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Memecoin de Trump causou US$ 3,8 bi em perdas a investidores

Dados da Nansen mostram que dois em cada três compradores da memecoin TRUMP perderam dinheiro. O token acumula queda de 98% desde a máxima histórica.

Memecoin de Trump causou US$ 3,8 bi em perdas a investidores
Foto: RDNE Stock project / Unsplash

Quase 1 milhão de carteiras acumularam perdas totais de US$ 3,8 bilhões após comprarem a memecoin TRUMP, segundo análise da firma de inteligência on-chain Nansen. O número representa cerca de dois em cada três compradores do token, que foi lançado três dias antes da posse presidencial de Donald Trump em janeiro de 2025.

No último domingo, o token TRUMP era negociado a US$ 1,69, uma queda de aproximadamente 98% em relação à máxima histórica de US$ 75,35. Os dados da Nansen, baseados em transações publicamente visíveis na blockchain, contabilizaram 988.905 contas no prejuízo até o final de junho.

Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos revelou em declaração financeira recente que faturou US$ 636 milhões com a memecoin, valor que representa quase metade dos US$ 1,4 bilhão que ele obteve da indústria cripto no último ano.

O que os dados on-chain revelam sobre as perdas

A análise da Nansen expõe um padrão conhecido no mercado de memecoins: a concentração de ganhos entre os primeiros compradores e a destruição de valor para quem entra depois. Dos quase 1,5 milhão de carteiras que interagiram com o token TRUMP, dois terços encerraram suas posições no vermelho.

Esse tipo de dinâmica não é exclusivo desta memecoin. Como já discutimos em análises sobre o mercado de criptomoedas, tokens impulsionados por hype e sem fundamentos de protocolo tendem a seguir curvas de valorização e colapso extremamente rápidas. O diferencial aqui é a escala: US$ 3,8 bilhões em perdas consolidadas colocam o episódio entre os maiores eventos de destruição de riqueza do varejo no universo cripto.

O contraste entre os números é revelador. Enquanto quase 1 milhão de investidores perderam dinheiro, o próprio presidente lucrou mais de meio bilhão de dólares. A assimetria levanta questionamentos éticos e regulatórios sobre a emissão de tokens por figuras públicas com influência direta sobre políticas governamentais.

O conflito entre regulação e interesse político

O caso ganha contornos mais complexos quando se observa a postura regulatória da atual administração. Sob o governo Trump, a Securities and Exchange Commission (SEC) declarou que não regulará memecoins como valores mobiliários e abandonou diversas ações judiciais contra empresas do setor cripto.

Um porta-voz da Casa Branca afirmou que “o presidente Trump orgulhosamente transformou os Estados Unidos na capital cripto do mundo”. A declaração resume a estratégia política: abraçar o setor como bandeira, mesmo quando as consequências financeiras para investidores individuais são severas.

A decisão da SEC de não classificar memecoins como securities cria uma zona cinzenta regulatória. Diferentemente de tokens que representam participação em projetos ou protocolos com utilidade definida, memecoins são essencialmente veículos especulativos. Sem a supervisão regulatória aplicada a valores mobiliários, investidores ficam sem as proteções tradicionais contra manipulação de mercado e assimetria de informação.

World Liberty Financial e a conexão familiar com cripto

A memecoin TRUMP não é o único empreendimento cripto da família presidencial. Antes do lançamento do token, Trump já havia cofundado a World Liberty Financial (WLFI) com seus filhos. O token WLFI também registrou queda significativa de valor, embora os números exatos de perdas dos investidores não tenham sido detalhados na mesma análise.

O padrão levanta uma questão que o mercado cripto ainda não resolveu: qual é o limite entre a participação legítima de figuras públicas no ecossistema e o uso de influência política para extração de valor. Com US$ 1,4 bilhão em receitas totais do setor cripto, a indústria se tornou a maior fonte de renda do presidente, como mostramos em coberturas anteriores sobre o tema.

Para os investidores que entraram na memecoin após o lançamento, o resultado financeiro é claro: a esmagadora maioria perdeu dinheiro. A queda de 98% desde o topo significa que alguém que investiu US$ 10 mil na máxima teria hoje cerca de US$ 224.

O que o episódio ensina sobre memecoins

Os dados da Nansen reforçam uma lição recorrente. Memecoins são, por definição, ativos sem fluxo de caixa, sem governança estruturada e sem caso de uso além da especulação. Quando o impulso inicial se esgota, o preço tende a convergir para próximo de zero.

O diferencial do caso TRUMP é que ele adiciona uma camada política. O emissor do token é o presidente do país que regula (ou escolhe não regular) o mercado onde esse token é negociado. É uma situação sem precedentes na história dos mercados financeiros.

Os US$ 3,8 bilhões em perdas também servem como lembrete de que o mercado cripto, apesar da maturação em áreas como Bitcoin e protocolos DeFi estabelecidos, ainda abriga segmentos onde o risco de perda total é concreto. A ausência de regulação específica para memecoins nos Estados Unidos não deve ser interpretada como sinal de segurança. É, na prática, o oposto.

Para quem acompanha o mercado cripto, o caso TRUMP é um estudo de caso sobre os riscos de misturar política, celebridade e especulação financeira. O resultado está registrado na blockchain: quase 1 milhão de carteiras no prejuízo e um presidente meio bilhão de dólares mais rico.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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