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Crise energética nos EUA ameaça IA, mas poupa Nvidia e Broadcom

Déficit de 34% na energia para data centers até 2028 pode travar a expansão da IA nos EUA, mas as duas maiores fabricantes de chips seguem blindadas, segundo análise do Morgan Stanley.

Crise energética nos EUA ameaça IA, mas poupa Nvidia e Broadcom
Foto: panumas nikhomkhai / Unsplash

O boom da inteligência artificial criou um problema que dinheiro, sozinho, não resolve: falta energia elétrica. Os bilhões de dólares despejados na construção de data centers nos Estados Unidos esbarram numa infraestrutura energética que não acompanha o ritmo da demanda. E o gargalo começa a redesenhar o mapa de vencedores e perdedores na cadeia de semicondutores.

Um relatório do Morgan Stanley publicado nesta segunda-feira estima que os desenvolvedores de data centers nos EUA enfrentarão um déficit líquido de energia de 34% até 2028, o equivalente a 32 gigawatts. Para colocar em perspectiva, isso representa mais do que toda a capacidade instalada de geração eólica do Brasil. O número evidencia que o problema não é marginal: é estrutural.

A conclusão central do banco, porém, surpreende pelo otimismo seletivo. Nvidia e Broadcom, as duas maiores fornecedoras de chips de alto desempenho para IA, estão relativamente protegidas contra esse cenário. O risco real recai sobre os elos secundários da cadeia: fabricantes de chips de memória, componentes ópticos, gerenciamento de energia e processadores analógicos.

Por que Nvidia e Broadcom escapam do gargalo energético

A lógica do Morgan Stanley é relativamente simples. Nvidia e Broadcom têm visibilidade privilegiada sobre a alocação de seus chips, a expansão geográfica dos clientes e a coordenação entre centros de dados, fornecedores e a cadeia de abastecimento de energia. Isso significa que essas empresas conseguem antecipar onde haverá capacidade de instalação e direcionar sua produção de acordo.

Na prática, os maiores compradores de GPUs da Nvidia, como Microsoft, Google, Amazon e Meta, são justamente os operadores de data centers com maior poder de negociação junto a concessionárias de energia e governos locais. Esses hyperscalers já garantiram contratos de fornecimento de longo prazo e estão diversificando geograficamente suas operações, inclusive para fora dos EUA.

O banco afirmou que não vê os gargalos energéticos colocando em risco as previsões de receita da Nvidia ou da Broadcom para 2027. A análise reforça uma tese que o mercado financeiro já precifica parcialmente: essas duas companhias operam num nível de demanda tão elevado que mesmo restrições de infraestrutura não reduzem a fila de pedidos, apenas redistribuem onde os chips serão instalados.

Quem paga a conta: os elos frágeis da cadeia de IA

Se a capacidade de produção de chips não puder ser implantada por falta de energia nos data centers, os clientes poderão adiar entregas ou cancelar pedidos. E os componentes mais expostos a esse risco são justamente os que dependem de volumes elevados para manter margens saudáveis.

Fabricantes de chips de memória, como Micron e SK Hynix, operam com margens mais estreitas e dependem do ritmo de construção de novos data centers para manter a demanda aquecida. O mesmo vale para fornecedores de componentes ópticos, essenciais para a conectividade entre servidores, e para empresas de gerenciamento de energia e chips analógicos. Como analisamos na cobertura de tecnologia do portal, a cadeia de semicondutores funciona como um ecossistema integrado, e o atraso num elo propaga efeitos em cascata.

O Goldman Sachs também sinalizou restrições crescentes à expansão dos data centers nos EUA, embora com uma leitura levemente diferente. O banco espera impacto limitado no curto prazo, em parte pela resistência política a medidas que freiem investimentos em IA. Já o Morgan Stanley enxerga desafios mais concretos, ligados a mão de obra, fornecimento de energia e entraves regulatórios.

O déficit de 32 GW e o que isso significa para investidores

O número de 32 GW de déficit projetado para 2028 não é apenas uma curiosidade técnica. Ele tem implicações diretas para quem investe em empresas de tecnologia e infraestrutura. A construção de novas usinas de geração, linhas de transmissão e subestações leva anos. Mesmo com o incentivo bilionário dos governos federal e estaduais, a oferta de energia não se expande na mesma velocidade que a demanda por computação.

Esse descompasso já está gerando movimentos concretos. Empresas como Microsoft fecharam contratos para reativar usinas nucleares. Amazon investiu em geração solar e eólica dedicada a seus data centers. Google assinou acordos de compra de energia geotérmica. Como acompanhamos na editoria de finanças, o setor de energia virou talvez o maior beneficiário indireto do boom de IA, com ações de concessionárias e empresas de infraestrutura elétrica acumulando altas expressivas nos últimos 12 meses.

Para o investidor, a leitura é que a tese de Nvidia e Broadcom permanece intacta no médio prazo, mas o risco migrou para a segunda e terceira camadas da cadeia. Empresas que pareciam apostas seguras no ciclo de IA, como fabricantes de memória HBM e fornecedores de equipamentos de rede, agora carregam um risco adicional de atraso na implantação que não estava no radar há seis meses.

IA e energia: um gargalo que veio para ficar

O cenário descrito pelo Morgan Stanley não é temporário. A demanda energética da IA generativa cresce exponencialmente a cada nova geração de modelos. O treinamento do GPT-4 consumiu estimados 50 GWh de eletricidade. Modelos futuros devem demandar ordens de magnitude a mais. E a inferência, o uso cotidiano dos modelos por bilhões de pessoas, adiciona uma camada contínua de consumo que não existia antes.

A questão energética, portanto, deixou de ser um risco periférico e se tornou o principal limitador da velocidade de expansão da IA nos Estados Unidos. Países que conseguirem resolver essa equação primeiro, seja por abundância de recursos naturais, seja por agilidade regulatória, tendem a capturar uma fatia desproporcional dos investimentos em infraestrutura de IA. Como discutimos na cobertura sobre o setor de tecnologia, o Brasil aparece como candidato relevante nessa corrida, dada sua matriz energética predominantemente renovável.

Para quem acompanha o mercado financeiro, a mensagem é clara: a narrativa de IA continua poderosa, mas os riscos estão se redistribuindo ao longo da cadeia. Nvidia e Broadcom seguem como as posições mais defensivas dentro do tema. O resto do ecossistema precisa provar que consegue entregar crescimento mesmo com a energia jogando contra.

Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.

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Sobre o autor
Renato Moura
Enxerga o mercado como vasos comunicantes: uma fala do Fed mexe no petróleo, o Bitcoin escorrega junto com as bolsas. Cobre a macro global e o efeito da política monetária e da geopolítica no preço dos ativos.
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