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Google compra data center da Crusoe no Wyoming por US$ 17 bi

Crusoe vendeu projeto problemático no Wyoming ao Google após falhas de custo e prazo. O caso expõe os limites das startups de data centers na era da IA.

Google compra data center da Crusoe no Wyoming por US$ 17 bi
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

A Crusoe, desenvolvedora de data centers sediada em Denver e avaliada em US$ 30,9 bilhões, confirmou a venda de um projeto inacabado no sudeste do Wyoming para o Google. A gigante de Mountain View, que ironicamente havia sido cortejada pela Crusoe como cliente para essa mesma instalação sem sucesso, agora assume o desenvolvimento com planos de investir US$ 17 bilhões no campus.

O valor exato pago pela aquisição não foi divulgado. Mas o contexto da negociação diz muito sobre o momento do mercado de infraestrutura para inteligência artificial: mesmo empresas bilionárias estão esbarrando nos limites físicos e logísticos de construir na velocidade que a demanda por computação exige.

O que deu errado no projeto da Crusoe no Wyoming

A Crusoe havia anunciado o projeto no ano passado em parceria com a Tallgrass, empresa de infraestrutura apoiada pela Blackstone. O plano original era ambicioso: escalar a instalação até 10 gigawatts de capacidade energética. Para dimensionar esse número, a maioria dos grandes data centers em operação hoje trabalha com capacidades muito inferiores.

O Google, segundo relatos, levantou preocupações sobre o custo e o cronograma de construção sob a gestão da Crusoe. Garantir equipamentos, assegurar fornecimento de energia e lidar com a crescente oposição de comunidades locais tornaram a entrega dentro do prazo e do orçamento uma tarefa que a startup não conseguiu cumprir sozinha.

É um padrão que se repete no setor. Desenvolvedoras independentes de data centers enfrentam gargalos que vão da cadeia de suprimentos de transformadores e geradores até disputas regulatórias com prefeituras e concessionárias de energia. O caso da Crusoe no Wyoming é emblemático, mas está longe de ser isolado.

Por que o Google decidiu assumir em vez de abandonar

A decisão do Google de comprar o projeto, em vez de simplesmente buscar alternativas, revela uma dinâmica central do mercado de infraestrutura de IA: terrenos com acesso a energia em escala são ativos escassos. Encontrar um novo local, negociar conexões com a rede elétrica e obter licenças ambientais pode levar anos. Assumir um projeto já em andamento, mesmo que problemático, encurta esse caminho.

Os US$ 17 bilhões que o Google pretende investir no campus do Wyoming se somam a uma ofensiva global da empresa em infraestrutura. A corrida por capacidade computacional para treinar e rodar modelos de IA transformou data centers no ativo mais disputado do setor de tecnologia.

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Apesar do revés no Wyoming, a relação entre Google e Crusoe não foi encerrada. A startup continua desenvolvendo um outro data center para o Google próximo a Amarillo, no Texas. Isso sugere que a questão não era de confiança na empresa como um todo, mas de capacidade de execução naquele projeto específico.

Crusoe: da mineração de Bitcoin aos maiores contratos de IA

A trajetória da Crusoe é, por si só, um retrato das transformações do setor de tecnologia nos últimos anos. Fundada por Chase Lochmiller e Cully Cavness, a empresa começou como um negócio de mineração de criptomoedas alimentado por gás natural que seria queimado e desperdiçado. O modelo de aproveitar energia residual para minerar Bitcoin era engenhoso, mas o verdadeiro salto veio com a migração para infraestrutura de IA.

Hoje, a Crusoe opera em uma escala completamente diferente. Seu campus em Abilene, no Texas, está sendo construído em fases para Oracle e OpenAI. Um segundo campus de 900 megawatts na mesma região atende a Microsoft, com o primeiro prédio previsto para entrar em operação em meados de 2027. A Meta também é cliente. E, segundo informações de mercado, a firma de trading Jane Street assinou um contrato de US$ 13 bilhões por cinco anos para serviços de nuvem com a Crusoe.

Em setembro, a empresa levantou uma rodada de US$ 3,9 bilhões, mesmo com o problema do Wyoming já público. Entre os novos membros do conselho está JB Straubel, cofundador da Tesla e fundador da Redwood Materials, que havia investido na Crusoe em 2021. A Crusoe se tornou, inclusive, a primeira cliente do negócio de armazenamento de energia de Straubel.

O que isso significa para o mercado de data centers

O episódio Crusoe-Google ilustra uma tensão estrutural. A demanda por computação para IA cresce em ritmo exponencial, mas a construção de infraestrutura física segue presa a limitações do mundo real: tempo de construção, disponibilidade de energia, capacidade de fabricação de equipamentos e aceitação comunitária.

Grandes empresas como Google, Microsoft e Amazon têm balanço para absorver atrasos e estouros de orçamento. Startups, mesmo aquelas avaliadas em dezenas de bilhões, operam com margens de erro muito menores. O modelo de negócio da Crusoe, que gera receita alugando espaço em data centers, cedendo suas próprias GPUs e vendendo poder computacional para inferência de modelos de IA, é sólido em tese. Mas a execução de projetos na escala de 10 gigawatts exige um nível de maturidade operacional que poucos players independentes possuem.

Para o investidor que acompanha o setor de tecnologia, o recado é claro. A infraestrutura de IA é o novo petróleo em termos de demanda, mas os custos e riscos de construção são reais e frequentemente subestimados. Empresas que conseguem entregar projetos no prazo e no orçamento terão vantagem competitiva duradoura. As que não conseguem acabam vendendo ativos para quem pode.

O Wyoming da Crusoe agora é o Wyoming do Google. E os US$ 17 bilhões que vêm a seguir mostram que, nessa corrida, capital não é o problema. Execução é.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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