Gerdau e o boom dos data centers: por que o aço surfou a onda da IA
A expansão de data centers de IA nos EUA impulsiona a demanda por aço longo e coloca a Gerdau como uma das principais beneficiadas do ciclo de investimentos em infraestrutura.
Quando o mercado fala em inteligência artificial, o reflexo imediato é pensar em chips, servidores e big techs. Mas existe uma camada física, feita de concreto e aço, que sustenta toda essa revolução. E é exatamente aí que a Gerdau aparece como uma das teses mais interessantes do momento na bolsa brasileira.
Analistas do UBS BB acabam de elevar o preço-alvo das ações da siderúrgica de R$ 31 para R$ 35, ampliando também as projeções de resultado. A lógica por trás da revisão é direta: a explosão na construção de data centers nos Estados Unidos está criando uma demanda estrutural por aço longo que o mercado ainda não precificou adequadamente.
Data centers de IA consomem aço em escala industrial
Os gastos com construção de data centers nos Estados Unidos cresceram 75% na comparação anual, segundo dados compilados pelo UBS BB. Embora o segmento represente cerca de 5% do total de gastos com construção não residencial no país, sua intensidade no uso de aço longo é desproporcional.
Os números reforçam essa tese. O consumo aparente de vigas e barras comerciais nos EUA avançou 6,5% no acumulado do ano, mesmo com uma queda de aproximadamente 1% nos gastos totais com construção não residencial. Essa divergência não é acidental. Ela reflete a força dos segmentos de construção pesada, justamente onde a Gerdau tem maior exposição.
Como temos acompanhado na cobertura de tecnologia, os grandes provedores de nuvem, conhecidos como hyperscalers, estão acelerando investimentos em infraestrutura. A expectativa é que o início de novas construções avance cerca de 200% até 2027, criando um ciclo de demanda que pode durar vários anos.
O mercado olha para o risco errado
A narrativa dominante sobre siderurgia nos EUA gira em torno de riscos de oferta. Há preocupação com aumento de capacidade instalada e crescimento das importações. Esses são riscos reais, mas a análise do UBS BB sugere que o foco excessivo neles pode estar distorcendo a leitura sobre a Gerdau.
A tese central é que o crescimento da demanda tende a superar qualquer pressão do lado da oferta. Os investimentos em data centers de IA não são um fenômeno cíclico passageiro. Empresas como Microsoft, Google e Amazon já sinalizaram planos de capex na casa das centenas de bilhões de dólares para os próximos anos, como detalhamos na editoria de finanças.
Para os analistas, essa aceleração do consumo deve ser suficiente para absorver a nova capacidade e o aumento de importações, mantendo as margens da Gerdau em patamares elevados. A margem EBITDA esperada para a operação na América do Norte em 2027 foi revisada de 24% para 26,4%.
Revisão de números e câmbio favorável
O UBS BB agora projeta um EBITDA de R$ 13,9 bilhões para a Gerdau neste ano, 3% acima da estimativa anterior. Para 2027, a projeção subiu 8%, chegando a R$ 15,2 bilhões. A revisão reflete principalmente a perspectiva mais otimista para a operação norte-americana.
Há também um componente cambial relevante. A nova premissa de câmbio adotada pelo banco é de R$ 5,40 por dólar, o que naturalmente beneficia os resultados consolidados da Gerdau, já que uma parcela significativa da receita é gerada em moeda americana.
Nos múltiplos atuais, a companhia negocia a 3,5 vezes o EBITDA estimado para 2027, com um retorno de fluxo de caixa livre (free cash flow yield) de 14%. São números que chamam atenção mesmo em um ambiente de juros elevados no Brasil. A empresa vale R$ 47,8 bilhões na B3, com valorização de 33% nos últimos doze meses.
A conexão entre aço e inteligência artificial
O caso da Gerdau ilustra uma dinâmica que investidores mais atentos já começaram a mapear: os efeitos de segunda e terceira ordem da revolução da IA. Os beneficiários óbvios são fabricantes de chips e provedores de nuvem. Mas a cadeia de valor é muito mais extensa.
Data centers precisam de estruturas físicas massivas. São galpões de centenas de milhares de metros quadrados, com fundações robustas, sistemas de refrigeração e infraestrutura elétrica de grande porte. Tudo isso demanda aço, e especificamente o tipo de aço longo que a Gerdau produz em suas operações nos Estados Unidos.
Essa é uma leitura que tem ganhado tração entre analistas de infraestrutura. A ideia de que a corrida pela IA vai beneficiar setores tradicionais da economia real não é nova, mas os dados de construção nos EUA começam a confirmar a tese com números concretos.
O que isso significa para o investidor
A Gerdau se posiciona como uma espécie de pá e picareta da corrida do ouro da inteligência artificial. Enquanto o debate sobre valuations de empresas de tecnologia se acirra, a siderúrgica oferece exposição ao tema com múltiplos comprimidos e geração de caixa robusta.
O risco, naturalmente, existe. Uma desaceleração nos planos de capex dos hyperscalers, mudanças na política comercial americana ou uma recessão nos EUA poderiam comprometer a tese. Mas o cenário base, ao menos por enquanto, favorece empresas que fornecem a infraestrutura física para a expansão digital.
A ação subiu 6,5% em um dia de queda do Ibovespa, sinalizando que o mercado começa a prestar atenção nessa história. A pergunta agora é se o potencial de geração de caixa da operação americana já está nos preços ou se ainda há espaço para reavaliação.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.


