Malásia vira polo global de IA ao atrair EUA e China ao mesmo tempo
País do Sudeste Asiático recebe bilhões de empresas americanas e chinesas em data centers de IA, explorando posição neutra na guerra tecnológica entre as potências.
Enquanto Estados Unidos e China travam uma guerra tecnológica cada vez mais intensa, um país de 35 milhões de habitantes encontrou uma forma de lucrar com os dois lados. A Malásia se transformou em um dos maiores polos globais de data centers voltados para inteligência artificial, recebendo investimentos bilionários tanto de gigantes americanas quanto de empresas chinesas que buscam acesso a chips avançados fora do alcance das sanções de Washington.
No estado de Johor, no sul do país, 65 projetos de data centers estão em operação, construção ou em diferentes fases de aprovação. As instalações já consomem mais de 2 gigawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer mais de um terço das residências do país. Se todos os projetos planejados forem concluídos, a demanda pode superar 10 gigawatts, o que transformaria a região em uma das maiores concentrações de poder computacional do planeta.
Por que a Malásia e não outro país do Sudeste Asiático
A combinação é difícil de replicar: terrenos baratos, energia relativamente acessível e proximidade estratégica dos cabos submarinos que conectam a China ao restante do mundo. Mas o fator decisivo é político. A Malásia optou deliberadamente por uma posição neutra na disputa entre as duas potências, recebendo investimentos de ambos os lados sem alinhar-se a nenhum.
Microsoft, Google e Oracle investem pesadamente no país para se aproximar de clientes asiáticos. Do outro lado, ByteDance, Tencent e Alibaba construíram infraestrutura de processamento de dados na mesma região. Em alguns parques industriais de Johor, instalações voltadas para empresas americanas e chinesas estão sendo erguidas praticamente lado a lado. Como descreveu um integrante do governo local envolvido na aprovação dos projetos: “Este é o único lugar do mundo onde estamos vendo isso acontecer.”
O movimento teve origem por volta de 2021, quando Singapura proibiu novos projetos de data centers por conta de restrições energéticas. A demanda migrou para o outro lado da fronteira. Empresas chinesas chegaram primeiro, seguidas pelas americanas, e a dinâmica se retroalimentou desde então. A corrida global por infraestrutura de IA encontrou no estado de Johor uma válvula de escape para as tensões geopolíticas.
O papel dos chips da Nvidia na equação geopolítica
No coração dessa história estão os semicondutores mais avançados da Nvidia, amplamente proibidos de serem exportados diretamente para a China desde 2022. As restrições impostas por Washington impediram a venda dos chips mais sofisticados ao território chinês, mas não regularam o uso desses mesmos processadores em data centers localizados em outros países.
Essa distinção regulatória criou uma brecha. Empresas chinesas como a ByteDance, controladora do TikTok, passaram a acessar chips avançados de IA por meio de data centers na Malásia. Um caso emblemático é a DayOne, desenvolvedora de data centers com raízes corporativas na GDS Holdings, uma das maiores operadoras do segmento na China. Rebatizada em 2025, a empresa captou bilhões de dólares de investidores internacionais, incluindo a americana Coatue Management e o japonês SoftBank.
Segundo documentos apresentados a investidores, um cliente não identificado que opera um “serviço líder de vídeos curtos” respondeu por quase 70% da receita da DayOne no primeiro semestre de 2026. Analistas identificam a ByteDance como esse cliente. É um exemplo concreto de como a inteligência artificial reorganiza cadeias produtivas globais, criando novos centros de poder tecnológico em regiões antes periféricas.
Washington observa com desconfiança
O crescimento acelerado dos data centers no Sudeste Asiático não passa despercebido pelas autoridades americanas. Um relatório distribuído dentro do governo dos EUA identificou participação direta ou indireta chinesa em 38 dos 128 projetos de data centers existentes na região.
O dado mais revelador: a capacidade computacional disponível para empresas chinesas na Malásia, Tailândia, Vietnã, Indonésia e Singapura é quase tão significativa quanto a existente em toda a China continental, onde as restrições americanas limitaram a expansão do setor. Em outras palavras, as sanções podem ter empurrado a infraestrutura de IA chinesa para fora de suas fronteiras, em vez de contê-la.
Essa dinâmica levanta questões sobre a eficácia das restrições comerciais como instrumento de política tecnológica. Se os chips proibidos de entrar na China estão sendo usados por empresas chinesas a poucos milhares de quilômetros de distância, o objetivo estratégico das sanções é parcialmente frustrado. Autoridades americanas, incluindo assessores da Casa Branca para temas tecnológicos, acompanham a situação de perto.
O que está em jogo para o mercado global de tecnologia
A transformação da Malásia em polo de IA traz consequências que vão além da geopolítica. O país enfrenta preocupações crescentes sobre o consumo de água e eletricidade gerado pelos data centers. A demanda energética dos projetos já planejados é monumental, e a infraestrutura do país precisará de investimentos massivos para acompanhar o ritmo.
Para investidores, o fenômeno sinaliza uma tendência estrutural: a infraestrutura de IA está se descentralizando. Não se concentra mais apenas nos EUA ou na China, mas migra para territórios neutros que oferecem vantagens logísticas e regulatórias. A Nvidia, cujos chips alimentam a maior parte dessa expansão, continua sendo a grande beneficiária independentemente de onde as máquinas estejam fisicamente instaladas.
O caso da Malásia também ilustra como a geopolítica redesenha os fluxos de capital no setor de tecnologia. Países que se posicionam como plataformas neutras podem capturar investimentos desproporcionais ao seu tamanho econômico. Johor, estado que antes vivia de plantações de óleo de palma e abacaxi, hoje abriga uma das maiores concentrações de computação de IA do planeta.
A pergunta que fica para os próximos trimestres é se Washington vai fechar essa brecha regulatória ou se a Malásia consolidará sua posição como o terreno neutro da corrida pela inteligência artificial. De qualquer forma, o fato de um país do Sudeste Asiático ter se tornado tão relevante nessa disputa já diz muito sobre os limites das guerras tecnológicas travadas apenas com sanções comerciais.
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