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Explicando como surgem os bilionários de um jeito que até um “Twiteiro” poderia entender.


Por Felippe Hermes
abril 8, 2021

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Foi apenas nos anos 50 que o mundo viu seu primeiro bilionário. Em 2019 vimos um novo surgir a cada 3 dias, nas áreas mais improváveis possíveis.

Jean Paul Getty não usava cartolas e raramente era visto com um charuto na boca, ainda assim, ele é provavelmente um dos maiores estereótipos que um bilionário pode se tornar: um avarento de primeira.

Não se trata de um título fácil de conquistar, mas Getty, fundador da Getty Oil e o primeiro ser humano a conquistar uma fortuna de $1 bilhão, atuou firmemente para conquistar o título, com destaque especial para o verão de 1973, quando seu neto John Paul Getty III, foi sequestrado em Roma.

Foram 6 meses de sequestro, nos quais o patriarca da família se recusou a pagar o resgate alegando que “tenho 17 netos, se eu ceder, terei 17 crianças sequestradas para lidar”.

Quando a imagem de seu neto sem uma das orelhas foi parar em um jornal italiano, Getty cedeu, ainda que a contragosto. O caso chegou recentemente ao cinema, retratado no filme “All The money in The world” (que deveria contar com Kevin Spacey no papel de Getty, não fossem as acusações que fizeram o ator ser ostracizado, resultando em um decepcionante final para House of Cards).

Quase 6 décadas depois, o feito de Getty se tornou quase banal. No último ano, por exemplo, de influencers digitais como as Kardashian a criadores de sites de sucatas, foram inúmeros novos bilionários no planeta.

Ao mesmo tempo em que políticos milionários criam slogans como “Nenhum bilionário deveria existir”, o governo, e mesmo o público, tem agido em sentido contrário.

Ao contrário do estereótipo clássico de Getty porém, os bilionários atuais estão se tornando diversos, em áreas cada vez mais improváveis.

A sul-coreana Kim jun-woong se tornou bilionária graças a uma empresa de cosméticos, e que vendeu 1 bilhão de máscaras durante a Pandemia de Covid. Os russos Dmitry e Igor Bukhman por criarem jogos de celular, Eric Yuan multiplicou sua fortuna ao ver seu app, o Zoom, se tornar viral durante a Pandemia, enquanto o indiano Byju Raveendran viu seu app de educação a distância se tornar uma necessidade e amealhar 42 milhões de usuários.

Juntos eles têm colaborado para a criação dos chamados “Unicórnios”, o termo que dá nome a startups cujo valor ultrapassa $1 bilhão. No Brasil por exemplo, o primeiro unicórnio apareceu em 2016, a “99 Táxis”, e de lá pra cá já saltou para 10.

Em comum, a “disrupção” se destaca. É um termo bonito para descrever uma empresa que “bagunça” um setor tradicional, como a locação de imóveis, virada do avesso pelo unicórnio brasileiro “Quinto Andar”.

A empresa de Eric, por exemplo, desbancou o Skype, o app da Microsoft comprado por $8,5 bilhões em 2011. O feito ganha mais relevância ainda quando se nota que o Skype, parte de uma empresa cujo valor de mercado está em $1.5 trilhão, foi desbancado por outra, criada do zero justamente em 2011.

Casos como estes não são incomuns, ao contrário. Se você tem um pouco mais de idade, provavelmente se lembrará que antes do nerd de Harvard, Mark Zuckerberg, ter criado seu “Facebook”, quem dominava a parada era o MySpace, comprado justamente pela Microsoft.

Quando avaliam a venda que os tornou bilionários, os fundadores da rede, Tom Anderson e John Hart lamentam a decisão. O motivo, claro, foi a crescente burocracia que passaram a enfrentar por se tornarem parte de uma companhia gigante e pouco ágil em decisões.

Voltando um pouco no tempo, a Kodak se tornou referência nessa área, quando apesar de ter criado a máquina digital, apostou na máquina tradicional com filmes para serem revelados (o que lhes rendia boa parte do faturamento).

Todo este processo é antigo, e já foi fartamente trabalhado pelo economista Joseph Schumpeter, que o descreveu como “destruição criativa”, quando a indústria de caça ao óleo de baleia estava sendo destruída pela querosone.

Algumas décadas antes, o francês Frederic Bastiat escrevia sua “petição dos produtores de velas”, onde ironizava uma situação onde produtores de vela se dirigiam ao governo francês para pedir que este tomasse providências contra um fornecedor de iluminação cujos custos tornavam inviáveis a produção de velas: o sol.

Na última década, porém, este fenômeno ganhou uma escala ainda maior, dado que com uma economia cada vez mais integrada e online, as chamadas “barreiras de entrada”, os custos que impedem alguém de entrar em um novo negócio, caíram drasticamente.

Empresas como a Netflix saltaram 2500% na década graças a sua capacidade de instalar uma locadora em 140 milhões de casas ao redor do planeta, algo muito mais prático do que sua principal concorrente há 15 anos, a BlockBuster, que para atender seus consumidores, precisava criar um novo ponto físico em cada esquina.

Onde está a fortuna dos bilionários?

É importante notar que rankings, como os da Forbes ou Bloomberg, consideram ativos públicos, como ações.

No mercado de ações, é comum ver uma empresa promissora, como as startups de tecnologia, serem avaliadas em 30-40 ou até 700 vezes seu lucro, como a Tesla de Elon Musk.

Isso significa que se alguém fundar uma empresa que tenha R$20 milhões de lucro, mas que cresce a taxas significativas, como por exemplo, 30% ao ano, essa empresa poderia ser avaliada em 50 vezes o seu lucro, fazendo assim do seu fundador um “bilionário”, ainda que ele não tenha jamais chegado perto de ter um bilhão na conta, ou ganhado 1 bilhão em lucro ou dividendos.

Estes múltiplos cada vez maiores não estão ocorrendo por acaso. Trata-se de algo comum em função da chamada “política monetária”, que tem jogado dinheiro na economia por meio dos bancos centrais.

Um estudo recente do Deustche Bank por exemplo, estima que 35% do dinheiro recebido por americanos como “auxílio emergencial”, foi destinado a comprar ações.

Mais pessoas comprando ações, número limitado de empresas e oferta de ações, e a conta é simples: as ações existentes passam a valer mais e os fundadores ficam mais ricos.

Quais as consequências disso?

Nem tudo neste mundo, porém, são flores, ou trevas (como insistem os críticos da realidade ao negarem a existência de bilionários).

Se por um lado estes novos empreendedores (dos quais 81% criaram seus negócios de uma base próxima a 0), chacoalham e criam novas empresas tirando espaço de mercados bem estabelecidos, como fez a Amazon ao derrubar ou deixar para trás gigantes como o WalMart, ou ainda, criam negócios completamente novos, como a Uber, por outro, levantam uma certa preocupação.

Ao contrário do que possa supor o jovem da rede social que tornou Jack Dorsey um bilionário, as preocupações dizem respeito não à própria existência de bilionários, mas ao clima que se tem criado, e à sustentabilidade deste novo cenário.

Em fevereiro de 2019 por exemplo, Apple e Microsoft se tornaram, sozinhas, mais valiosas do que todas as companhias listadas na bolsa de valores da Alemanha, país que é a 4ª maior economia do planeta.

Se tirarmos a Apple da jogada, restando apenas a Microsoft, temos um valor de mercado quase 2 vezes maior que a bolsa brasileira,  similar aos ativos totais dos maiores bancos brasileiros (em R$8,3 trilhões, contra R$7,9 trilhões de valor de mercado da Microsoft).

Se há 13 anos o mundo estranhava a existência de uma empresa trilionária, como a chinesa PetroChina (que foi devidamente ignorada em 2018 quando a Apple foi anunciada como a 1ª a atingir a marca), hoje elas estão se tornando comuns. Temos nada menos do que 5 empresas cujo valor ultrapassa $1 trilhão: a Apple, Microsoft, Alphabet (Google), Amazon e Aramco.

Todas, com exceção da Aramco que monopoliza o setor de petróleo na Arábia Saudita, possuem traços similares, como a predominância sobre seu setor, e a tecnologia como ponto central de seus negócios.

Mas afinal, o que há de errado com essas empresas? Seu enorme poder de mercado, capaz de abocanhar grandes fatias nas áreas em que entram, e por meio do “dumping”, garantirem espaço, mesmo sem lucro é uma das questões a serem analisadas.

Parece difícil de entender isso como uma preocupação, afinal, se uma empresa atua transferindo seu lucro de uma área para a outra (como o Google faz ao manter o YouTube mesmo que ele dê prejuízo, ou como a Amazon faz lhe garantindo frete grátis graças ao lucro da sua divisão de servidores), ela está beneficiando o consumidor, correto?

Em partes sim, mas a longo prazo essa conta não fecha, e é aí que mora o problema.

Para fechar uma conta em que o lucro possa aguardar décadas, a única maneira de garantir isso é sabendo que as alternativas não são razoáveis, ou em outras palavras, que nenhum investimento seja mais atraente.

Isso é possível graças à enorme quantidade de dinheiro que tem sido criado pelos bancos centrais ao redor do planeta. Tal quantia sustenta hoje um mercado surreal, com $10 trilhões em títulos públicos que cobram dos investidores. A era dos juros altos “acabou”.

Trata-se de um cenário tão absurdo que até mesmo o Brasil, que já deu 9 calotes em sua história, mantém juros zero.

Há uma outra questão porém que deveria preocupar. Quem viveu nos anos 80 no Brasil, sabe que tal situação acaba criando problemas sociais. Enquanto ricos ou a classe média tinham acesso a mecanismos de proteção, a camada mais pobre da população vivia a face ruim da inflação: poder de compra cada vez menor.

Nos tempos atuais a inflação é outra, e se concentra justamente na parte de ativos. Com mais dinheiro em circulação, o valor do dólar, ou de qualquer moeda, tende a diminuir, ainda que os preços cotidianos não variem tanto.

Veja bem. Inflação é em última instância um aumento da base monetária. Aquilo que vemos no jornal possui outro nome, chamado de “índice de preços”.

Graças a choques tecnológicos e mudanças de hábitos, estes preços podem continuar baixos. Com enorme quantia de recursos fluindo para empresas que hoje se tornam mais comuns na cesta de consumo, é possível até mesmo estabilizar os preços, garantindo assim uma “inflação subsidiada”.

O efeito é similar àquele provocado no Brasil quando o governo petista decidiu que a Petrobras não repassaria preços ao consumidor, reduzindo o aumento de preços de combustíveis, mas desta vez, em escala global.

Onde tudo isso irá parar? A resposta não é exatamente fácil.

Vivemos hoje por exemplo, em uma situação onde o Nasdaq 100, o índice da bolsa de valores americana onde estão as principais empresas de tecnologia, está em pontos nominais 3,3 vezes acima do S&P 500, o índice que reúne empresas de diversos setores. A última vez em que isso ocorreu? 10 de março de 2000, exatas duas semanas antes do estouro da bolha da internet.

Não parece haver no entanto preocupação por parte do mercado quanto a uma bolha, isso porque, as empresas de tecnologia tem crescido, e ainda há bastante espaço para que elas abocanhem de mercados tradicionais.

Os problemas entretanto começam a aparecer. No Brasil, que não é um país de setor tecnológico forte, é possível encontrar empresas negociadas a 140 vezes o lucro. Apostar que algo assim possa ser mantido, é uma ideia um tanto quanto complicada.

Porque alguém investiria por exemplo em uma empresa como Magazine Luiza, supostamente Tech, quando o Google está cortado há 30 vezes o seu lucro? É possível que a Magalu cresça 5 vezes mais rápido do que o Google? Sim, é provável? Aí dependerá da sua fé.

É possível taxar os bilionários?

Impostos sobre grandes fortunas já foram uma tendência bastante relevante. Em 1990 cerca de 12 países adotavam a medida, número que caiu para 4 em 2017.

Os motivos variam, seja no caso da França que viu $220 bilhões deixarem o país (motivo pelo qual o Imposto Sobre Grandes Fortunas foi apelidado de “imposto inglês”), ou na Alemanha, onde os custos se tornaram mais relevantes do que a arrecadação em si.

Em ambos os países a arrecadação não chegou a 0.3% do PIB. Número infimo diante de gastos de 45% do PIB em ambos os países.

No Brasil, uma estimativa do senado federal aponta que R$6 bilhões seriam arrecadados com o imposto. Um valor equivalente a 0,1% do PIB. Em uma alíquota maior do que qualquer outra no planeta, conseguiríamos R$40 bilhões, ou 0,6% do PIB.

Seria o mesmo que 4 meses de orçamento das Forças Armadas, ou o valor do Bolsa Família.

Impostos como sobre dividendos poderiam ser uma boa alternativa, a questão entretanto está na alíquota efetiva. No resto do mundo, onde taxar dividendos é comum, o imposto de renda das empresas costuma ser mais baixo. Na Suécia e nos Estados, o “IRPJ” está em 21%. No Brasil? 34%

Tal medida ocorre para evitar que os lucros saíam das empresas, mantendo assim as companhias capitalizadas para investir e crescer.

Cobrar impostos sobre dividendos além daqueles do lucro já tributado hoje significaria ir além do que faz o resto do mundo.

Nosso imposto sobre herança seria outra questão a ser mudada. Por aqui ele vai de 4 a 8%, contra até 45% nos Estados Unidos. O problema? Começamos a tributar em R$200 mil, enquanto nos EUA o imposto começa a ser pago em $5 milhões de herança.

No final, arrecadamos quase o mesmo, 0,17% do PIB lá e 0,13% aqui.

Nos EUA, como aqui ou na Europa, existem meios de escapar desse imposto, e isso não deve mudar.

O fato é que os bilionários não apenas existem, como estão se tornando, e irão continuar, cada vez mais comuns. São a cada ano mais de 100 deles no mundo.

Boa parte surgindo graças aos seus hábitos de consumo, em enorme mudança, mas também graças a outro fator crucial: seu dinheiro vale cada vez menos.

Para se prevenir, a sua escolha é relativamente simples: comprar ativos (ações, imóveis ou Bitcoin), e entrar na onda, ou criar Hashtags no Twitter, deixando Jack Dorsey ainda mais rico.

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