IBM despenca 25% na bolsa: o que explica o pior dia da história
A IBM registrou seu pior pregão desde 1968 após receita preliminar ficar US$ 700 milhões abaixo do esperado. O CEO admitiu falhas na execução.
A IBM viveu na terça-feira o pior pregão de toda a sua história como empresa listada em bolsa. As ações fecharam em queda de 24,9% após a companhia divulgar receita preliminar do segundo trimestre de US$ 17,2 bilhões, contra a expectativa de US$ 17,9 bilhões dos analistas. O tombo superou o recorde anterior, registrado no crash de 19 de outubro de 1987, quando os papéis recuaram 23,7%.
Os registros de negociação da IBM remontam a 1968, mas a empresa está listada na Bolsa de Nova York desde 1916. São mais de 100 anos de pregões, e nenhum foi tão brutal quanto este.
O CEO Arvind Krishna foi direto em carta aos investidores: “Falhamos. Não nos adaptamos e não agimos com rapidez suficiente.” A frase resume um trimestre em que vários negócios de grande porte não foram concluídos nos prazos previstos e a divisão de infraestrutura da empresa registrou queda de 7% nas vendas.
O que causou a queda histórica da IBM
O problema central não foi exatamente uma surpresa. A escassez de chips de memória, provocada pela demanda insaciável do setor de inteligência artificial, já vinha afetando a cadeia de suprimentos global. A IBM esperava sentir algum impacto. O que não previu foi a reação dos próprios clientes.
Diante da possibilidade de novos aumentos de preços em componentes críticos, muitas empresas decidiram redirecionar seus orçamentos de tecnologia para comprar servidores, armazenamento e memória de outros fornecedores, protegendo-se de forma antecipada. Isso drenou a demanda por mainframes da linha Z e pelo software associado, dois pilares da receita recorrente da IBM.
Krishna reconheceu que os mainframes Z e o ecossistema de software atrelado a eles foram responsáveis por “grande parte do déficit.” O lucro diluído preliminar também caiu 2%, para US$ 2,27 por ação. A empresa ressalvou que ainda está revisando os balanços e que os números finais podem sofrer ajustes marginais.
A reinvenção da IBM está em risco?
Nos últimos anos, a IBM apostou pesado numa transformação estratégica: deixar de ser vista como uma empresa de hardware legado e se posicionar como uma companhia de software de alto crescimento. Para isso, investiu bilhões em aquisições como Red Hat, HashiCorp e Confluent.
O trimestre ruim coloca essa narrativa sob pressão. Se a própria base de clientes está redirecionando gastos para longe dos produtos IBM, a tese de que o software corporativo seria o novo motor de crescimento perde tração no curto prazo.
Para piorar, a inteligência artificial, que deveria ser aliada nessa virada, também representa uma ameaça. Em fevereiro, as ações da IBM já haviam sofrido uma queda relevante depois que a Anthropic apresentou uma ferramenta capaz de modernizar o COBOL, linguagem de programação antiga que ainda roda em mainframes da companhia. Se a IA consegue automatizar a migração dessas aplicações, o argumento de que empresas precisam continuar dependentes da infraestrutura IBM fica mais frágil.
Efeito contágio em outras empresas de tecnologia
O tombo da IBM não ficou restrito aos seus próprios papéis. Ações de empresas como Workday e ServiceNow, que atuam no mesmo segmento de software corporativo, também registraram perdas expressivas no pregão. O mercado interpretou os resultados da IBM como um sinal de que o redirecionamento de gastos dos clientes pode ser uma tendência mais ampla, e não um problema isolado.
Esse tipo de contágio é relevante para quem acompanha o setor de tecnologia como um todo. Quando uma empresa centenária como a IBM sinaliza que o ambiente macroeconômico está mudando o comportamento de compra das grandes corporações, o alerta vale para todo o ecossistema de fornecedores de TI.
O que isso significa para o investidor
A queda de 25% em um único pregão é um evento raro para qualquer empresa do porte da IBM. Mas o episódio traz lições que vão além do ticker específico.
A primeira é sobre concentração de receita. A dependência da IBM em relação aos mainframes Z e ao software atrelado ficou exposta. Quando um ciclo de compra se altera, o impacto é desproporcional.
A segunda é sobre a narrativa da inteligência artificial. Muitas empresas de tecnologia estão vendendo ao mercado a ideia de que a IA será um vetor de crescimento. Mas, como a IBM ilustra, a IA pode tanto criar demanda quanto destruí-la. A mesma tecnologia que deveria impulsionar as vendas de software da companhia está, simultaneamente, ameaçando tornar obsoleta a infraestrutura que sustenta boa parte da receita.
A terceira lição é sobre a velocidade com que o mercado pune falhas de execução. Krishna admitiu que a equipe não se adaptou rápido o suficiente. Em um ambiente onde capital flui para empresas que demonstram crescimento consistente, qualquer tropeço é amplificado.
O caso da IBM também reforça um padrão que temos visto ao longo de 2026: a disputa por componentes ligados à IA está reorganizando cadeias de suprimentos inteiras. Empresas que não se posicionam como fornecedoras diretas dessa infraestrutura acabam perdendo orçamento de clientes que preferem investir em hardware de ponta agora, antes que os preços subam ainda mais.
Para quem investe no setor de tecnologia, o recado é claro. A transição para a era da IA não será linear, e nem todas as incumbentes sairão fortalecidas. A IBM tem mais de um século de história e já sobreviveu a diversas reinvenções. Mas o mercado, neste momento, está cobrando resultados concretos, não promessas.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.