Tecnologia

Meta gasta centenas de milhões com IA da Microsoft por ano

A dona do Facebook consome trilhões de tokens por semana no Azure. O dado revela um problema estrutural: a receita de IA ainda depende das próprias big techs.

Meta gasta centenas de milhões com IA da Microsoft por ano
Foto: cottonbro studio / Unsplash

A Meta se tornou uma das maiores clientes de inteligência artificial da Microsoft. Segundo fontes com conhecimento do assunto, a dona do Facebook e do Instagram gasta centenas de milhões de dólares por ano para acessar modelos de IA pelo Azure, o serviço de computação em nuvem da rival. Toda semana, a Meta consome trilhões de tokens na plataforma.

O número impressiona, mas o que ele revela sobre a estrutura do mercado de IA é ainda mais relevante. A maior parte da receita de inteligência artificial da Microsoft ainda vem de outras empresas de tecnologia. E isso levanta uma pergunta que investidores e analistas fazem com frequência crescente: quando a IA vai gerar receita fora da própria bolha tech?

Quem realmente paga a conta da IA na Microsoft

A Microsoft opera um marketplace chamado Foundry, que oferece modelos de diferentes fornecedores de IA para empresas. Em julho, o serviço contava com 100 mil clientes. A companhia frequentemente destaca, em campanhas promocionais, clientes de setores tradicionais como manufatura e transporte.

A realidade dos números, porém, conta outra história. Os maiores compradores do Foundry são empresas de tecnologia. A ByteDance, controladora chinesa do TikTok, costuma figurar como a maior cliente individual da plataforma. Outros nomes relevantes incluem Adobe, a startup de buscas Perplexity e a Sierra, empresa de atendimento ao cliente cofundada por Bret Taylor, presidente do conselho da OpenAI.

A concentração é ainda mais aguda quando se olha para o quadro completo. A OpenAI, parceira de longa data da Microsoft, respondeu por cerca de 70% da receita total de IA da companhia no último ano fiscal. Somando OpenAI, Meta, ByteDance e as demais big techs, resta muito pouco espaço para o restante da economia.

Esse cenário de concentração no setor de tecnologia não é novidade em ciclos de inovação, mas a escala dos investimentos envolvidos torna o risco proporcionalmente maior.

Por que a Meta compra IA da concorrência

À primeira vista, parece contraditório. A Meta é uma das maiores investidoras em infraestrutura de IA do mundo, com bilhões de dólares alocados em centros de dados. A empresa desenvolve seus próprios modelos de linguagem, como a família Llama. Então por que gastar centenas de milhões com a Microsoft?

A resposta está no processo de desenvolvimento. Segundo Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta, a empresa aluga acesso a modelos líderes do mercado durante o ciclo de criação dos próprios modelos. Desenvolvedores da Meta chegaram a usar modelos da OpenAI, acessados pelo Foundry, para avaliar e comparar o desempenho das suas próprias soluções.

É uma dinâmica comum em engenharia de software: usar o concorrente como benchmark. Mas o volume de consumo sugere que a dependência vai além de simples testes. A Meta compra acesso a modelos por meio de diversas plataformas, escolhendo alternativas conforme disponibilidade e custo. Trata-se de uma estratégia pragmática, não ideológica.

Essa relação não é inédita entre as duas empresas. O Bing, mecanismo de busca da Microsoft, alimentou as pesquisas dentro do Facebook desde o fim dos anos 2000. Em 2014, a Meta encerrou a parceria. A Microsoft também forneceu capacidade computacional para projetos de IA da Meta antes mesmo do lançamento do ChatGPT, que desencadeou o boom atual. Como já analisamos nesta cobertura sobre a corrida da IA, essas interdependências entre big techs são mais profundas do que parecem na superfície.

A Meta quer construir seu próprio Foundry

Enquanto gasta centenas de milhões com a Microsoft, a Meta também prepara uma resposta competitiva direta. A empresa está desenvolvendo seu próprio serviço para comercializar acesso a diferentes modelos de IA por meio de APIs, algo que funcionaria de forma semelhante ao Foundry.

Se o plano funcionar, a Meta conseguiria dois objetivos simultâneos: reduzir a dependência de fornecedores externos e criar uma nova fonte de receita. Seria uma repetição do padrão histórico da empresa, que costuma adotar soluções de terceiros em fases iniciais para depois internalizar a operação.

O movimento também coloca a Meta em rota de colisão com a Microsoft em mais uma frente. Hoje, as duas competem em realidade virtual, produtividade corporativa e agora potencialmente no mercado de infraestrutura de IA como serviço. A disputa pela infraestrutura de inteligência artificial promete ser uma das batalhas mais caras da história da tecnologia.

O problema estrutural que ninguém quer discutir

O dado mais importante desta história não é o valor gasto pela Meta. É o que ele representa sobre o estágio atual do mercado de IA.

Quando a maior parte da receita de inteligência artificial de uma empresa como a Microsoft vem de outras big techs, o mercado está essencialmente girando dinheiro dentro de si mesmo. A OpenAI paga à Microsoft por infraestrutura. A Microsoft investe na OpenAI. A Meta paga à Microsoft por modelos. A Microsoft usa a receita para construir mais data centers.

Para que a tese de IA se sustente no longo prazo, a tecnologia precisa gerar valor mensurável em setores como saúde, agricultura, logística e serviços financeiros. Hoje, a adoção fora do setor de tecnologia existe, mas ainda não na escala necessária para justificar os trilhões de dólares em capitalização de mercado que foram adicionados às big techs desde o início do ciclo.

Isso não significa que a IA seja uma bolha. Significa que o mercado está precificando um cenário de adoção ampla que ainda não se materializou. E enquanto os maiores clientes de IA continuarem sendo outras empresas de IA, o risco de concentração seguirá como uma das variáveis mais relevantes para quem acompanha o setor.

A situação lembra, em certa medida, os primeiros anos da computação em nuvem. Entre 2008 e 2014, os maiores clientes de AWS eram outras startups de tecnologia. Levou quase uma década para que empresas tradicionais migrassem em massa. A diferença é que, desta vez, o volume de capital investido antes da adoção generalizada é incomparavelmente maior.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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