Tecnologia

EUA investem US$ 2 bi em computação quântica e acirram corrida tech

Governo americano destina US$ 2 bilhões para startups de computação quântica. Entenda o que está em jogo e como isso afeta o setor de tecnologia e cibersegurança.

O governo dos Estados Unidos anunciou um pacote de US$ 2 bilhões para financiar empresas de computação quântica, em uma aposta estratégica para garantir que o país mantenha a dianteira na corrida tecnológica global. A medida envolve aportes diretos em startups e centros de pesquisa, com foco em aplicações que vão de criptografia avançada até simulação de novos materiais.

Não se trata de filantropia tecnológica. Os Estados Unidos enxergam a computação quântica como uma questão de segurança nacional. Quem dominar essa tecnologia primeiro terá capacidade de quebrar boa parte dos sistemas de criptografia atuais, incluindo os que protegem transações bancárias, comunicações militares e, sim, criptomoedas.

O que está por trás do pacote de US$ 2 bilhões

O investimento será canalizado por meio do Departamento de Energia, do Pentágono e da National Science Foundation, com participação direta de fundos de venture capital privados. A ideia é criar um ecossistema que conecte universidades, startups e grandes corporações em torno de metas concretas.

Entre os objetivos está o desenvolvimento de computadores quânticos com mais de 10 mil qubits estáveis até 2030. Para efeito de comparação, os melhores sistemas disponíveis hoje operam na faixa de 1.000 a 1.500 qubits, com taxas de erro ainda significativas. O salto proposto é de uma ordem de grandeza.

O pacote também destina recursos para a chamada “criptografia pós-quântica”, ou seja, novos algoritmos de segurança que resistam ao poder de processamento de máquinas quânticas. Essa frente é particularmente relevante porque, quando computadores quânticos suficientemente potentes existirem, eles poderão tornar obsoletos protocolos de segurança usados há décadas.

Por que a China é o fantasma por trás da decisão

O movimento americano não acontece no vácuo. A China investiu mais de US$ 15 bilhões em computação quântica nos últimos cinco anos, segundo estimativas do Center for Strategic and International Studies. Pequim já demonstrou avanços relevantes em comunicação quântica e mantém o maior laboratório público dedicado ao tema, em Hefei.

A corrida tem paralelos históricos com a disputa por semicondutores que dominou o noticiário nos últimos anos. Como analisamos na cobertura sobre o setor de chips e inteligência artificial, os EUA aprenderam que perder a liderança em tecnologias estratégicas tem custo geopolítico alto.

No campo privado, empresas como Google, IBM, Microsoft e a startup IonQ já competem agressivamente por marcos técnicos. O Google afirmou ter alcançado “supremacia quântica” em 2019 com seu processador Sycamore, mas críticos argumentam que o termo foi prematuro. A IBM, por sua vez, apresentou seu roadmap para sistemas de mais de 100 mil qubits até o fim da década.

Impacto no mercado financeiro e em cibersegurança

Para investidores, o pacote acende duas luzes. A primeira é a valorização de empresas posicionadas na cadeia quântica. Ações de companhias como IonQ e Rigetti Computing reagiram positivamente nas últimas sessões. Fundos temáticos de tecnologia de fronteira também tendem a incorporar a tese.

A segunda, mais sutil, envolve o impacto sobre cibersegurança. Bancos, corretoras e empresas de infraestrutura digital precisarão migrar seus sistemas de criptografia para padrões pós-quânticos. O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) já publicou os primeiros algoritmos recomendados, mas a adoção massiva ainda engatinha.

No universo cripto, a discussão é antiga, mas ganha urgência. O Bitcoin utiliza criptografia de curva elíptica (ECDSA), que seria vulnerável a um computador quântico suficientemente poderoso. Desenvolvedores do protocolo já discutem caminhos de migração, embora o consenso seja de que a ameaça prática ainda está a pelo menos uma década de distância.

Computação quântica vai mudar a economia? A resposta não é simples

Apesar do entusiasmo, é importante calibrar expectativas. A computação quântica não substitui computadores clássicos para a maioria das tarefas. Ela resolve problemas específicos de forma exponencialmente mais rápida: simulação molecular, otimização logística, machine learning em grandes conjuntos de dados.

A consultoria McKinsey estima que a computação quântica pode gerar entre US$ 450 bilhões e US$ 850 bilhões em valor econômico até 2035, com aplicações concentradas em farmacêutica, química, finanças e logística. Mas os primeiros retornos comerciais robustos devem aparecer apenas a partir de 2028 ou 2029.

Para o Brasil, o tema ainda é periférico. O país não possui programa estruturado de computação quântica, e os investimentos públicos na área são marginais comparados aos de potências como EUA, China e União Europeia. Como discutimos na análise sobre tendências do mercado financeiro global, a assimetria tecnológica entre países desenvolvidos e emergentes tende a se ampliar nas próximas décadas.

O pacote americano é, acima de tudo, uma declaração de prioridades. A mesma lógica que motivou trilhões em subsídios para chips e energia limpa agora se aplica à computação quântica. Para quem acompanha tecnologia e investimentos, o recado é claro: a próxima grande ruptura tecnológica não será surpresa. Ela está sendo financiada a céu aberto.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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