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Ellison cancela venda de US$ 7,5 bi em ações da Oracle

Fundador da Oracle desistiu de se desfazer de 50 milhões de ações um dia após revelar o plano. A empresa enfrenta pressão por gastos bilionários com IA.

Ellison cancela venda de US$ 7,5 bi em ações da Oracle
Foto: Zetong Li / Unsplash

Larry Ellison, fundador e presidente do conselho da Oracle, cancelou um plano de venda de até 50 milhões de ações da companhia, uma participação avaliada em cerca de US$ 7,5 bilhões. O recuo aconteceu apenas um dia depois de a empresa divulgar publicamente a intenção do executivo de se desfazer dos papéis. Nenhuma ação chegou a ser negociada sob o programa.

O episódio expõe um problema crescente para a Oracle e para outras gigantes de tecnologia: como justificar gastos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial enquanto margens de lucro encolhem e investidores perdem a paciência.

O que estava por trás do plano de venda de Ellison

O programa de negociação foi adotado em 22 de junho e previa a venda de até 50 milhões de ações até 24 de outubro. Na data de criação do plano, a participação valia cerca de US$ 8,75 bilhões. Desde então, as ações da Oracle acumularam queda de 16%, reduzindo o valor potencial para US$ 7,5 bilhões.

Ellison controla aproximadamente 40% da Oracle. A decisão de recuar veio acompanhada de um comunicado direto: ele não possui outros planos de vender ações. Para um investidor atento à dinâmica de mercados e governança corporativa, o movimento levanta questões relevantes sobre o momento da empresa.

A queda de 16% nas ações desde junho já sinalizava o desconforto do mercado com o rumo operacional da companhia. Um plano de desinvestimento desse porte por parte do fundador, num momento de fragilidade, funcionaria como um sinal negativo adicional.

O peso dos gastos com IA no balanço da Oracle

A Oracle enfrenta um dilema que afeta diversas empresas de tecnologia em 2026. A corrida pela infraestrutura de inteligência artificial exige investimentos massivos em data centers, chips e energia. A companhia firmou contratos importantes com a OpenAI e outros clientes de IA generativa, mas o retorno financeiro desses acordos ainda não compensou a pressão sobre o caixa.

Na última divulgação de resultados, a empresa reportou margens brutas menores do que o esperado. As ações caíram mais 1,7% após a publicação dos números. Como analisamos em matérias anteriores sobre o impacto dos gastos com IA nas big techs, o mercado tem sido cada vez mais criterioso ao avaliar se os investimentos em infraestrutura vão gerar retorno proporcional.

O problema não é exclusivo da Oracle. Microsoft, Google e Amazon também enfrentam questionamentos semelhantes. A diferença é que a Oracle opera com margens historicamente mais apertadas no segmento de nuvem, o que torna cada dólar investido mais relevante proporcionalmente ao balanço.

Corte de empregos e tentativa de preservar caixa

Paralelamente ao episódio das ações, a Oracle iniciou uma rodada significativa de demissões. A empresa agora estima custos de US$ 2,8 bilhões relacionados à redução da força de trabalho, um aumento de US$ 700 milhões em relação à projeção anterior. Trata-se de milhares de posições eliminadas.

A lógica é clara: cortar despesas operacionais para liberar caixa que sustente os investimentos em IA. Essa estratégia, porém, tem limites. Demissões em massa geram custos de curto prazo, como indenizações e reestruturação, antes de produzirem economia efetiva. O aumento na estimativa de custos com a reestruturação mostra que a operação foi maior do que o inicialmente planejado.

Para quem acompanha a dinâmica do mercado financeiro global, a combinação de cortes agressivos com investimentos pesados em IA configura um cenário de alto risco e alta convicção. A Oracle está apostando que a demanda por infraestrutura de IA vai justificar o sacrifício de curto prazo.

Os interesses pessoais de Ellison fora da Oracle

Outro fator que pode ter motivado o plano original de venda é a vida financeira pessoal de Ellison. O fundador da Oracle tem sido um dos principais financiadores das atividades comerciais de seu filho David Ellison, incluindo a proposta de aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance por US$ 110 bilhões.

Operações desse porte exigem liquidez. Vender US$ 7,5 bilhões em ações seria uma forma direta de levantar capital para projetos fora da Oracle. Com o cancelamento do plano, resta saber como Ellison pretende financiar essas ambições sem recorrer à venda de sua participação na empresa.

O que isso significa para quem investe em tecnologia

O episódio da Oracle ilustra três dinâmicas que vão definir o setor de tecnologia nos próximos trimestres. Primeiro, a pressão sobre fundadores e executivos que tentam monetizar participações em momentos de fragilidade. Segundo, a dificuldade de equilibrar investimentos em IA com expectativas de rentabilidade de curto prazo. Terceiro, a crescente importância da comunicação com o mercado.

A desistência de Ellison em menos de 24 horas mostra que o mercado reagiu com velocidade e clareza. Investidores não aceitaram a sinalização de que o controlador queria sair parcialmente da posição enquanto pedia ao mercado que confiasse na estratégia de longo prazo.

Para quem acompanha ações de tecnologia, o caso serve como lembrete: em momentos de transição tecnológica, o alinhamento entre discurso e prática dos executivos é tão importante quanto os resultados trimestrais.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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