Economia

Como o Peso argentino foi de 4 para 350 por 1 dólar em uma década

Desde 2011, o Peso argentino tem seguido ladeira abaixo com os constantes déficits do governo e a elevada inflação.

Foi em 2011 que o governo argentino entrou com uma queixa criminal contra os economistas ligados a Mys Consultores. O crime? Divulgar uma inflação diferente da oficial.

O fato, que poderia ser considerado corriqueiro, como os índices de inflação produzidos pela FGV no Brasil, irritou o governo argentino pela discrepância.

Na inflação encontrada pela Mys, o resultado foi de 23% em 2010. Na inflação do governo: 10%.

O objetivo da Mys foi atender a investidores estrangeiros com títulos atrelados a taxas de inflação, o que, graças à fraude aplicada pelo governo, teria gerado $2,3 bilhões a menos nos títulos indexados.

Na análise de preços feita pela consultoria, um litro de leite era vendido no mercado a AR$4 pesos, enquanto nas contas do governo, estava em AR$2,5. 

Discrepâncias como essa se acentuaram na primeira década do século XXI. Assim como o Brasil, a Argentina se viu em meio a um boom de commodities.

O país de 45 milhões de habitantes, que já foi a economia mais rica do mundo em 1896, produz alimentos suficientes para 400 milhões de pessoas, tendo sido enormemente beneficiado com a alta de produtos como carne, soja e trigo.

Os bons resultados na economia, porém, sempre conviveram com a inflação que insistia em continuar alta.

Em boa medida, as causas da inflação Argentina estão na relação entre o Banco Central e o governo. Ao contrário do Brasil, não há lei na Argentina que impeça o BC de comprar títulos do tesouro, e muito menos leis que impeçam o governo de emitir dívida para bancar títulos correntes.

No Brasil, o governo é proibido de financiar seus gastos com dívida, por meio da Regra de Ouro, criada junto da LRF.

O cenário implica que, na medida em que o governo argentino viu uma enxurrada de dólares com o boom de commodities, os gastos públicos cresceram. Já após 2008, com a crise global, o país se viu com gastos obrigatórios mas sem a receita das commodities que se encontravam em baixa.

Para amenizar a situação, o governo elevou seu endividamento, financiamento déficits públicos elevados com impressão de moeda.

Na outra ponta, as fraudes em índices de inflação se tornaram comuns. O governo chegou a obrigar o INDEC, o instituto responsável por medir a inflação, a revelar quais estabelecimentos constavam na lista para auferir preços.

A inflação Argentina se tornou um caso persistente ao longo da década seguinte, com o câmbio acompanhando afetando o peso argentino.

Se em 2011 4 pesos valiam 1 dólar, em 2020 o resultado já estava em 110 para 1. Isso, claro, no índice oficial de peso argentino na década.

Em meio a pandemia, a desvalorização se tornou mais veloz. Com déficits públicos elevados, uma situação de pobreza crescente, o governo decidiu ampliar os controles e restrições na economia, asfixiando o setor produtivo para, em vão, tentar salvar os resultados em indicadores sociais.

Agora, em 2022, o governo argentino se vê com uma situação fiscal frágil, o Peso desvalorizado, e uma guinada na política americana. 

Os EUA tem elevado sua taxa de juros, o que drena os dólares do mundo de volta ao país em que foram fabricados. 

O resultado é que mesmo moedas como o Euro perderam valor frente ao dólar.

A Europa, que possui taxa de juros 0 (e que até junho tinha juros de -0,5%), viu o Euro valer menos de 1 dólares pela primeira vez desde sua criação.

O Real também luta para manter os R$5,5, mesmo com a elevação de juros por parte do Banco Central.

Já o Peso argentino chegou a 350 para 1 na década, com o governo vendo suas reservas de dólar evaporarem.

Em alguns lugares, como no norte da Argentina, a população já passou a utilizar a moeda boliviana. O “Boliviano”, está fortalecido graças a alta de preços em produtos como Gás natural, do qual a Bolívia é grande exportador.

O resultado é que, a nota mais valiosa da Argentina hoje, a de 100 pesos, equivale a algo como R$15 ou $2,8.

No Brasil, México, Peru e Colômbia, a nota mais valiosa equivale a aproximadamente $40. 

Argentinos se veem hoje tendo de utilizar maços de papel moeda para comprar produtos básicos nos mercados, ou frequentar restaurantes.

A taxa de juros, por sua vez, segue em 52%, o que considerando a inflação de 60%, implica que a Argentina possui uma taxa de juros menor do que a Suíça, o que afasta investidores e restringe a quantidade de dólares no país. 

Já no Brasil, nossa taxa de juros segue entre as mais altas do mundo. O que, até o momento, tem servido para segurar o dólar, ainda que em um patamar elevado.

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