Tecnologia

Coreia do Sul aposta US$ 900 bi em chips e IA para dominar era da memória

Samsung e SK Hynix lideram plano de US$ 900 bi em novas fábricas de memória e data centers de IA. A escassez global de chips, chamada de RAMageddon, está por trás da aposta.

Coreia do Sul aposta US$ 900 bi em chips e IA para dominar era da memória
Foto: Andrey Matveev / Unsplash

As duas maiores fabricantes de chips de memória do mundo decidiram que o momento de dobrar a aposta é agora. Samsung e SK Hynix anunciaram, juntas, um plano que ultrapassa US$ 900 bilhões em investimentos voltados a semicondutores, embalagem de memória HBM e data centers de inteligência artificial. O volume é extraordinário, mas o contexto que o justifica também é: o mundo vive uma escassez brutal de chips de memória provocada pela explosão da infraestrutura de IA, um fenômeno que a indústria já batizou de RAMageddon.

O anúncio foi feito durante um briefing presidencial nesta segunda-feira, com a presença dos presidentes da Samsung e da SK Hynix. O presidente sul-coreano Jae Myung Lee classificou 2026 como o ano em que o país precisa se tornar uma “potência industrial insubstituível” e chamou semicondutores, IA física e data centers de “triplo eixo da próxima era industrial” da Coreia do Sul.

O que está por trás do plano de US$ 900 bilhões

O investimento se divide em três frentes. A primeira, e mais volumosa, destina US$ 518 bilhões à construção de quatro novas fábricas de memória no sudoeste do país, uma região que historicamente recebeu pouco investimento em semicondutores. A segunda direciona US$ 52 bilhões para um hub de embalagem de memória HBM (high bandwidth memory) na região central. A terceira reserva outros US$ 356 bilhões para data centers de IA, que serão construídos por conglomerados coreanos como SK, GS e Naver até 2035.

O presidente Lee reconheceu que as instalações existentes nas cidades de Yongin e Pyeongtaek, o coração do cinturão de semicondutores ao sul de Seul, “já atingiram seus limites”. A estratégia é descentralizar a produção, espalhando a cadeia produtiva para o sudoeste e gerando desenvolvimento econômico fora da capital. Samsung escolheu a cidade de Gwangju, cerca de 300 quilômetros ao sul de Seul, para uma nova fábrica, citando incentivos em energia, água e infraestrutura para trabalhadores.

Samsung e SK Hynix: os números individuais impressionam

A Samsung divulgou separadamente um plano de investimento de aproximadamente US$ 1,7 trilhão ao longo da próxima década, com US$ 275 bilhões reservados para a região de Honam, no sudoeste. Além da fábrica de semicondutores em Gwangju, a empresa planeja um data center de IA na cidade de Haenam, na ponta sul da península coreana.

O SK Group, por sua vez, anunciou um roteiro de médio e longo prazo de cerca de US$ 1,4 trilhão. Desse total, US$ 710 bilhões irão para expansão da capacidade produtiva de semicondutores e outros US$ 650 bilhões para data centers de IA em todo o país. A SK Hynix lidera a frente de chips, enquanto a SK Telecom ficará responsável por construir 15 gigawatts de capacidade em data centers de IA. Para efeito de comparação, como analisamos na cobertura sobre o avanço das big techs em infraestrutura de IA, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft devem gastar, juntas, US$ 650 bilhões em infraestrutura de IA apenas neste ano.

RAMageddon: por que o mundo precisa desesperadamente de chips de memória

O termo RAMageddon resume bem a situação atual. A construção acelerada de data centers voltados a inteligência artificial, impulsionada por modelos de linguagem cada vez maiores e aplicações de IA generativa, criou uma demanda sem precedentes por chips de memória. Samsung, SK Hynix e a americana Micron, as três maiores do setor, registram demanda recorde. A memória HBM, em particular, tornou-se um componente crítico: é ela que alimenta os aceleradores de IA como os GPUs da Nvidia, empilhando camadas de DRAM para oferecer largura de banda muito superior à memória convencional.

O desequilíbrio entre oferta e demanda explica a urgência dos investimentos. A questão é que fábricas de semicondutores levam anos para ficarem prontas. Um fab de ponta pode demorar de três a cinco anos entre o início da construção e a produção em escala. Isso cria um risco real: quando as novas instalações estiverem operando, a demanda pode ter arrefecido, deixando as empresas com excesso de capacidade e preços em queda. É um ciclo conhecido na indústria de semicondutores, que já passou por várias ondas de sobre-investimento seguidas de correções dolorosas. Quem acompanha os ciclos de investimento em tecnologia sabe que esse padrão é recorrente.

Pressão do governo ou decisão empresarial?

O presidente Lee fez questão de rebater reportagens que sugeriam pressão governamental sobre as empresas. Segundo ele, as decisões refletem o julgamento das próprias companhias, e o papel do governo é “investir suas capacidades para que as empresas possam investir sem prejuízos e com melhores perspectivas”. Na prática, o Estado coreano está oferecendo incentivos fiscais, infraestrutura e condições especiais de energia e água para viabilizar os projetos.

Essa dinâmica não é exclusividade coreana. Os Estados Unidos aprovaram o CHIPS Act em 2022 para atrair fábricas ao país. A União Europeia tem seu próprio European Chips Act. A diferença é de escala: o volume anunciado pela Coreia do Sul supera qualquer programa governamental ocidental em valor absoluto, ainda que parte significativa venha do setor privado.

O que isso significa para o mercado global de tecnologia

Se executado, o plano consolida a posição da Coreia do Sul como fornecedora essencial da cadeia global de IA. Hoje, Samsung e SK Hynix já dominam o mercado de memória DRAM e NAND. Com a expansão, o país amplia sua influência justamente no elo da cadeia que está mais pressionado. Para empresas como Nvidia, AMD e até hyperscalers como Google e Microsoft, a promessa de mais capacidade produtiva é bem-vinda no curto prazo.

Para o investidor, o sinal é claro: a corrida por infraestrutura de IA não mostra sinais de desaceleração. Os US$ 900 bilhões coreanos se somam a centenas de bilhões já comprometidos por big techs americanas. A questão que fica é se o mercado de memória conseguirá absorver toda essa capacidade sem repetir ciclos de baixa que marcaram a indústria no passado. Como discutimos em nossa cobertura sobre os impactos financeiros da corrida por IA, os riscos de sobreinvestimento são reais e merecem atenção.

A execução será o teste definitivo. Planos trilionários anunciados em briefings presidenciais impressionam, mas fábricas de chips se constroem com engenheiros, equipamentos de litografia e anos de paciência. A cadeia global de IA vai acompanhar de perto se a Coreia do Sul consegue entregar o que prometeu.

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Sobre o autor
Lucas Ferreira
Fica na fronteira onde a inteligência artificial encontra o dinheiro. Cobre big techs, os modelos que saem dos laboratórios e a disputa por chips por trás de tudo. Mostra por que cada movimento do setor mexe com o mercado.
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