Artigo

ENEM reforça mitos e ajuda a espalhar deseducação financeira


Por Felippe Hermes
Janeiro 18, 2021

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Marcada como correta, a resposta para a desigualdade salarial entre Marta e Neymar está longe de ser uma questão de gênero, mas ajuda a entender os problemas de educação financeira no país, a começar pelo baixo entendimento da maneira como salários se formam.

Poucas coisas tornaram-se tão evidentes ao longo dos últimos anos quanto o peso da falta de educação financeira no país.

Com a crise que jogou milhões de famílias na pobreza e aumentou drasticamente a quantidade de famílias endividadas (número que hoje passa de 60%), a ausência de conhecimentos básicos sobre o tema se torna ainda mais preocupante.

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 São problemas dos mais diversos. Como mencionamos há alguns dias por aqui, boa parte dos brasileiros está hoje investindo em títulos que rendem abaixo da inflação, o famoso “100% do CDI”. Ao mesmo tempo, os jovens que entram no mercado de trabalho e são atraídos pelas inovadoras Fintechs, seguem com pouca ou nenhuma noção sobre o peso dos juros no dia a dia.

Neste cenário preocupante, não apenas se proliferam golpes de todos os tipos, com promessas de lucro fácil, mas também conceitos problemáticos, como salários.

Neste último domingo, 17, o Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, voltou a reforçar erros comuns quando o assunto são “salários”, ao comparar os ganhos de Marta, capitã da seleção feminina de futebol, e Neymar.

A resposta exigida pelo ENEM se refere a diferença salarial como “o fato de o futebol ter maior base masculina no país”.

Veja bem. Não é como se o problema de gênero e renda não fosse relevante. Ao contrário. Trata-se de um tema bastante relevante, com implicações bastante sérias na renda média de um país.

O grande problema reforçado pelo ENEM entretanto está na noção de como salários se formam.

Todos os anos o futebol movimenta $1 trilhão. Cerca de $20 bilhões aqui no Brasil apenas.

Como consequência, seus profissionais acabam por estar entre alguns dos mais bem pagos do planeta.

Segundo a FIFA, a maior parte da movimentação está em direitos de transmissão e produtos licenciados.

Supor que haveria igualdade salarial baseada em gênero neste cenário não apenas soaria, como é absurdo.

Salários, em suma, tendem a convergir com a produtividade. Produtividade por sua vez é a quantidade de riqueza produzida por 1 trabalhador. Dado que homens produzem maior riqueza neste esporte, acabam por receber mais.

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Neymar, Messi e CR7 são, em outras palavras, empresas que produzem riqueza para seus clubes e uma indústria. Daí seus ganhos (não apenas salários), elevados.

Negar que exista uma ligação entre salários e produtividade é um problema comum, em especial no Brasil.

Por aqui, nossa produtividade segue crescendo pouco há 4 décadas. De fato, produzimos a mesma quantidade de riqueza por trabalhador do que há 40 anos.

A consequência é que em diversos setores nossos salários tem caído dramaticamente.

Entre 2005 é 2016 por exemplo, um trabalhador industrial brasileiro viu seu salário cair de $2,9 ara $2,7.

Em outras áreas a tendência segue a mesma.

Resolver os problemas de produtividade do país passam essencialmente por educação, onde o ENEM deveria apoiar, mas também passam por uma melhor alocação de recursos.

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Rafael Vasconcellos, da FGV, aponta que se o capital fosse melhor empregado no país, reduzindo o chamado “Misallocation”, o trabalhador brasileiro poderia ser 146% mais rico.

Como melhorar a alocação de capital? Uma das maneiras mais fáceis de se fazer isso é justamente aumentando a participação da população e do mercado financeiro no financiamento de empresas, garantindo que projetos de maior retorno e eficiência recebam mais recursos.

Ainda hoje porém, cerca de 47% do crédito brasileiro é subsidiado, ou seja, é destinado a grupos de interesse que se articulam para receber financiamento de bancos públicos.

O resultado é um aumento da ineficiência, que se soma a baixa educação brasileira para manter nossa indústria, e serviços, longe do ideal competitivo no mundo, promovendo baixo crescimento.

A ironia da questão é que essa baixo produtividade termina manter homens e mulheres, independente de gênero, mais suscetíveis a vagas de empregos ruins. No final das contas portanto, uma defesa ruim de fatores que permitem a formação de melhores salários resulta em um país onde impera a deseducação financeira

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