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Instacart busca comprador: DoorDash e Uber na disputa

Instacart contratou banco de investimento para avaliar uma possível venda. DoorDash e Uber já foram procuradas, mas o desfecho ainda é incerto.

Instacart busca comprador: DoorDash e Uber na disputa
Foto: Nataliya Vaitkevich / Unsplash

A Instacart, empresa de entregas de supermercado que abriu capital em 2023, está explorando uma venda. A companhia contratou um banco de investimento para avaliar suas opções estratégicas e já manteve conversas tanto com a DoorDash quanto com a Uber, segundo múltiplas fontes de mercado.

A Uber, porém, teria se afastado das discussões. A DoorDash permanece na mesa. E o mercado reagiu de imediato: as ações da Instacart subiram mais de 9,2% na sexta-feira, enquanto os papéis de Uber e DoorDash recuaram.

Com um valor de mercado superior a US$ 13 bilhões e uma valorização acumulada de 25% no ano, a empresa parece enxergar uma janela favorável para negociar antes que o cenário competitivo se torne ainda mais agressivo. Mas as conversas são preliminares e podem não resultar em acordo.

Por que a Instacart cogita vender agora

A decisão de contratar assessoria financeira para avaliar uma venda não é trivial. Indica que a liderança da Instacart reconhece um problema estrutural: o mercado de delivery de supermercado nos Estados Unidos está se tornando um campo de batalha onde escala é pré-requisito para sobrevivência.

Quando a empresa fez seu IPO em setembro de 2023, o cenário parecia promissor. A receita era sólida, a operação estava se tornando lucrativa e o mercado de entregas pós-pandemia havia se consolidado como hábito de consumo. Dois anos depois, o cálculo mudou. A competição se intensificou com a entrada agressiva de players como Amazon Fresh, Walmart e a própria DoorDash no segmento de supermercado.

O timing faz sentido do ponto de vista financeiro. Com as ações em alta de 25% no acumulado do ano e um valuation de US$ 13 bilhões, a Instacart negocia a partir de uma posição de relativa força. Como já discutimos em nossas análises sobre o setor de tecnologia, empresas que buscam compradores em momentos de alta tendem a obter múltiplos mais favoráveis do que aquelas forçadas a negociar durante crises.

DoorDash e Uber: o que cada uma ganharia

Para a DoorDash, adquirir a Instacart representaria um salto imediato no segmento de supermercado, vertical que a empresa já explora mas sem a mesma profundidade logística. A Instacart possui parcerias com mais de 1.500 redes varejistas nos EUA e Canadá, uma infraestrutura de shoppers (compradores pessoais) e uma plataforma de publicidade digital que fatura centenas de milhões de dólares por ano.

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Essa plataforma de anúncios, chamada Instacart Ads, é particularmente atraente. Grandes marcas de bens de consumo pagam para promover seus produtos dentro do aplicativo, criando uma fonte de receita de alta margem que se assemelha ao modelo da Amazon Advertising. Para a DoorDash, isso significaria não apenas mais pedidos, mas uma vertical de monetização inteiramente nova.

A Uber, por outro lado, aparentemente avaliou a oportunidade e decidiu que não valia a pena. A empresa de Dara Khosrowshahi já opera o Uber Eats com foco em restaurantes e fez aquisições estratégicas no passado, como a compra da Postmates em 2020 por US$ 2,65 bilhões. No entanto, absorver uma operação do tamanho da Instacart exigiria um desembolso significativamente maior e uma integração operacional complexa.

Essa dinâmica reflete um padrão que acompanhamos no mercado de fusões e aquisições: nem toda oportunidade estratégica se converte em negócio quando o preço é alto demais para justificar a sinergia projetada.

O cenário de consolidação no delivery

O movimento da Instacart não acontece no vácuo. O setor de delivery como um todo vive uma onda de consolidação que já vinha sendo antecipada por analistas. Nos últimos anos, a lógica de crescimento a qualquer custo deu lugar à busca por rentabilidade e escala sustentável.

Nos Estados Unidos, o mercado de delivery de alimentos e supermercado é dominado por quatro grandes players: DoorDash, Uber Eats, Instacart e Grubhub. A Grubhub foi vendida pela Just Eat Takeaway para a Wonder Group no início de 2024 por uma fração do seu valor de pico, um sinal claro de que empresas menores estão sendo absorvidas ou desvalorizadas.

Para investidores, a pergunta relevante é: quem ganha com essa consolidação? A resposta tende a favorecer as plataformas que combinam maior base de usuários, diversificação de verticais (restaurantes, supermercado, farmácia, varejo) e margens operacionais crescentes. Esse é o perfil da DoorDash, o que explica por que ela surge como a candidata mais provável a fechar o negócio.

A questão regulatória também merece atenção. Uma fusão DoorDash-Instacart criaria um conglomerado com presença dominante tanto em delivery de restaurante quanto de supermercado nos EUA. É plausível que órgãos antitruste avaliem a transação com rigor, especialmente considerando o ambiente regulatório mais rígido para big techs que se consolidou nos últimos anos.

O que isso significa para o mercado

Para quem acompanha o setor de tecnologia e investimentos, o caso Instacart ilustra uma dinâmica recorrente: empresas que abriram capital na janela de IPOs pós-pandemia enfrentam agora a realidade de provar que conseguem competir de forma independente no longo prazo.

Nem todas conseguem. A Instacart, apesar de lucrativa, opera em um mercado onde a Amazon pode subsidiar entregas gratuitas para membros Prime, onde o Walmart integra delivery com sua rede de mais de 4.700 lojas físicas, e onde a DoorDash tem uma base de dezenas de milhões de usuários ativos.

Vender enquanto as ações estão em alta e a empresa ainda tem poder de barganha pode ser a decisão mais racional. As conversas são preliminares, podem não resultar em nada. Mas o fato de a Instacart ter contratado um banco de investimento para avaliar a situação sinaliza que a liderança da empresa está, no mínimo, reconhecendo que a independência tem um custo crescente.

O desfecho dessa negociação pode redefinir o mapa competitivo do delivery nos Estados Unidos e, por consequência, influenciar como empresas do setor são avaliadas globalmente.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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