar os modelos de precificação do setor de semicondutores. No terceiro trimestre fiscal, encerrado em 28 de maio, a empresa registrou receita de US$ 41,46 bilhões. O mercado esperava US$ 35,91 bilhões. A diferença de quase US$ 6 bilhões entre o realizado e o consenso é, por si só, maior que a receita trimestral inteira de boa parte das empresas listadas nos Estados Unidos.

O lucro líquido ajustado alcançou US$ 28,86 bilhões, equivalente a US$ 25,11 por ação. Analistas consultados pela FactSet projetavam US$ 20,86 por ação. É um desvio positivo de 20% sobre estimativas que já eram consideradas otimistas. As ações da companhia subiram 13,28% no after hours de Nova York logo após o anúncio.

O dado mais impressionante, porém, está na comparação anual. No mesmo trimestre do ano anterior, a receita da Micron foi de US$ 9,3 bilhões. A variação: crescimento superior a 346%. Esse é o sexto trimestre consecutivo em que a companhia entrega expansão anual de três dígitos, algo raro em qualquer setor e praticamente inédito entre as grandes fabricantes de componentes eletrônicos.

O que explica essa explosão de receita

A resposta curta é uma palavra: IA. A demanda por chips de memória DRAM e NAND disparou com a construção acelerada de data centers dedicados a cargas de trabalho de inteligência artificial. Treinar e rodar modelos de linguagem como GPT, Claude e Gemini exige quantidades enormes de memória de alta largura de banda, exatamente o tipo de componente que a Micron fabrica.

Mas não se trata apenas de demanda. A escassez de suprimentos no segmento elevou os preços médios de venda desses chips. É um cenário que combina volume crescente com margens em expansão, o tipo de dinâmica que investidores de semicondutores não viam desde o boom pós-pandemia em 2021, com a diferença de que agora o crescimento parece ter fundamentos mais sustentáveis.

A corrida por infraestrutura de IA está transformando o perfil financeiro de toda a cadeia de semicondutores. Empresas como Nvidia dominam as manchetes por causa dos GPUs, mas a Micron mostra que os componentes de suporte, como memória e armazenamento, capturam uma fatia enorme desse investimento. Sem memória suficiente, um GPU de última geração simplesmente não opera no seu potencial.

O guidance que assustou até os otimistas

Se os resultados do trimestre fechado já surpreenderam, as projeções para o trimestre atual foram ainda mais agressivas. A Micron indicou expectativa de lucro ajustado de US$ 31 por ação sobre vendas de US$ 50 bilhões. Os analistas esperavam US$ 25,72 por ação sobre receita de US$ 43,58 bilhões.

A diferença entre o guidance da empresa e o consenso de mercado chega a 20% na linha de lucro e 15% na linha de receita. Isso sinaliza que a Micron enxerga a demanda por chips de memória para IA não apenas se mantendo, mas acelerando. Se confirmado, a receita trimestral de US$ 50 bilhões colocaria a companhia em um patamar de faturamento anualizado próximo a US$ 200 bilhões, algo impensável dois anos atrás.

Para contextualizar: a Intel, historicamente a maior fabricante de chips dos Estados Unidos, reportou receita anual de cerca de US$ 54 bilhões em 2024. A Micron, que sempre foi vista como uma empresa cíclica e de menor porte, está desafiando essa hierarquia. A dinâmica do mercado financeiro já reflete essa mudança de percepção.

O que isso significa para quem investe

Os resultados da Micron reforçam uma tese que o mercado vem testando há trimestres: o ciclo de investimento em IA não está desacelerando. Pelo contrário, os números sugerem que estamos ainda na fase inicial de construção de infraestrutura. As grandes empresas de tecnologia, de Microsoft a Google, passando por Meta e Amazon, continuam expandindo seus orçamentos de capital para data centers.

Para investidores brasileiros, o tema é relevante por duas vias. A primeira é direta: ações de semicondutores estão entre as mais negociadas por meio de BDRs e ETFs na B3. A segunda é indireta: o boom de IA sustenta o apetite por risco global, o que historicamente favorece mercados emergentes e ativos de maior volatilidade, incluindo criptomoedas.

Existe, porém, um risco que merece atenção. O setor de memória é historicamente cíclico. Períodos de escassez levam a preços altos, que incentivam expansão de capacidade, que eventualmente gera excesso de oferta e queda de preços. A questão central é se a demanda estrutural de IA é grande o suficiente para quebrar esse padrão. Os números da Micron sugerem que sim, ao menos por enquanto.

O ciclo de IA está longe de esfriar

O que a Micron mostrou neste trimestre vai além de um bom resultado financeiro. É um termômetro da economia real da inteligência artificial. Enquanto parte do mercado debate se há uma bolha em ações de tecnologia, os dados concretos de receita e lucro contam uma história de demanda tangível, não de especulação.

A empresa está convertendo hype em faturamento a uma velocidade que poucas companhias na história recente do mercado conseguiram. E o guidance para o próximo trimestre sugere que a aceleração continua. Para o investidor que acompanha o setor de tecnologia, os resultados da Micron são provavelmente o dado mais importante da semana, mais revelador do que qualquer indicador macroeconômico sobre a real força do ciclo de IA.

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Sobre o autor
Renato Moura
Jornalista especializado em finanças, tecnologia e criptoativos. Cobre mercados financeiros, inovação e os impactos da economia digital no Brasil e no mundo.
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